Cristovão Tezza fala sobre o romance “Trapo”, que completa 30 anos em 2018

Cristovão Tezza fala sobre Trapo, romance publicado em 1988, que mudou para sempre sua carreira de escritor no cenário nacional
Cristovão Tezza
Foto: Guilherme Pupo

Cristovão Tezza tinha 36 anos em 1988. Até aquela ocasião, já publicara alguns livros. Vivendo em Curitiba, ele ainda não tinha sido descoberto pela crítica nacional. Tudo  começou a mudar naquele ano.  Em 1988, Tezza lançou o romance Trapo pela editora Brasiliense. 30 anos depois, o romance é publicado em edição comemorativa pela editora Record.

A narrativa conta a história de Trapo, um jovem publicitário filho de uma família abastada que optou por ser um poeta marginal. Nascido Paulo, ele se matou e deixou vários manuscritos que chegaram às mãos do professor Manuel, que conduz o romance.

(O poeta Paulo Leminski fez o posfácio não muito elogioso. Soube-se depois que o polaco havia imaginado que Trapo fora baseado nele.)

Cristovão Tezza estima que foram vendidos 25 mil exemplares do livro, contando todas as edições feitas de lá para cá. Ele não imaginava que o livro sobreviveria ao tempo.

“Ninguém pensa nas décadas seguintes, ainda mais no rescaldo dos anos 70, quando o futuro “já tinha chegado”. Eu pensava só na segunda-feira seguinte, se viria carta de algum editor aprovando a publicação.”

Tezza, depois de Trapo, lançou, entrou outros livros: O filho eterno, O professor, A tirania do amor – este último neste ano, pela editora Todavia.

O autor, considerado um dos mais importantes da literatura brasileira, conversou por e-mail com o Homo Literatus.

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Começo lhe perguntando algo que é bem bobo por aparentemente ser óbvio para um autor, mas, vamos lá. Você acha que o romance chegaria aos 30 anos sendo lido, comentado e reeditado?

Nenhuma ideia. Aos 30 anos de idade, quando terminei o romance (que levou mais seis anos para ser publicado) ninguém pensa nas décadas seguintes, ainda mais no rescaldo dos anos 70, quando o futuro “já tinha chegado”. Eu pensava só na segunda-feira seguinte, se viria carta de algum editor aprovando a publicação. Depois, o romance foi se mantendo, e passou por várias edições e três editoras. Sempre teve o seu público fiel. Mas eu sempre estava mais preocupado com o próximo livro do que com os anteriores.

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Você releu Trapo alguma vez nesse período? Se sim, o que achou do que está escrito? Mudaria algo? Se não, por quê?

É uma coisa engraçada: tive muitos livros republicados anos depois (além do Trapo, Uma noite em Curitiba, Juliano Pavollini, Breve espaço entre cor e sombra, Aventuras provisórias, Ensaio da Paixão, O fotógrafo). Alguns deles foram relançados sem a mudança de uma vírgula: na releitura, eu sentia que estavam, a seu modo, “prontos”. Nada a mexer. Trapo e Uma noite em Curitiba foram assim. Estão hoje como foram escritos há décadas. Mas outros foram bastante revisados, até estruturalmente, como Breve espaço e Ensaio da Paixão. Era como se eles não estivessem ainda acabados quando eu terminei. E em outros, mexi apenas aqui e ali, pontualmente. Nesses casos, sigo o instinto, digamos assim.

 

No posfácio do livro você explica que Trapo lhe deu reconhecimento no cenário literário nacional. Entretanto, há uma ou outra pista quanto a isso, não uma resposta definitiva. Na prática, e três décadas após o lançamento, o que o romance lhe rendeu?

Reconhecimento num sentido pragmático: depois de Trapo, ficou mais fácil encontrar editora. Isso era um luxo, ainda mais naquele tempo. Do ponto de vista da crítica, Trapo me deu uma certa visibilidade, para os padrões pré-internet: basicamente, boas resenhas em jornais e revistas. Mas algum reconhecimento de prestígio acadêmico demorou bem mais (isto é, você ser lido na universidade, ser objeto de monografias, de mestrado ou doutorado). E, finalmente, com O filho eterno, vieram os prêmios e as traduções (o que é sempre muito difícil para um país periférico como o Brasil). Em suma, Trapo me abriu caminho, por assim dizer.

 

O mundo era muito diferente quando você escreveu o romance. À época, pela idade, você estava mais para Trapo, o personagem, do que para o professor Manuel, o narrador-personagem. Hoje a situação se inverteu: pela idade, você está mais para Manuel. Você realmente acredita nas coisas que o professor fala no livro quanto à velhice? Um exemplo é quando ele diz que aposentados se tornam pequenos trastes simpáticos (risos).

As ideias do personagem são sempre do personagem; Manuel é um homem rabugento, ranzinza, um solitário complicado. Eu me coloquei no lugar dele para inventá-lo. Escrevi o livro num momento de passagem pessoal: eu não era mais o Trapo que havia sido quando jovem, e assim conseguia vê-lo com alguma ironia; e ainda não era nem professor na vida real; Manuel é uma projeção. O que também me permitiu vê-lo a uma boa distância. Eu estava num breve limbo da minha vida, sem profissão, pai inseguro, incerto como escritor, tentando me achar.

