David Bowie e os 50 anos de Ziggy Stardust

Entenda as revoluções e semelhanças de David Bowie com os seus personagens em um dos maiores discos do rock.

O Homem que Caiu da Terra

David Bowie é um daqueles poucos que transcendem o usual a ponto de levantar certa dúvida sobre sua origem. Parece um humano? Sim. Caminha como um humano? Sim. É um ser humano? Talvez.

No filme “O Homem que Caiu na Terra” (1976), adaptação do livro de mesmo nome, Bowie interpreta T. J. Newton, um extraterrestre de Anthea que chega à terra e se infiltra no meio dos humanos. Sua missão é ganhar muito dinheiro para conseguir enviar uma nave e resgatar seu povo antheano, que está destruindo o próprio planeta. Newton se destaca na Terra, revolucionando e criando novas tecnologias, assim como planejado, mas será que ele voltou para casa?

O livro de Walter Tevis — com uma impecável edição de 2016 da Darkside Books — mostra um personagem melancólico, encontrando solidão em um lugar tão pequeno e cheio, mas egoísta. De tanto fingir ser um humano, Newton entra em uma crise por não se sentir mais um antheano nem um terráqueo.

Ainda que a descrição física do personagem fosse muito semelhante ao cantor, seria curiosa a escolha para o papel se David Bowie não tivesse lançado, em 1972, um dos melhores discos da história do rock, “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars”, que está completando 50 anos.

Impacto da carreira

Bowie, assim como o extraterrestre Newton, destacou-se em vários segmentos, tendo sua influência não só na música, como também na moda, no cinema e na cultura pop em geral. Porém, não foi sempre que suas obras ganharam destaque. 

Desde 1967 gravando, foi só com Ziggy Stardust, o protagonista do disco, que ele entendeu que poderia combinar o mundo em um personagem que sintetizaria o momento, chamando a atenção de muita gente. O extraterrestre era o melhor na música e falava sobre mudanças. Vaidoso e carismático, conquistava qualquer um. Bowie chegou a se preocupar, já que, em certo momento, não entendia se estava desenvolvendo um personagem ou se o personagem o estava desenvolvendo.

Os raios esqueléticos em seu rosto, sua forma singular de se portar e de entender o povo acabaram representando as pessoas que não encontravam seu lugar em um mundo preconceituoso desde sempre. Não à toa, foi nesse momento que Bowie explodiu e conquistou fãs ao redor da Terra, em meio a vários questionamentos em relação à sua orientação sexual.

Bowie, o Brasil e a identificação

Após a ascensão de Bowie, os discos venderam muito rápido. Atualmente, David Bowie é o artista com mais vinis vendidos no século. Desde o início dos anos 2000 até 2022, quase 600 mil unidades foram vendidas, superando os Beatles. Obviamente, Bowie chegaria ao Brasil e alguns covers fariam sucesso. 

Astronauta de Mármore, de Nenhum de Nós, tornou-se um hit nos anos 80 com uma adaptação de Starman. Recentemente, a dupla César Menotti e Fabiano também gravou uma versão de Astronauta de Mármore, levando a canção para outra bolha.

Já em 2004, Seu Jorge gravou o álbum The Life Aquatic Studio Sessions, trilha sonora para o filme A Vida Marinha com Steve Zissou (2004), do diretor Wes Anderson. A trilha conta com covers abrasileirados de David Bowie, acompanhados somente com a voz e violão do cantor. Recebido quase a tomates podres por aqui e classificado como “agradável de ouvir, irritante ao prestar atenção” pelo jornal O Estado de S. Paulo, agradou aquele que talvez mais precisava, o próprio Bowie:

“Se Seu Jorge não tivesse gravado minhas canções acusticamente em português, eu nunca teria ouvido esse novo grau de beleza que ele conseguiu adicionar a elas.”

As adaptações acabaram sendo muito criticadas, principalmente por fãs do rock. Ainda assim, o sucesso das melodias de Bowie que conquistaram rapidamente muita gente no Brasil só reforça o poder que o artista tinha de decifrar isso tudo.

The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars

O disco conta como o extraterrestre Ziggy Stardust chega ao planeta Terra anunciando que a destruição se aproxima e que ele poderá salvar todos. Junto com a banda Spiders from Mars, Bowie conquistou o público e se tornou um herói do rock, trazendo esperança para os humanos. Ziggy, incorporado pelo próprio cantor, fala sobre drogas, política e orientação sexual, vestido com uma estética sci-fi bizarra que revolucionou a arte. Ao mesmo tempo em que ele espalha uma filosofia de celebração, acaba sendo vítima de sua própria força.

Five Years e nada mais. A terra está realmente acabando. Em cinco anos não existirá mais nada. Com uma melodia melancólica e letras desesperadas, Ziggy anuncia uma contagem regressiva e percebe que nunca achou que ia precisar de tantas pessoas. O drama é estimulado por uma progressão lenta em meio à angústia da voz de Bowie.

