Conto: O menino que não podia se molhar

3
1251

Agora são cinco contos. Leia para descobrir por que Camilo não pode se molhar. O projeto 12 Contos continua! 

capas_05

Numa tarde de sol, todos observam, na pracinha do bairro, um menino estranhamente branco que veste uma capa amarela, galochas de borracha e um pequeno guarda-chuva improvisado, preso na cabeça. Escoltado do lado direito por seu pai, Joaquim, e do lado esquerdo por sua mãe, Ernestina, esse garoto, Camilo, nunca antes pusera os pés fora de casa. Sentam os três, pai, mãe e filho, no banco mais afastado. Camilo não fixa o olhar em nada por mais de três segundos, há muitas coisas novas para ver. Os pais, em estado de alerta, temem alguma ameaça. As formigas se aproximam pela terra e o sol se esconde por detrás das nuvens. Percebendo isso, o casal corre com o menino de volta para casa. Mesmo breve, o passeio encanta o garoto e apesar do receio de tirá-lo de casa, seus pais lhe prometem passeios regulares, mas deve sempre sair com trajes de chuva, mesmo em dias de sol. Ninguém entende o exagero dos pais em superprotegê-lo e nem o excessivo medo de que ele se molhe.

Noutro passeio, na pracinha, as crianças se divertem. Sentado no banco, Camilo pede autorização para brincar. Assombrados, como se o filho pedisse permissão para ir à guerra, seus pais o levam, a contragosto, até o parquinho. Sem soltá-lo em nenhum momento, Joaquim o põe no balanço, mas não o empurra; o sustenta pelos braços descendo-o lentamente pelo escorregador e ainda afasta qualquer criança que tenta se aproximar. A triste figura de Camilo é motivo de piadas para os outros, mas apesar do constrangimento, ele prefere sair a ficar trancado em casa. Quando era inocente e não conhecia o mundo lá fora, existia só o desejo e a curiosidade, mas depois que experimentou era impossível viver sem isso e ainda ansiava por mais; desejava a permissão para brincar como as outras crianças. O desejo de liberdade é demasiado sufocante, tanto que Camilo, passado algum tempo, planeja fugir.

 ***

Ernestina limpa sem cessar a casa para afastar as formigas que perseguem Camilo e, cansada, sempre cochila durante a tarde. Ele aproveita a situação e na ponta dos pés, abre a porta fechando-a sem bater. Pela janela vê seus trajes de passeio, as galochas e a capa de chuva, mas não volta para pegá-los. O seu estranho guarda-chuva ele faz questão de esquecer. Hoje seria diferente. Sozinho do lado de fora, sente-se livre sem a escolta habitual dos pais e leve sem o peso do guarda-chuva na cabeça.

Na pracinha, como sempre quis, entra na brincadeira com as outras crianças. O parquinho, pouco a pouco, se enche de formigas, todas perseguindo Camilo. Basta ele se demorar parado em qualquer lugar e lá estão as formigas beliscando-o, fazendo buraquinhos na sua pele, mas ele as espanta e continua a brincadeira. Ninguém nota as nuvens carregadas agrupando-se no céu. Não demora a cair pingos grandes e pesados. Quem já tomou chuva sabe que ao cair os primeiros pingos busca-se logo um abrigo.

Muitos correm para casa, outros se abrigam no coreto da praça. Camilo, sempre alarmado por seus pais para fugir da água, se assusta quando sente que os pingos ardem na sua pele e, ao invés de se abrigar, corre para sua casa que fica longe, no fim da rua. A chuva se intensifica. Os pingos esburacam sua pele e doem como picada de injeção. A dor e o forte ruído da chuva o deixam atordoado. Escorrendo por seu corpo, a água, desmancha suas extremidades como nariz, orelhas e dedos, mas não há sangue. Camilo, ainda correndo, grita pela mãe, mas a chuva abafa o som dos seus gritos e continua a fazer estragos no seu corpo. Seus braços caem e despedaçam-se no chão. Perde as forças para correr, sente o corpo mole, dissolvendo-se. Ninguém o ajuda. Estão tão assombrados que apenas o olham se derreter na água. As pernas, molhadas, quebram-se e ele cai a poucos metros de casa. Sem braços para se arrastar, com o rosto deformado, Camilo se dissolve. Seu sopro de vida se esvai num último grito pela mãe. A chuva desfaz os últimos pedaços sólidos que ainda lhe restam.

 ***

 As nuvens afastam-se todas e o sol ocupa seu lugar no céu. Despertando, Ernestina sente o cheiro de terra molhada e pressente o pior. Camilo não está em casa, mas seus trajes de passeio estão. Corre para fora e vê uma aglomeração no meio da rua. Ela afasta as pessoas e cai de joelhos ao ver as roupas de Camilo numa poça gosmenta. Chorando, tenta juntar tudo e dar-lhe forma outra vez, chamando pelo filho. Ninguém se mexe. O que podiam fazer? Que tipo de criatura era Camilo para derreter-se na água?

Algum tempo mais tarde, um carro dobra a esquina, é Joaquim que volta da confeitaria após mais um dia de trabalho. Desce do carro e vê, no meio da rua, sua esposa sentada no chão, lambuzada de melaço e cercada de curiosos. Formigas se aproximam da substância pegajosa e ela tenta, em vão, afastá-las. Joaquim se abaixa, Ernestina o encara com olhos de tristeza e súplica. Ele, desolado, sabe o que sua mulher tenta juntar no asfalto. Essa poça de açúcar derretido é o que sobrou de Camilo, seu filho.