DIA D: De Saramago e Drummond, todo mundo tem um pouco

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Se estivesse vivo, Carlos Drummond de Andrade completaria hoje 111 anos. “Se estivesse vivo” soa falso e incoerente, pois todo mundo sabe que o poeta de Itabira não morrerá jamais. É claro e triste: o homem se foi, mas sua poesia não. Seu lirismo profundo e carregado de subjetividades permanece vivo, mexendo com sentimentos e emoções inerentes ao homem como indivíduo.

Prova disso é que ainda hoje, depois de 26 anos de sua morte, seus poemas inspiram outros escritores, chegando a invadir até mesmo o mundo do cinema. No campo literário, Drummond fez com que José Saramago, em 1986, publicasse uma crônica falando sobre e “roubando o título” de E agora José?. Mencionando a coincidência com seu nome, Saramago faz uma delicada e bela homenagem ao poeta brasileiro, criando um texto igualmente carregado de sentidos, tal qual acontece com um dos poemas drummondianos mais conhecidos e mais admirados dentre todo o seu legado.  Gostaria de destacar alguns trechos, mas o texto todo é bonito, capaz de tocar a alma e nos deixar pensando sobre a grandeza destes dois nomes da Literatura. Por isso, a crônica na íntegra:

E agora ,José? [1]

José Saramago

Há versos que se transmitem através das idades do homem, como roteiros, bandeiras, cartas de marear, sinais de trânsito, bússolas – ou segredos. Este, que veio ao mundo muito depois de mim, pelas mãos de Carlos Drummond de Andrade, acompanha-me desde que nasci, por um desses misteriosos acasos que fazem do que viveu já, do que vive e do que ainda não vive, um mesmo nó apertado e vertiginoso de tempo sem medida. Considero privilégio meu dispor deste verso, porque me chamo José e muitas vezes na vida me tenho interrogado: “E agora?” Foram aquelas horas em que o mundo escureceu, em que o desânimo se fez muralha, fosso de víboras, em que as mãos ficaram vazias e atônitas. “E agora, José?” Grande, porém, é o poder da poesia para que aconteça, como juro que acontece, que esta pergunta simples aja como um tônico, um golpe de espora, e não seja, como poderia ser, tentação, o começo da interminável ladainha que é a piedade por nós próprios.

Em todo o caso, há situações de tal modo absurdas (ou que pareciam vinte e quatro horas antes), que não se pode censurar a ninguém um instante de desconforto total, um segundo em que tudo dentro de nós pede socorro, ainda que saibamos que logo a seguir a mola pisada, violentada, se vai distender vibrante e verticalmente afirmar. Nesse momento veloz tocara-se o fundo do poço.

Mas outros Josés andam pelo mundo, não o esqueçam nunca. A eles também sucedem casos, desencontros, acidentes, agressões, de que saem às vezes vencedores, às vezes vencidos. Alguns não têm nada e ninguém a seu favor, e esses são, afinal, os que tornam insignificantes e fúteis as nossas penas. A esses, que chegaram ao limite das forças, acuados a um canto pela matilha, sem coragem para o último ainda que mortal arranco, é que a pergunta de Carlos Drummond de Andrade deve ser feita, como um derradeiro apelo ao orgulho de ser homem: “E agora, José? .

Precisamente um desses casos me mostra que já falei demasiado de mim.

Um outro José está diante da mesa onde escrevo. Não tem rosto, é um vulto apenas, uma superfície que treme com uma dor contínua. Sei que se chama José Júnior, sem mais riqueza de apelidos e genealogias, e vive em São Jorge da Beira. É novo, embriaga-se, e tratam-no como se fosse uma espécie de bobo. Divertem-se à custa alguns adultos, e as crianças fazem-lhe assuadas, talvez o apedrejem de longe. E se isto não fizeram, empurram-no com aquela súbita crueldade de crianças, ao mesmo tempo feroz e cobarde, e José Júnior, perdido de bêbedo, caiu e partiu uma perna, ou talvez não, e foi para o hospital. Mísero corpo, alma pobre, orgulho ausente – “E agora, José?.