 

O personagem Trapo é um poeta sonhador, não sei se eu diria que marginal e propriamente fora da estrutura vigente. Ele está, sim, fora do sistema e diz que é necessário lutar contra o sistema – mas, de alguma forma, ele está dentro de um sistema (alternativo?) que luta contra o sistema (vigente?). Interessante pensar que esse tipo de pessoa ainda existe nas universidades – principalmente nos cursos de humanas. É possível explicar por que esse grupo de poetas inconformados existe? (risos)

No Ocidente, é a junção momentânea de dois fatores de natureza diferente que explica a permanência dos “Trapos” na vida, pelo menos desde a ascensão do movimento romântico, em meados do século 18. Primeiro, a valorização da juventude como um valor por si mesmo. Esta é uma invenção relativamente moderna. Ser “jovem” é uma qualidade; ser “velho”, é um defeito: nada define melhor a alma do nosso tempo. Segundo, uma atmosfera sócio-histórica de transformações econômicas e fraturas políticas. Quando você junta uma coisa com outra, você tem movimentos culturais revolucionários. Os anos 60 e 70 foram típicos desta passagem, e sentimos os seus efeitos até hoje. É certo que as gerações subsequentes, dos anos 80 e 90, e os “milleniuns”, são mais integrados ao “sistema” do que os velhos hippies e semelhantes pretendiam ser (esse eram mais “messiânicos”), mas a ideia de “rompimento da juventude” permanece no ar. E a poesia é a sua arma, digamos assim.

 

Em relação ao prefácio do Paulo Leminski, que entrou sem você saber, se você soubesse de antemão, teria permitido a publicação?

Certamente não. Eu era um sujeito difícil de lidar. E, justo por isso, o Caio Graco, o editor, publicou-o sem me consultar. Mas, visto daqui, tudo isso é bobagem. Tanto que eu reproduzo o texto do Leminski no posfácio. No fim das contas, deu um charme para o lançamento.

 

Uma das marcas do romance é a alternância entre a narração do professor Manuel e as cartas de Trapo.  Essa mudança de discurso de tempos em tempos pode ser vista em “A tirania do amor”, seu novo romance. A diferença é que, no mais recente, você passa para o discurso indireto livre – às vezes, sem marcações claras da mudança. Como explicar essas características marcantes em cada um desses romances?

Não sei. Como leitor, eu tinha uma atração temática especial por “vidas cruzadas” — lembro que Contraponto, de Aldous Huxley, traduzido por Érico Verissimo, me impressionou na juventude. O próprio Caminhos cruzados, do Érico, foi um romance que li com prazer. William Faulkner foi outro romancista importante para mim, agora em outra direção: o narrador que acompanha de perto as nuances emocionais do personagem (e o discurso indireto livre tem aí uma função especial). Além disso, dominar tecnicamente a variação de ponto de vista é um fundamento da prosa de ficção (assim como dominar cobrança de escanteio e passe de longa distância são fundamentos técnicos do futebol — o jogador tem de dominar). Fui testando esta variação ao longo dos meus livros. Em O fantasma da infância, por exemplo, há um capítulo escrito sob o ponto de vista de uma mulher. Mais tarde, escreveria um livro inteiro sob o ponto de vista feminino (A tradutora, e, em parte, Um erro emocional). Muitos críticos dizem que isso foi influência da teoria dialógica de Bakhtin (meu objeto de doutorado, na vida acadêmica), mas, de fato, isso sempre fez parte do meu instinto narrativo, e está presente no próprio Trapo, quando eu nem sabia quem era Bakhtin. Minha atração pela teoria dele aconteceu justamente porque ele, de certa forma, explicava o que eu já fazia.

 

O suicídio de um jovem poeta, filho de uma família burguesa, a agitação dos anos 1980, o projeto de aposentaria alterado por conta de uma inesperada correspondência, a juventude discutindo arte nos botecos: eis um curto retrato de “Trapo”, o romance. O que aconteceu com o país descrito no livro?

Para dizer a verdade, não mudou muito. Tenho a sensação de que os diretores da peça – o Brasil —  foram trocando cenário, mudando a trilha sonora, refazendo o texto, substituindo as tábuas do palco, modernizando as poltronas, eliminando a cortina, universalizando a meia-entrada, instalando wi-fi, contratando novos iluminadores, mas o roteiro, os atores e a direção continuam quase a mesma coisa, com algumas mudanças de ênfase. As transformações culturais determinam em alto grau as mudanças estruturais do país. O problema é que elas são lentas, e sempre resistentes.

Victor Simião Autor

Interessado por literatura, política, economia e sociologia, é formado em Jornalismo (Unicesumar). Atualmente é repórter da rádio CBN (Maringá-PR), cursa Ciências sociais (UEM) e organiza o clube de leitura Bons Casmurros. (Ele também acha estranho pacas falar sobre si mesmo na terceira pessoa em uma minibiografia.) @ovictorsimiao | victorsimiao1@gmail.com.