Conto: Segredos da Floresta

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Dando continuidade ao projeto 12 Contos, onde durante o ano de 2015 nas últimas quintas-feiras de cada mês um conto diferente do escritor Silvano Filho será postado aqui. Em Segredos da Floresta o narrador vai te guiar pela mata adentro, será que você vai descobrir onde está?

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Com o doce esfriando já despejado nas vasilhas, a velha deixou-se cair numa cadeira da cozinha e suspirou. Desde que foi abandonada pela juventude, suas tarefas se resumiam em cozinhar e esperar. Em outros tempos subia em sua vassoura e voava noite afora, assombrando vilarejos, conjurando feitiços, divertindo-se. Para comer, procurava por uma janela aberta de um quarto de criança ou as abordava no caminho de casa. Prometendo-lhes doces, ela as atraía ao seu covil e num caldeirão fervente as mergulhava para rechear o seu ensopado. Nunca passou fome, mas agora na velhice a labirintite a impossibilita de voar. Quando precisa comer, tem que esperar que alguma criança se aproxime atraída pelo cheiro e encantada com a visão de sua casa açucarada.

Com o cotovelo sobre a mesa e o queixo apoiado no punho ela levanta os olhos melancólicos para uma janela. Remexe as poucas recordações que lhe restam e lembra-se de sua última caçada: uma menina sapeca com duas tranças unidas em uma só atrás do pescoço que fugiu de casa para pregar uma peça em seus pais. Acostumados como estavam com as peraltices da filha ficaram inconsolados quando ela nunca mais voltou.

A velha senhora inquieta-se com uma comichão que sobe por suas pernas. Não são as dores das grossas varizes arroxeadas, mas o impulso involuntário de sair atrás de comida, de se livrar da sufocante espera e da fome que tortura suas entranhas. Raspa freneticamente com a unha do indicador o chocolate que recobre a mesa, para descarregar em vão sua ansiedade.

Sem atrever-se a enfrentar a floresta saindo de casa, pois uma queda poderia deixá-la inválida, permanecia sentada esperando que o jantar batesse em sua porta. Não era como esperar na fila de um banco quando o guichê de atendimento fica mais perto a cada passo ou a fila de um consultório médico quando sabemos que, ainda que demore, logo seremos atendidos. É uma espera angustiante por não ter a mínima ideia de quando ela acabará. Podia se prolongar por meses ou anos e ela não tinha como saber por quanto tempo mais aguentaria. Quanto tempo lhe restava de vida?

Seu estômago roncou tão alto que o gato preto, que espiava a toca do rato, olhou espantado. Ela já o teria comido se ele não fosse mais esperto. Para enganar a fome ela rói pequenos ossinhos de uma cumbuca sobre a mesa, embora os últimos vestígios de carne foram roídos a muito tempo. Essas falanges infantis foram tudo o que restou de sua última refeição, da última criança que chegou a sua casa. E não apenas a fome a atormenta; algumas limitações da idade indicam sua derrota. Os seus feitiços para simular a juventude não surtem mais efeito. Está tão velha que essas mandingas rejuvenesceriam em alguns anos a sua casca, mas a força restaurada seria insuficiente para ela caçar o que comer.

 

***

Definhando em sua poltrona de pão-de-mel, ela abriu os olhos sem saber quanto tempo durou o cochilo. Nunca esperou tanto. Já nem se mexia tentando poupar o máximo de energia que pudesse. Tinha a esperança de ter que levantar e abrir a porta para deixar entrar a sua comida. Quando sua barriga vazia estava quase colando nas costas, ela ouviu risadas distantes. Conhecia esses murmúrios suaves, sabia que eram vozes de crianças, no mínimo duas, conversando entre si. Conseguir trazê-las para dentro significaria comida para muito tempo. E com receio de que tudo não passasse de um delírio esticou a cabeça para olhar pela janela. Pegou os óculos de armação enferrujada e viu duas crianças, uma menina e um menino. Tinham as roupas meio sujas da caminhada pela mata e jogavam migalhas de pão para marcar o caminho de volta. Pararam a pouca distância da casa com os olhos arregalados enfeitiçados pela visão magnífica. Salivando, correram pela entrada de biscoitos amanteigados. Ela atacou as flores de chiclete e ele o reboco de glacê do casebre. Lá dentro a bruxa acendeu o fogo para o caldeirão, separou os legumes sobre a mesa e, apesar da fraqueza, pegou uma bandeja com pequenos bolos de creme com gotas de chocolate e, simpática, abriu a porta de entrada.