O anseio humano de fazer do desfecho um recomeço: “Os lados do Círculo”, Contos de Amílcar Bettega Barbosa

O livro-círculo se fecha onde se inicia – ou recomeça ou acaba

Amilcar Bettega Barbosa
Amilcar Bettega Barbosa

 

Os lados do Círculo, de Amílcar Bettega Barbosa, é um livro curto, mas que, pela sua densidade, impõe uma leitura lenta, atenta. O arranjo dos contos no todo segue o princípio geométrico circular já proposto no título. Tudo começa onde irá acabar, as pontas se unem de acordo com o princípio cíclico que rege a vida e o nosso dia a dia.

Esse princípio quase religioso de que tudo volta para onde saiu (“Tu és pó e ao pó retornarás”) revela a principal inquietação, senão obsessão, de Bettega Barbosa, que, como num moto-contínuo (aliás, título de um dos contos), trespassa todas as histórias, por mais diferentes que sejam os enredos.

Segundo o Houaiss, o ciclo (da vida) é: uma série de fenômenos, fatos ou ações de caráter periódico que partem de um ponto inicial e terminam com a recorrência deste.

Paradigmaticamente, o conto “Puzzle”, partido pela metade, abre e fecha o conjunto de contos. Nele, um grupo de pessoas se encontra nas madrugadas de Porto Alegre para realizar estranhos rituais de composição de esculturas com objetos pessoais à beira do Rio Guaíba. Como se, a cada composição, esculpissem uma nova imagem (e um sentido) para a própria existência que, no entanto, é varrida na manhã seguinte pelo vento ou pelos garis e é necessário que o “jogo” seja sempre recomeçado do zero, assim como tentamos nos reinventar dia após dia. Encontramos aqui dois dos temas centrais que virão à tona também nos outros contos: a solidão em meio aos outros e a construção de mundos paralelos através de rituais cíclicos subversivos para fugir de um cotidiano mecânico e vazio.   

O que sintoniza os personagens é a sua falta de sintonia com o mundo num dia a dia de “diálogos insossos sobre o tempo e a política econômica, o resultado do futebol e no máximo uma sugestão para ver aquele filme de que todo mundo anda falando”; o que os sintoniza é o exílio voluntário na brevidade dos encontros noturnos e a consciência de que “entrar no terreno da noite é a única forma de nos acharmos vivos, jamais deixará de nos inquietar a aproximação dessa hora ambígua.”

Entre as metades do “Puzzle”, o livro é subdividido em mais duas seções, o “UM LADO” e o “LADO UM”.

Abrindo o “UM LADO”, o conto “A próxima linha” insere no quadro da mediocridade cotidiana o elemento da sujeira embaixo do tapete, o podre por trás de fachadas, essa também uma temática recorrente.

No início vemos a imagem idílica de um casal observando o pôr do sol às margens do Guaíba, na qual “de longe, tudo é exato e perfeito como num cartão-postal. O morro Santa Teresa é um bom lugar para ver o sol morrer no Guaíba. … o céu tingido de vermelho, o próprio ar adquire uma atmosfera de sonho.”

Aos poucos a fachada romântica vai se deteriorando: a mulher confessa que se encontrou com um amante (ou o marido crê que seja um amante). O diálogo se transforma em dois monólogos – interessante a solução tipográfica do paralelismo das falas com a página dividida em duas colunas, o que não é uma solução nova, mas ainda assim adequada aqui e instigante – e, no fim, há a insinuação de um crime que, no entanto nos é contado em retrospectiva e do ponto de vista do amante possivelmente assassinado (o autor revela aqui perfeito domínio das mudanças de perspectiva). Com o crime, o círculo se fecha onde se inicia:

Não podia imaginar qual seria o desenlace daquela cena. Jamais imaginaria, por exemplo, que algum tempo depois, num final de tarde de verão em seu apartamento, ao ser surpreendido com a porta abrindo com violência e riscando um abrupto quarto de círculo à sua frente, ele ainda veria outra vez no rosto de Carlos a mesma expressão de raiva e os gestos destemperados. Talvez aí sim, um instante antes do final, ele viesse a compreender que isso tudo já estava escrito, num outro tempo, como se este agora fosse mesmo uma continuação, como se fosse um reinício.

