Crônica: O flanar internauta – Vilto Reis

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Você chega meia hora antes do horário de serviço. Enche a garrafa de água e esvazia seu corpo no banheiro. Senta-se em sua mesa, ou melhor, na cadeira em frente à sua, hipoteticamente, mesa. O computador acorda quando você mexe o mouse. E você mexe, pois se pudesse teria o acordado mais cedo, pois já é hora de flanar.

@dicionario #Flanar: passear sem destino e sem pressa, por mera distração.

Você clica no Google Chrome , abre três abas, uma para seu e-mail, outra para o admin do site e uma terceira para o Facebook. Você está no trabalho, mas vai flanar. Então digita seu usuário e senha, trocando de abas enquanto os sites abrem. Sua caixa de entrada tem aproximadamente trinta e-mails não lidos, sendo que a última vez que você a tinha visto foi na noite anterior. Destes trinta e-mails, dezoito são de spams, produtos eletrônicos, livros, carros, apartamentos, cachorros e viagens aéreas por dois mil reais, sete dias, para o Caribe – serviço do mesmo nível do valor. Você xinga, esperneia, tem um colapso mental de nível Escala Richter – mas você está no trabalho, numa agência de publicidade. Dos onze e-mails restantes, seis são de fóruns que você gosta de alimentar a ilusão de participação, pois a maioria faz mais de  seis meses que não entra, mas faz bem ao ego acreditar que está envolvido nalgum “movimento de discussão na internet”, nada como ser alguém colaborativo. Três e-mails são notificações de comentários do seu site, que você irá ver e aprovar depois. O penúltimo e-mail é um aviso dos aniversariantes da semana, de seus amigos do Facebook, que você não lembra a data.  O último e-mail é um pedido de encaminhamento para todos os seus contatos, com uma mensagem chocante e fotos que você não vai querer olhar; vem da sua amiga pródiga. Em resumo, você apaga tudo.

@EnciclopédiaPrecisa # EscalaRichter: atribui um número para quantificar o nível de energia liberada por um sismo.

Então você entra no seu site e faz as postagens diárias. Você acessa o Facebook confere todas as atualizações inúteis que habitam sua timeline; e curte uma ou outra. Responde os seis ou outros comentários diários e começa a dança, em seu horário de serviço, agora.

Você abre mais uma janela para o Twitter, outra para o Pinterest, quer ver uma foto no Instagram de alguém e dá check-in no Foursquare.  Acessa os seis ou sete sites que costuma ler os textos, conteúdo já filtrado, baixa os podcasts semanais; e responde a mensagem do WhatsApp no celular.

Neste traquejo, você passa o dia todo, entre uma coisa e outra. E o que começa no trabalho, se arrasta até a faculdade, chegando em casa depois da aula. Você está conectado, flanando pra lá e pra cá.

E você sabe que este é o flanar do internauta, empolgante, relacionando-se nas mídias “sociais”, com muitos amigos.

Aí você se desconecta, desliga tudo, deita na cama. Olha para a parede e uma lágrima escorre do seu rosto.

Exit.

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