‘Cordilheira’, de Daniel Galera, e o conceito nietzschiano de vida como obra de arte

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Nietzsche diz que a arte assume um papel importante na vida das pessoas, como no romance Cordilheira, de Daniel Galera.

Nietzsche-Galera

Cordilheira, parte da coleção Amores expressos, que tinha como objetivo levar 17 autores diferentes para 17 cidades ao redor do globo a fim de escreverem histórias com características de tais locais, não é dos mais famosos títulos do autor contemporâneo brasileiro Daniel Galera. O romance retrata a história da jovem escritora Anita, que no auge de seus 29 anos vê a morte de seu pai, por quem fora cuidada desde criança, e lida com uma relação fracassada e vive com cada vez mais intensidade o desejo de se tornar mãe. Em meio a esse turbilhão de acontecimentos, a protagonista é convidada a visitar Buenos Aires, onde seu livro estava em fase de lançamento. Lá, durante uma noite de autógrafos, encontra um misterioso rapaz que lhe faz uma pergunta desconcertante e sem resposta sobre o final de seu próprio romance.

Com o desenrolar do romance podemos perceber que a figura masculina surgida durante a sessão de autógrafos gosta de ser chamada de Holden, mas que não possui verdadeiramente esse nome. Tal adoção faz parte da incorporação de um caráter escolhido pelo personagem e desenvolvido na história escrita pelo próprio. Mais a frente, os amigos de Holden são adicionados à narrativa e rapidamente é possível notar que possuem personalidades parecidas com a do rapaz, ou seja, também assumem posições adquiridas a partir do desenvolvimento literário de uma história.

cordilheiraAssim, é possível observar que há incutida nos personagens a ideia de “vida como obra de arte” apresentada largamente  na obra do filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Tal conceito baseia-se na experiência de vida como uma grande obra de arte, tornando as experiências estéticas a única maneira de viver-se bem. A arte vira uma alternativa de fuga de todos os problemas mundanos e ilumina a difícil jornada que é viver. No romance de Galera, os personagens veem na literatura, mais especificamente nos livros os quais eles mesmos escreveram, roteiros de vida que estão sob seus controles, sendo então religiosamente seguidos e passíveis de mudanças arquitetadas pelos próprios.

A arte assume então o papel de motivadora da vida, e não o contrário, como Nietzsche defende em sua obra O nascimento da tragédia, na qual baseou-se na arte grega e em suas subdivisões para definir os impulsos artísticos de cada ser humano. Para os personagens, a expressão literária e sua plena vivência justificam o ato de levantarem-se diariamente para seguirem seus roteiros manchados naquelas páginas de papel. Ao invés de viverem de forma regular, caminhando de acordo com as necessidades do destino e dessa forma produzindo sua literatura, cada personagem descrito trata tal forma artística como determinante de sua existência, não permitindo então que nenhum ato da grande peça escrita saia mal executado.

Além disso, é possível concluir que a arte como vivência plena torna a vida dos personagens suportável, ou seja, é através de tais experiências estéticas que podem ser capazes de continuar a viver. Tal fato pode ser considerado como uma fuga irremediável de suas realidades individuais, onde a incompreensão e a dor dominam o cenário e tornam suas vidas difíceis e pesadas. Ao arquitetar seus universos, é possível prevenirem-se de possíveis decepções e problemas inerentes à existência.

Nietzsche e Galera parecem ter travado um diálogo demonstrando na teoria e na prática uma das funções da arte. Enquanto o filósofo propõe a exposição e a reflexão dos fatos, o escritor escancara na face do leitor os problemas e dificuldades que estão diretamente ligados com a produção e a compreensão do exercício literário.