Afasto para o lado os meus próprios pesares e raivas diante deste quadro desolado de uma degradação, do gozo infinito que é para os homens esmagarem outros homens, afogá-los deliberadamente, alvitá-los, fazer deles objeto de troça, de irrisão, de chacota – matando sem matar, sob a asa da lei ou perante sua indiferença. Tudo isto porque o pobre José Júnior é um José Júnior pobre. Tivesse ele bens avultados na terra, conta forte no banco, automóvel à porta – e todos os vícios lhe seriam perdoados. Mas assim, pobre, fraco e bêbedo, que grande fortuna para São José de Beira. Nem todas as terras de Portugal podem se gabar de dispor de uma alvo humano para darem livre expansão a ferocidades ocultas.

Escrevo estas palavras a muitos quilômetros de distância, não sei quem é José Júnior, e teria dificuldade em encontrar no mapa São Jorge da Beira. Mas estes nomes apenas designam casos particulares de um fenômeno geral: o desprezo pelo próximo, quando não o ódio, tão constantes ali como aqui mesmo, em toda parte, uma espécie de loucura epidêmica que prefere as vítimas fáceis. Escrevo estas palavras num fim de tarde cor de madrugada com espumas no céu, tendo diante dos olhos uma nesga do Tejo, onde há barcos vagarosos que vão de margem a margem levando pessoas e recados. E tudo isto parece pacífico e harmonioso como dois pombos que pousam na varanda e sussurram confidencialmente. Ah, esta vida preciosa que vai fugindo, tarde, mansa que não será igual amanhã, que não serás, sobretudo, o que agora és.

Entretanto, José Júnior, está no hospital, ou saiu já e arrasta a perna coxa pelas ruas de São Jorge da Beira. Há uma taberna, o vinho ardente e exterminador, o esquecimento de tudo no fundo da garrafa, como um diamante, a embriaguez vitoriosa enquanto dura. A vida vai voltar ao princípio. Será possível que a vida volte ao princípio? Será possível que os homens matem José Júnior? Será possível?

Cheguei ao fim da crônica, fiz o meu dever.

“E agora, José?”

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A crônica fala por si só, mostrando o talento e o tato para lidar com as palavras, tanto por parte do português, quanto por parte do brasileiro. A grandiosidade do poema é tanta, que muitos professores a usam em sala de aula, pedindo para que os alunos criem seu próprio José. Na internet, é possível também encontrar diferentes escritores que recorreram às palavras de Drummond para falar sobre seus sentimentos de forma poética.

E as inspirações não param por aí. No Youtube e no Vimeo, é possível encontrar vários curtas-metragem inspirados em outro que pode fazer parte do rol dos melhores poemas drummondianos. A morte do leiteiro mescla elementos da narrativa, criando um poema de teor épico, mesmo que de heroico nada tenha suas duas personagens. De um lado, o jovem leiteiro que sai de casa para cumprir seu trabalho; de outro, um homem preocupado com a segurança de sua família.

O mais bonito ao ler este poema é observar os recursos usados por Drummond para contextualizar as cenas, o que carregou cada linha de atualidade e fez dos seus versos alguns dos mais imortais de toda a sua obra. Não bastasse o cuidado em articular cada palavra com cuidado no que diz respeito ao sentido para o mundo real, o texto segue a todo instante criando belas figuras, metáforas dotadas de sentidos múltiplos, tornando A morte do leiteiro um poema único, como é possível observar melhor quando lido na íntegra:

Morte do Leiteiro [2]

Há pouco leite no país
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.

Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas,
seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.

Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro.
morador na Rua Namur,
empregado no entreposto
Com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma pequena mercadoria.

E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro…
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.

Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.

Mas este entrou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.

Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.

Da garrafa estilhaçada.
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue… não sei
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.

Foram estas palavras que inspiraram vários curtas-metragens. Cada uma com suas particularidades, as produções destacam diferentes elementos do poema, revelando sua riqueza e as inúmeras possibilidades de interpretação, inspiração e intertexto, que apenas um poeta como Carlos Drummond de Andrade pode provocar em apenas um texto.

Dois destes curtas são:

Vale lembrar que além do cinema, Morte do leiteiro rendeu inspirações para peças teatrais, de diferentes estilos e diretores.

É por tudo isso e muito mais que Drummond continua vivo e permanecerá inspirando, provocando, enquanto o mundo, vasto mundo, for mundo.

___________________

[1] SARAMAGO, José. A bagagem do viajante – crônicas. 3. Ed. Lisboa: Caminho, 1986. P. 35-7.

[2] ANDRADE, Carlos Drummond. A Rosa do Povo. 1945