Conto: O Final da Criação – O Zero – William Glück

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Leia antes a parte 1 aqui.

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O zero… Ah o zero. Como ele devia se comportar era um dos assuntos mais polêmicos nas rodinhas de bar Universo à fora. Uns falavam que o fatorial de zero devia ser zero, mas daí o fatorial de qualquer número seria zero o que causaria uma grande confusão. Outros diziam que qualquer coisa dividido por nada devia ser infinito, já que se você não dá nada pra ninguém a coisa em questão nunca acaba, alguns já por sua vez defendiam que isso era uma impossibilidade matemática e não devia ser discutido. Para se criar uma discussão mais ferrenha que essa só botando em pauta qual bronzeado era o mais agradável e bonito: de uma estrela vermelha ou de uma estrela amarela?

Finalmente, na criação do planeta Água (o nome foi alterado pra Terra  mais tarde, numa tentativa mal sucedida de ironia) chegara o momento de decidir como o zero seria. O formato foi escolhido rapidamente, apesar de muita gente achar que uma bola devia ser o símbolo do infinito ou do excesso de peso e não do nada só porque não tinha ângulo. Sem atenção e desleixadas foram seguindo as votações. O momento do anúncio formal de qual seria o resultado de “zero vezes alguma coisa” havia chegado:

– Senhores, Senhoras e afins, viemos anunciar a definição regrática 389 que regerá esse quarteirão do Universo. Fica decidido por 36 votos à 3 que qualquer número vezes zero será zero.

Era uma decisão razoável e adotada em muitos outros lugares, exatamente por isso ninguém esperava uma manifestação tão dramática e teatral por parte dos representantes do FMU (Fundo Monetário Universal).

Continua…