A coreografia cósmica do poema

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Apontamentos acerca do poema e sua conexão com a dança e a coreografia

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Ilustração: Bonifácio Barbosa

“Os átomos dançam,
As almas, loucas de êxtase, dançam.
A abóbada celeste, por causa deste Ser, dança,
Ao ouvido te direi aonde a leva sua dança.”

(Rumi)

Debret, ao intitular sua ilustração de “Dança de selvagens da missão de São José” em sua Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, ao mesmo tempo, intriga com o uso pejorativo do “selvagem” contrapondo o termo catequizador “São José”. Fato é que a dança tribal, a dança “selvagem”, aliada à música (tambor) e ao canto (poema), similar aos rituais místicos persas, afrodescendentes ou manifestações politeístas e populares, perturbam/excedem a noção estética do belo enquanto corpo quando agem como uma usina de produção de êxtases mágicos. O caráter cinético da dança, da poesia e da música, conectados, empoderam-se da ferramenta catártica, agindo num campo terapêutico, de entretenimento e de comunicabilidade com múltiplas esferas. 
Através dos rodopios e giros repetidos dos dançarinos persas de sama, das negras da umbanda, do candomblé, do jongo, do ballet, do funk e de outras expressões corporais é que a dança é colocada em harmonia com o movimento similar ao dos astros celestes.

“Vem, 
Te direi em segredo
Aonde leva esta dança.

Vê como as partículas do ar
E os grãos de areia do deserto
Giram desnorteados.

Cada átomo
Feliz ou miserável, 
Gira apaixonado
Em torno do sol.”

(Rumi)

O exemplo dos relatos sobre o poeta persa Rumi recitando boa parte dos seus poemas nos rituais de giro dervixe enrijece a aliança potente entre coreografia e oralidade como válvula de acesso para estados de transe e alerta.
É uma resposta em forma corporal e oral que certos sentimentos, tais como o entusiasmo e a resiliência, produzem nesse dinamismo dança, poesia e música, diante de uma mecanização acelerada e tirânica de modelos de mobilidade do cotidiano contemporâneo.

“Quem foi que disse que não vivo satisfeito?
EU DANÇO! “

(Mario de Andrade)

 

“O rodopio anti-horário dessas danças dialoga com os movimentos de rotação e translação dos astros em torno de um ponto cósmico semelhante aos planetas em torno do Sol. As danças indígenas em torno da fogueira reforçam essa figura do sistema solar. A prática das danças circulares também é um outro fator que revigora esse conceito cósmico análogo ao da cinética do corpo na dança.
O corpo fala, o corpo denuncia, o corpo reivindica, o corpo acolhe, o corpo transita, o corpo manifesta-se.
A palavra dança dentro do corpo. 
A alma dança. A dança potencializa o corpo-mente.”

(“A Dança”, Picasso)

A palavra dança é o mesmo que “mahol” em hebraico, sendo esta derivada do verbo “hul”, que significa “fazer movimentos circulares”, “voltear”. Os conceitos em torno do “redondo” e do “círculo” são carregados de reflexões místicas e filosóficas que colocam ser humano, o meio ambiente e a cosmologia num mesmo ciclo. O círculo é onde todos podem trocar olhares de qualquer ponto. Bachelar, quando reforça “o ser é redondo e o mundo é redondo ao redor do ser redondo”, sugere de fato essa aproximação rotativa com as manifestações artísticas que cineticamente sugerem ao círculo como uma maneira de harmonia e dinamismo. Círculo é sinônimo de associação, órbita, ambiente, esfera, arco, roda, movimento.

Tanto uma performance corporal do japonês Kazuo Ohno quanto uma performance do Dream Time do Passinho do Rio, ou o Break da periferia de SP, e outras performances corporais, como a performance Micorriza apresentada na Troca de Saberes em Viçosa – MG, todas convergem com a música e a oralidade, alcançando níveis de comunicabilidade extasiantes, chegando a reflexões que abrangem tanto pontos emocionais quanto sociais e culturais.

Há o uso das partes baixa do corpo, partes que foram excomungadas da anatomia pela Igreja, e que Rabelais frisa em Gargântua quando relata sobre as festas populares passando pelo riso, vinho e corpo, onde o profano e o divino se fundem em prol de uma descarga energética e catártica feita em coletivo. Podemos pensar esse ponto no Brasil sobre o carnaval, o samba e outros ritmos do norte como catimbó e extrapolar se retornarmos à invasão jesuíta e europeizada nas localidades indígenas.

A dança está presente tanto em momentos de guerra e evocação, bem como em diversos momentos de gratidão e entusiasmo, manifestados por corpos resistentes, pós-conflitos, como forma de agradecimento e comemoração. No Êxodo existe um relato interessante num pós-enfrentamento do povo prometido versus a turma do Faraó:

Então Miriã, a profetisa, a irmã de Arão, tomou o tamboril na sua mão, e todas as mulheres saíram atrás dela com tamboris e com danças.

( “Le Danse”, de Matisse)

“A dança ilustra admiravelmente o princípio de que o físico e o metafísico não se excluem, antes se completam.”

“Depois de tantas teorias voltamos aos antigos conceitos: a dança é um desdobramento da revelação poética; uma confrontação plástica do homem com o destino; um ritual de encantação.”

(Murilo Mendes)

Em Estraburgo, no século 16, a epidemia da dança que tomou a cidade e atormentou a burguesia e a igreja não foi uma manifestação de loucura como a medicina da época diagnosticou, de desvairados e doentes; foi sim uma manifestação de libertação, de extravasação. Era como se o espírito estivesse fazendo uma acusação, uma denúncia em forma corpórea tendo em vista a atmosfera social de pobreza e submissão em que a população vivia, aliás, sobrevivia; tal qual fazemos nós ao deslocarmo-nos para os bailes, carnavais, boates, forrós, bailados, giras e rodas pós dias e situações extrativistas.

“eu danço manso, muito manso,
não canso e danço,
danço e venço.”

(Mario de Andrade)

“Vai ter uma festa que
eu vou dançar 
Até o sapato pedir pra parar
Aí eu paro, tiro o sapato
E danço o resto da vida.”

(Chacal)

 

Obras consultadas:

Êxtase, Poesia e Dança em Rumi e Hafiz, de Leandra Elena Yunis
Poesia Completa, de Mario de Andrade 
Belvedere, de Ricardo Chacal
Viagem Pitoresca e História ao Brasil Tomo I e II, de Debret