De Clarice Lispector para seus leitores

Clarice Lispector carica
Caricatura de Clarice Lispector por J. Bosco

Como numa espécie de promoção imperdível de loja de eletrodomésticos, onde quem ganha o presente é o cliente, Clarice Lispector, a aniversariante do dia, parece regalar seus leitores com boas reflexões sobre a relação íntima que existe entre o escritor e o leitor por meio de um de seus mais célebres livros, Água viva

Nele Clarice, com sua escrita profundamente instigante, desvela o encontro de olhares e mundos e a troca de generosidades que são vivenciadas durante o exercício nobre da leitura, por meio de um diálogo no qual algumas sugestões de caminhos são dadas ao leitor para a construção de um exercício generoso de leitura.

O livro é, segundo a crítica literária, um romance sem romance, no qual Clarice Lispector divaga sobre o instigante exercício de escrever. Para mim, que não tenho o olhar aguçado de um crítico da literatura, o livro funciona como uma espécie de manual para o leitor de Clarice – não explicativo, já que foge completamente dos critérios da racionalidade –, mas um manual que, de modo contrário, nos convida a um abandono do raciocínio e que com pouco menos de 100 páginas, pela diversidade de fenômenos abordados e densidade dos fluxos de pensamento, exige do leitor horas, quando não dias de muita reflexão na tentativa de entender o que é, claramente preconizado pela própria Clarice, como estando além dos limites da compreensão.

Assim, compreender, ou pelo menos, tentar compreender Clarice se torna tão ou até mesmo mais difícil do que resolver operações da matemática, a disciplina que “é a loucura do raciocínio (p. 09)”. Porém, isso não significa, de forma alguma, que eu, assim como muitos, esteja alimentando os estereótipos que existem sobre Clarice e que lhe deram a imagem de mística e, sobretudo, hermética – o que também não quer dizer que ela não tenha sido um pouco de cada.

Mas para que Clarice, em toda sua densidade e profundidade, não seja confusa – o que não evitará o irromper de muitas vivências de estranhamento – é preciso que o leitor digne-se a seguir algumas das pistas deixadas por ela em seus livros, sobretudo em Água Viva; romance no qual uma artista plástica, já sem saber o que pintar, busca nas palavras um diálogo com um tu que, a princípio, não se sabe se é um homem ou uma mulher, mas que, ao longo do livro, eu fui me sentindo confortável o suficiente para identificá-lo como uma espécie de representante do leitor de Clarice, um tu-leitor.

Ao longo das 95 páginas do romance, Clarice Lispector se revela e revela ao leitor o seu amor e espanto diante do poder das palavras, a sua relação com Deus e com as flores e ainda lança pistas e/ou dicas de como o texto por ela escrito (não) deveria ser lido. Mas isso não deve ser entendido enquanto uma limitação das possibilidades que o leitor tem diante do texto literário ou uma tentativa dela de fisgar a atenção de quem a lê. “Eu não escrevo para te agradar (p. 84)”.

Na verdade, acredito que Clarice apenas se permitiu, ao menos uma vez na vida, defender um estilo que ela sempre negava ter; um estilo profundo e bastante peculiar; além, é claro, de ter desvelado sua real intenção para com o leitor – “nos meus livros quero profundamente a comunicação profunda comigo e com o leitor”, escreveu Clarice em uma de suas crônicas hoje reunidas no livro A descoberta do mundo.

E em Água Viva, a meu ver, Clarice parece querer expressar, como em nenhuma outra obra sua, a relação de pura intimidade que pode e deve existir entre o leitor, o livro e o escritor. Relações essas que acontecem por intermédio da leitura, que vejo como um nobre exercício de alteridade, do qual é promovido um encontro com as mais distintas e surpreendentes situações também de alteridade.

É através da leitura, do debruçar-se sobre o livro que eu me identifico com as palavras nele contidas e, na grande maioria das vezes, com o próprio escritor e, em seguida, ainda tenho acesso a um mundo em que o ser-com-o-outro está sempre em evidência. E isso porque a alteridade é o princípio que rege as relações humanas (é ela, na verdade, a alteridade a própria relação eu-outro!) e a literatura, como um reflexo do mundo vivido, é o retrato fiel da dinâmica do dia-a-dia e de todas essas nossas relações.

E Clarice por meio de sua literatura – mais especificamente por intermédio de suas sensações registradas em palavras e de seus floreios verbais – permitiu e continua permitindo encontros harmoniosos e, ao mesmo tempo, assombrosos com o homem e suas relações com o outro, com o mundo e até mesmo com os animas; e isso sem ter deixado de ser inteiramente doce, sutil e, é claro, profunda.

Por Clarice fui e, certamente, outros foram e serão ainda apresentados à inocente e desamparada Macabeia, à dedicada Ana, à espantada Pequena Flor, ao misterioso Martim, a atordoada Laura, a incipiente Lóri, a recatada Miss Algrave e a muitas outras personagens que, embora fictícias, são, sem dúvida alguma, imbuídas do que há de mais humano; personagens cujos enredos estão envoltos pelas consequências não só afáveis, mas também ásperas e sufocantes do amor, da felicidade, do medo e de todas as outras vivências brilhantemente tecidas por Clarice em sua poesia em forma de prosa.

E é por todos os encontros, alegrias, nós na garganta, calafrios, arrepios… e, sobretudo, pelas inúmeras reflexões que eu admiro, amo e celebro Clarice – a escritora, mãe, irmã, amiga e mulher que, intuitivamente, escreveu livros que fizeram e ainda a fazem ser amada por muitos de longe.

Jefferson Maciel
É estudante de Psicologia com um pé e meio no mundo das palavras em harmonia.
Jefferson Maciel
É estudante de Psicologia com um pé e meio no mundo das palavras em harmonia.
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