Crônica: Não sei se estava nu – Diogo Marins Locci

1
537

Hoje eu consigo entender que o meu batismo não valeu de muita coisa por eu não lembrar se estava pelado por debaixo da vestimenta branca, de algodão bem grosso, que cobria meu corpo. É como se a memória tivesse traído uma lembrança das boas. É curioso que eu me lembre da formatura de um primo, da primeira bebedeira e outras coisas das quais eu posso destrinchar os detalhes. Mas ainda que eu insista, não consigo puxar a memória da roupa que me cabia no dia do meu batismo. Dentre a igreja evangélica, o batismo acontece na idade em que você se sente preparado praquilo. Já não sou evangélico, mas a minha condição da época fez com que a imersão nas águas fosse um sonho a ser realizado.

Fui para a igreja empertigado. Não que eu quisesse estar bonito, que esses valores não são mensurados pra hora do batismo. Mas fui pra lá em uma completitude só minha. Esvaziado de rancores, de sentimentos ruins ou qualquer outro negativismo. Éramos apenas eu e os membros que também estavam sendo batizados. Olhei para o rapaz que estava ao meu lado. Ele não tinha tanto da alegria que cercava meu dia. Não queria estar ali, era nítido. A boca enrugada para baixo. Vontade de ir embora. De ir pra casa. De jogar Pokémon no game-boy.

Fomos batizados. Os membros, eu e o estressadinho. A pressa dele tentava interferir a minha pureza. Um pouco de raiva saía pelos poros de uma imaginação aflita. “Se não é obrigado, por que está aqui?”. Pensamentos quase mesquinhos, loucos para deturpar minha áurea. Decido então fazer a pureza reinar. O rapaz deve estar apenas nervoso, ansioso. O batismo era uma honra. Todos sabiam disso.

O batismo não demorou a acabar. Quando já estávamos batizados, fizemos uma fila para o vestiário. O rapaz se arrumou antes de mim. Quando ele já estava pronto, e provavelmente pensando no jogo do Pokémon, me aproximei e perguntei baixinho, esperando uma resposta otimista que combinasse com meu estado de espírito:

– Você gostou?

– Não.

– Não?

– Não!

– Mas por que não?

– Porque só idiota gosta dessas coisas.

E saiu como se não tivesse responsabilidade nenhuma sobre minha desilusão. Quer dizer que eu era um idiota? Espera aí, quer dizer que um garoto que deve ter no máximo dois anos a mais do que eu está me dizendo que tomei uma decisão de idiota? Eu não devia ter feito isso? Devia ter pensado melhor? Mas não seria essa ambiguidade religiosa um pecado não pertencente a quem já é batizado? O rapaz destruiu a graça do meu batismo.

Cresci, não partilho mais da doutrina evangélica e agora sou obrigado a não me lembrar dos detalhes de um dos momentos mais agradáveis que o tempo de serventia à religião me proporcionou. É uma pena que as pessoas tenham a capacidade de desvirtuar memórias dos outros. É uma pena que o detalhe que percorre a minha mente é apenas o da minha cara de idiota na frente do espelho. A cara de um idiota de cabelo desarrumado e uma roupa branca pesada e horrorosa. Não sei se por debaixo da manta eu estava com roupa. Devo ter agido em modo automático depois de ter mirado o espelho. Minha vergonha já era tão grande na frente do espelho que a nudez seria o menor dos problemas.