Já em Soul Love, a esperança começa a aparecer entrelaçada ao amor. Ziggy toma o protagonismo para si e alimenta uma mensagem positiva aos humanos. Assim como um profeta, ele serve como um intermediário da mensagem de salvação. Até mesmo um saxofone apaixonado aparece na música e dá tempero ao clima hippie que aquele novo herói carrega.

Moonage Daydream

Em Moonage Daydream, Ziggy demonstra seu jeito dominante de ser e seu desejo de virar um superstar. Com um vocal mais agressivo e riffs de guitarra que remetem a uma psicodelia espacial, o extraterrestre se mostra interessado em paixões eróticas terrestres. Ao final, uma orquestra grita uma sinfonia de insetos, imaginando uma relação entre seres distintos.

“There’s a starman waiting in the sky
He’d like to come and meet us
but he thinks he’d blow our minds”

O sucesso de Starman

Ziggy, novamente como o intermediário da salvação, aponta uma divindade no céu esperando para salvar o planeta. Starman é provavelmente a música de maior sucesso do disco. No refrão emocional, levemente inspirada em Over The Rainbow (Mágico de Oz), os violinos e a voz esperançosa de Bowie têm uma força enorme de conquistar qualquer um com sua expansão melódica.

“Não é fácil chegar ao céu quando se está descendo” é outra frase forte do disco. It Ain’t Easy é uma recaída depois de doses de esperanças. Ziggy abre os olhos para a tragédia na Terra e a dificuldade de salvá-la. 

Até que Lady Stardust chega com um piano charmoso, abrindo uma música mais calma e intimista. Ziggy fala sobre suas questões, bissexualidade e personalidade. Ele parece pleno cantando, ainda que pessoas rissem de sua maquiagem, cabelo longo e sua graça animal. Essa plenitude em meio a um equilíbrio entre seus lados masculino e feminino remete a uma relação divina dessa androginia. A melodia, com influência clara de Elton John, reforça esse pensamento, pois, na época, ele era um ícone bissexual da música — ainda que, depois de um divórcio, tenha se declarado homossexual.

O fim de Ziggy Stardust

Star e Hang on to Yourself passam a mesma sensação de uma sequência de filme, quando os personagens estão trabalhando para fazer tudo aquilo que prometeram até então. Agitadas, as duas demonstram o rock transformando o meio com uma energia digna do herói.

Mudando o interlocutor, Ziggy Stardust é narrada pela banda Spiders from Mars, que conta a ascensão e a queda de Ziggy. O astro do rock chega ao clímax de sua carreira, mas seu ego inflado e os exageros o levaram ao declínio. É interessante pensar no herói que Bowie construiu: ele vem de algum lugar do espaço e se aventura na Terra, vivendo como um homem comum, mas com um final não tão feliz.

“He took it all too far”

Novamente, o estilo guitarra+piano de Elton John aparece em Suffragette City, uma baladinha animada, que indica ser o último suspiro antes da tragédia final. Rock ‘n’ Roll Suicide é a cereja do bolo. Majestosamente, Bowie canta um acústico intimista para anunciar a morte de Ziggy Stardust, que morre para os fãs encontrarem a redenção, como muitos heróis do rock. David Bowie encerrava seus shows com essa música, quase como um pai para os fãs, demonstrando que entendia a angústia deles e que não estavam sozinhos. Ziggy, o herói, morreu para dar lugar a outras vidas.

“you’re not alone”

Com toda a repercussão que Bowie teve no mundo, passando por uma parte turbulenta, conquistando jovens e adotando uma nova estética para as artes, pode-se dizer que tudo isso cresceu com Ziggy Stardust, há 50 anos. Uma boa combinação de revolução, toques em feridas e, é claro, música boa. 

Bowie será sempre lembrado por seu jeito único — às vezes único demais — e por suas obras que muito acrescentaram ao mundo. Um herói do rock como Ziggy Stardust e um revolucionário como J. T. Newton, David Bowie era sim humano, talvez o maior de todos.

Referências

https://rollingstone.uol.com.br/noticia/como-ziggy-stardust-caiu-na-terra-e-levou-david-bowie-ao-estrelato/

https://www.proceedings.blucher.com.br/article-details/o-mito-do-heri-em-ziggy-stardust-23557

https://pt.wikipedia.org/wiki/The_Rise_and_Fall_of_Ziggy_Stardust_and_the_Spiders_from_Mars

Créditos HL

Esse texto é de Igor Furini para a nossa coluna HL Sonoro, tendo tido revisão de Raphael Alves e edição de Nicole Ayres, editora assistente do Homo Literatus.

Igor Furini
Formado em Produção Multimídia pelo IFSC e aspirante a roteirista. Apaixonado por música e cinema
Igor Furini
Formado em Produção Multimídia pelo IFSC e aspirante a roteirista. Apaixonado por música e cinema
Revisão por
Evandro Konkel
Catarinense, apaixonado por educação e por leitura
Editoria por
Nicole Ayres
http://sentimentosemcompotas.blogspot.com.br/
Professora de francês, Mestra em Teoria da Literatura pela UERJ, escritora e editora assistente no Homo Literatus. Apaixonada pelas palavras e pela vida. Não sabe definir os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, e nem pretende.
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