Em “Círculo Vicioso“, a lente da reincidência é aumentada pelo viés da violência social e política. Há aqui luta por transformações sociais, há perseguição e morte; ideais e sistemas se edificam e caem, aprendemos, mudamos o mundo e morremos e a história se repete incessantemente, como os passos das “Madres de la Plaza de Mayo”:

Era um movimento constante, como que um moto-contínuo, não havia início nem fim naquele arrastar de pés em torno da praça, e as voltas em círculo estavam já incorporadas à paisagem da Plaza de Mayo, como uma estátua ou uma edificação, como se aquele movimento, prolongado e circular fosse uma espécie de relógio que embora em movimento marcasse sempre o mesmo tempo, como se o arrastar dos chinelos sobre a pedra fosse a voz que contasse a sempre repetida história dos homens, escrita também através daqueles rostos estampados nas fotos que as madres empunhavam, através dos nomes gravados em seus lenços de cabeça, rostos e nomes, rostos e nomes, rostos e nomes, como num mundo de números infinitos e sempre iguais.

O aspecto da violência social se propaga à medida que se consome, como uma bola de neve ou o movimento ondulatório de uma pedra lançada à superfície de um lago, em que a perturbação ali causada forma um círculo que por sua vez forma um círculo que forma um círculo e assim por diante. Esse aspecto é traçado com pena afiada no impactante conto “Verão”. Nele um empresário entra com seu carrão por descuido numa favela e atropela um cachorro. Há uma discussão com os homens da comunidade que veem no ensejo a ocasião para fazer um bom negócio. O homem não colabora e seu fim é, como não poderia deixar de ser num círculo vicioso, trágico.

Na segunda parte, o LADO UM, Bettega Barbosa segue desdobrando em variantes os temas violência, o repetir cotidiano e o fracasso, mas parece expandir a escrita para reflexões mais amplamente sociais e filosóficas.

No conto “A aventura prático-intelectual do sr. Alexandre Costa”, por exemplo, ladosdocirculoidentificamos o conflito entre a miséria social real, personificada pelos moradores de rua, e a miséria muito individual de um funcionário público do Setor de Expedição de Intimações do Tribunal de Justiça que, em sua megalomania intelectual acoplada a um sadismo arraigado, decide resolver os problemas do mundo e fazer justiça pelas próprias mãos. É um conto forte, com elementos de suspense e um final surpreendente.

Já “Mano a mano” evidencia a fragilidade dos arranjos cotidianos que inventamos para nos dar certa ilusão de firmeza. Tudo está muito bem, temos a sensação de estabilidade, mas basta uma doença, um acidente, um acontecimento inesperado ou mesmo simplesmente o passar do tempo e saímos dos trilhos.

“Um dia após o outro e após o outro, esse incansável repetir das coisas foi mostrando a Fernando que assim era a vida, uma espécie de mão única irreversível por onde vão ficando a idade e os discursos e as pessoas, como antepassados tão pertencentes a uma outra e distorcida realidade.“

Em “Álibi”, um texto que sobressai um pouco do conjunto, o autor, fiel a sua proposta formal de circularidade, tematiza mais abertamente a questão da escrita em si, o martírio do escritor, a um tempo algoz e vítima de sua própria história.

“No fundo, sou eu a vítima, eu que sofro na pele (eu que sofro por ele) por não fazer a mínima ideia de onde poderei chegar uma vez que resolva seguir em frente nessa história que talvez já carregue, na sua escuridão de história a ser contada, o início do meu próprio fim.”

O último conto antes da segunda metade do “Puzzle”, o “The End”, é, numa consequência lógica da proposta formal cíclica, uma variação da história contada no primeiro conto “A próxima linha”, desenvolvida aqui em um formato inusitado de verbetes enciclopédicos e com a perspectiva narrativa levemente deslocada.  

A escrita segura de Bettega Barbosa se caracteriza pelo domínio do hibridismo formal e experimentalismo narrativo a serviço da ideia central do conteúdo, que é a circularidade. As situações se desenvolvem, sofrem mudanças, mas no fim voltamos sempre ao ponto de partida, real ou imaginado por um dos personagens, como num anseio intrinsicamente humano de fazer do desfecho um recomeço. Não há repouso.

Os lados do Círculo é um livro um tanto pessimista e triste, doloroso, mas belo, no qual as personagens estão o tempo todo dando voltas, andando em círculos e se perdendo na veleidade de (des)encontros fortuitos, buscando vencer a morte na afirmação da própria efemeridade.

Carla Bessa Author

Carla Bessa / Niterói, RJ - Berlim. Estudei teatro na UNIRIO e na Casa de Artes de Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Depois, coloquei o pé na estrada e vim parar na Alemanha. Trabalhei 15 anos em teatros alemães, austríacos e suíços como atriz e diretora. Os ventos mudaram e eu com eles. Atualmente trabalho como tradutora literária alemão-português para as editoras brasileiras WMF Martins Fontes e Estação Liberdade. Escrevo resenhas e contos. O meu conto “Toc” foi publicado na antologia bilíngue “Sehnsucht ist ein verdorbenes Wort / Saudade é uma palavra estragada” em 2016 pela editora bübül de Berlim.