Crônica: Ele deve ser o Bukowski! – Diogo Marins Locci

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Chegou uma hora que o cheiro de cigarro passou despercebido por suas narinas. Como se o ar estivesse bem menos sujo, pesado e fedorento do que realmente estava, inspirava fundo também pela boca, absorvendo mais fumaça, nicotina, cannabis e o diabo a mais que estivesse sendo usado por aqueles caras.

Os olhinhos já eram de dar pena. Pequenos, estreitos, quase fechados. O fígado ansiando por expelir toda aquela droga de álcool que foi consumido por, mais ou menos, duas horas. Não sabem ao certo quanto tempo tinha passado. E é isso que o álcool, a maconha, o cigarro (que parecia desentupir a garganta pra caber mais álcool), e as outras coisas fizeram com ele. E de imaginar que eu gostava que enchêssemos a cara juntos já me deixa assustado. Não valia a pena aquelas horas mal passadas de diversão pra depois vê-lo assim: Moído, exausto, triste.

E é dessa tristeza que eu falo. Não é da maconha, do cigarro, das bebidas ou das outras coisas. É só da tristeza que eu quero falar.  Todo o resto era só a conseqüência da sua infelicidade. Eu sei porque o levei até sua casa. Ele mal sabia quem o carregava. Quando chegamos, esperei ele entrar. Os olhos moídos, o cabelo fedorento, os braços pesados, o semblante exausto, como se ele todo fosse a materialização da fumaça.

– Que dia firmeza. – Ele declarou. O sorriso mais falso que eu podia imaginar em alguém. Sorriso pequeno, estreito, quase fechado.

Me despedi com um longínquo “até mais!”, esperando que ele entrasse. Ele não me ouviu. Cantarolava There Is A Light That Never Goes Out, do The Smiths. Tentou encaixar três chaves erradas na fechadura. Foi só na quarta que despencou pra dentro da sala. Ainda se virou e me fez um cumprimento confortável, mas ainda assim bastante triste.

Era pra eu ter ido embora. Mas fiquei. Esperaria ele fugir da minha vista pra poder ir embora numa boa. Ele não fugiu assim tão cedo. Da sala, onde uma grande janela de vidro me permitia ver tudo, havia um homem desesperado, chorando ininterruptamente, as mãos passando dos olhos ao alto, chocando-se em fúria, fazendo barulho. Era como se os dedos berrassem. Batia as palmas contras as paredes, gritava pelos cantos e voltava a chorar. A luz se acendeu. Uma mulher de certa idade entrou também chorando. No mínimo já esperava vê-lo naquela situação. Ela olhou para mim. Sabia que eu o acompanhava. Meneou a cabeça para o lado, como quem diz pra eu não me preocupar, que era sempre assim. Fui pra minha casa. Agora denso. Agora pesado. E agora triste.

“Dorme bem que semana que vem tem mais”, gritou o meu demônio.