Conto: Trauma Post Mortem

0
543

contobarbaraMaximiliano de Ciodaro foi um músico prodigioso, a qualidade de cada uma de suas produções, que se levaram a cabo por um período de quase duas décadas e sua distinta voz meio rouca que dava um estilo único a sua música, o imortalizaram. Sua barba e cabelo ruivo, abundante e despenteado, o caracterizavam e multiplicavam sua notoriedade. Sempre esteve ligado ao mundo da poesia e aos círculos intelectuais e a esquisitês de seus ritmos e melodias camuflavam letras de canções profundas que inspiravam milhões de pessoas. A excentricidade de sua personalidade, combinada com sua inteligência e eloquência, fizeram de Maximiliano um personagem amado por muitos, que passaria à história.

Quando Maximiliano morreu em junho de 2010, muitos choraram sua morte, não obstante, a ninguém afetaria mais sua ausência que a sua sobrinha preferida, Bárbara, que nessa época estava a ponto de cumprir 23 anos. Bárbara sabia que ele havia sido a maior influência em sua vida e depois de sua morte, não pronunciou palavra alguma e manteve uma cara inexpressiva por quase um mês e meio. Não havia voltado a ser a mesma jovem sorridente e engraçada e o que mais preocupava sua mãe era que ao falar-lhe de seu tio, fazia perguntas ou comentários como “Quando chega?” que obrigavam a sua mãe a repetir-lhe que havia morto, e provocava, de novo, um silêncio e uma cara inexpressiva por parte de Bárbara de horas, às vezes dias.

Uma noite, dois anos e três meses depois da morte de Maximiliano, Bárbara estava junto com sua mãe e empregada doméstica buscando o que assistir na televisão, quando passou por um programa humorístico, no qual um dos personagens era uma paródia de Maximiliano de Ciodaro. Apenas sua mãe notou que Bárbara se havia detido nesse programa e começou a falar “Bárbara, Bárbara, linda por que te fazes isso, Bárbara…” mas Bárbara parecia não escutá-la, estava submersa no programa.

Depois de inumeráveis sessões de terapia, Bárbara se havia resignado a que, em efeito, seu tio já não estava. Entretanto, esse personagem paródico era idêntico a ele, ademais, os gestos e comentários que fazia encaixavam com a personalidade e atitude de Maximiliano, era como se o estivesse vendo, como antes, falando vivo em um programa de televisão. A mãe de Bárbara não disse nada até o programa terminar e sua filha lhe dizer “até amanhã”, não disse nada pois enquanto transcorria o programa, Bárbara soltou várias gargalhadas diante do imitador de Maximiliano, era a primeira vez desde a morte de Max que se havia escutado Bárbara rir.

No dia seguinte Bárbara se levantou mais cedo do que comum e fez reservas no próximo avião para a capital de seu país. Fez uso de todos os recursos que tinha em seu poder até dar com o nome, endereço e telefone do ator que havia parodiado a seu tio defunto no programa da noite anterior. Ao não receber resposta no telefone, Bárbara não hesitou em dar a ordem a seu chofer de que a levasse ao endereço que lhe haviam dado os produtores do programa televisivo.

Depois de bater na porta do apartamento 4A do velho edifício classe média baixa, alguém abriu a porta após um par de minutos. Era um homem de camisa desabotoada, tinha rosto e corpo muito parecido ao de Maximiliano, sua barba característica e cabelo igualmente desordenado. “Olá, Bárbara, estava te esperando”, disse o homem. “Como que me estavas esperando?”, perguntou Bárbara. “É assim… fiquei sabendo que estavas muito mal, Barbarita. Isso não pode continuar assim, tens que seguir em frente com tua vida. És uma menina bonita com um futuro brilhante, tens que sair do passado e viver o presente, que é a única coisa real”. “Mas…”, disse Bárbara. Antes que Bárbara pudesse terminar, Maximiliano, ou quem quer que fosse, disse: “mas nada, vais para tua cidade, vais continuar com teu caminho e não olhes nunca mais para trás”.

Quando Bárbara chegou em casa sua mãe lhe esperava na porta. Bárbara entrou e ficou falando com ela da experiência que acabava de ter. Era a mesma Bárbara expressiva e alegre de sempre. Quando Bárbara subiu as escadas de sua casa para ir a seu quarto, a mãe se levantou da mesa na qual havia conversado com sua filha e se dirigiu até o telefone. Chamou três vezes, alguém atendeu e a mãe de Bárbara disse: “Obrigado, muito obrigado, funcionou”.

***

Ilustração exclusiva para o conto por Giovana Christ.