Crônica da solidão

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Há sete anos tomo ônibus para o trabalho no mesmo local, na mesma hora. Várias pessoas já se utilizaram daquele ponto. Ela estava lá pela primeira vez. Conhecia-a de vista há algum tempo, pois se utilizava do mesmo itinerário, embarcando em outra paragem, algumas quadras após a minha. São cinco e pouco da manhã.

“Bom dia!”

“Bom dia…”

“Ah, é aqui que o ônibus para?”

“É…”

“Ah, pensei que fosse ali. Antes eu morava na rua dezoito, mas como meu marido voltou pra Indaiatuba, fiquei com medo de morar sozinha, daí aluguei um quarto na casa da Soninha. Ela me disse que é viúva e seus filhos não moram mais ali e também tem medo de ficar sozinha. Aí, é bom, né? Uma faz companhia pra outra.”

“Uhum.”

“Meu marido voltou pra Indaiatuba porque tá difícil de arrumar emprego por aqui. Levou os quatro cachorros com ele. Eu trabalho lá na empresa há quatro anos. Fui transferida pra essa filial no início de 2011. Como meu marido tinha emprego em Indaiatuba, vim sozinha, entrei em depressão, voltei pra Indaiatuba, me tratei, voltei pra cá com meu marido, que pediu a conta no antigo serviço, mas teve que voltar pra lá, porque aqui tá difícil. Mas no ano que vem, já combinei tudo com o meu supervisor, eles me mandam embora, daí eu volto pra Indaiatuba. Estou fazendo técnico em enfermagem. Acabo no meio do ano que vem. Estou com quarenta e três anos, sempre trabalhei em linha de produção. Daí, como enfermeira, eu posso trabalhar até os sessenta anos. Aí, posso arrumar trabalho em Indaiatuba. Aí, é bom, né?”

“É.”

“Tsc, olha só o tamanho da minha mochila. Saindo do trabalho, vou direto pro RPG. Tô levando minhas roupas. Será que vai chover? Tenho uma capa de chuva, também. Será que vai esfriar? Ainda bem que peguei minha blusa.”

O ônibus chegou. Por ser muito cedo, como sempre, os outros passageiros estavam adormecidos. Busquei, como sempre, um banco vazio, localizado nos fundos. Ela se sentou, como sempre, num dos primeiros bancos.