Conto: O Beijo da Morte

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Agora são seis contos! O projeto 12 Contos continua!

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Despido do uniforme listrado e sem os terríveis sapatos de madeira tão pequenos para os seus pés, Hansell, na antessala do banheiro coletivo, aguarda os outros se despirem. Não tomou banho desde que chegou a Auschwitz e não se envergonha por estar nu. Deixou de ser um humano, reduziram-no a uma sequência aleatória de números tatuados no seu antebraço direito. O ar gelado, da antessala, envolve seu corpo magro. Uma estrutura de ossos ambulante vestindo uma pele pálida com hematomas e cicatrizes de cortes superficiais. A pele, repuxada, marca o contorno dos ossos como se fosse uma roupa apertada. Com a coluna alquebrada foi mandado para o famigerado banho. De onde nunca ninguém voltou.

As expressões carrancudas dos oficiais lhe relembram as humilhações e torturas sofridas nos meses anteriores. Resignado, sem esperança ou força física para resistir, se deixa empurrar banheiro adentro. Um salão comprido, mal iluminado por lâmpadas amareladas, sem janelas e com cheiro de morte. As paredes e o piso de cimento queimado têm marcas de arranhões de unhas. No teto, uma encanação enferrujada sustenta os chuveiros. Hansell vê, lá dentro, a onipresente cruz negra, inclinada e com as quatro pontas dobradas em sentido horário.

O amontoado de judeus excede a capacidade máxima do banheiro. O estrondo ao fechar a porta ecoa um mau agouro. As lâmpadas são desligadas.  Rapidamente o frio dá lugar ao calor abafado e os claustrofóbicos se exaltam e se espremem uns contra os outros em direção à porta. Hansell ouve xingamentos em diferentes idiomas. Sente cotoveladas pelo corpo e tenta pular quando calcanhares duros lhe esmagam os dedos dos pés. Ouve um chiado baixo, mas nenhuma gota de água cai sobre eles. Na escuridão não enxerga o gás esbranquiçado vazar por orifícios nas paredes. Todos tossem quando um cheiro forte de amêndoas amargas impregna o ar. O oxigênio parece ter acabado e o tumulto, antes gerado pelo aperto, se intensifica. Em direção á porta uns pisam sobre os outros. Lamentos individuais unem-se em gritos de protestos e pedidos de socorro. Os mais fracos são pisoteados ou imprensados. Jatos de vômito espirram em todas as direções e o cheiro de urina e fezes se alastra. Estalidos seguidos de gritos denunciam ossos quebrados por pisões, como se fossem galhos secos.

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Hansell escala uma montanha de corpos emaranhados enquanto é empurrado e puxado pelo mar de mãos ao seu redor. Rasgões, mordidas, chutes e pontapés não o param. Tenta esquecer que cada degrau é um ombro, rosto ou cabeça humana. A compaixão poderia afogá-lo. Sobe até bater a cabeça no teto e se segura num dos chuveiros suspensos. O gás arde no caminho para os pulmões. Latejando, sua cabeça pesa. Equilibra-se com dificuldade sobre a massa humana que tremula sob ele. Não controla seus movimentos após os espasmos das primeiras convulsões e afunda. Seu coração para de bater e é surpreendido pelos sentidos e emoções que lhe abandonam o corpo. Esmagado, Hansell, recebe o único ato de amor desde que fora capturado pelo exército do führer, o beijo da morte.

 ***

Abrem a porta. Uma massa fundida de corpos humanos tapa o acesso ao interior do banheiro, com excrementos e sangue lhe servindo de argamassa. Encarregados separam os corpos e após o banho de gás não os enrolam numa toalha, os levam para secar no crematório. Mal limpam a câmara de gás e um trem anuncia a chegada de mais judeus, negros e ciganos. Aumenta-se, na conta do Holocausto, mais um milhar de mortos.

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