Você é louco por ter lido o que mais ninguém leu nesse livro?

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No universo dos leitores, uma das coisas mais comuns é a divergência de leituras. Melhor dizendo, as diferentes interpretações que duas ou mais pessoas fazem de uma mesma obra. Por exemplo, sabe quando você fica mega empolgado com um livro que leu, e vai correndo contar pro seu amigo o que você entendeu, e então ele te olha e diz ” Poxa cara, você viajou hein! Não tinha nada disso lá, eu também li”. Ou quando um professor passa aquele conto do Machado de Assis, e nas questões você responde algo que faz todo o sentido pra você, mas na correção ele diz que está tudo errado? E aí você para e pensa: “será que sou maluco”?

Pois bem, isto é muito mais comum do que você imagina. E tenha certeza, você não está maluco. Segundo muitos teóricos e estudiosos da linguagem, entre eles Bakhtin, Umberto Eco etc, os livros possuem plurissignificação, ou seja, eles possuem muitos sentidos e leituras. Para estes estudiosos, não há como ler uma obra da mesma forma. Principalmente as obras literárias, são repletas de figuras de linguagem. Ah, mas é só isso? Simples assim. Sim, é só isso, mas não é tão simples assim.

As diferentes leituras de um mesmo texto podem ter consequências históricas; por exemplo, pense nas interpretações da Bíblia, que fizeram as doutrinas cristãs se dividir em várias vertentes. Ou mesmo nas das obras de Karl Marx, na busca pela contribuição com a igualdade entre os indivíduos, cujas interpretações também levaram ao sangrento regime stalinista, na Rússia do século passado (lembrando que este texto não é sobre o comunismo ou o marxismo).

Outro bom exemplo de divergência de leitura, agora no mundo da literatura, são as especulações em relação a Capitu e ao Bentinho, no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. A galera se debruça para saber se “Traiu ou não traiu? Eis a questão!”

Portanto, para esses casos de discordância, a dica é: leia sobre o que você leu. Vá até o site de alguma universidade de confiança e pesquise sobre o livro que você está interessado. Procure por artigos assinados e autentificados, pois alguém deve ter escrito algo semelhante ao que você pensou. Ou não, neste caso a sorte é sua, e você pode ser o primeiro a escrever.

Mas voltando às dicas, é importante também que você tenha em mente o que você quer saber sobre o livro. Se o que te interessa são os personagens, o tempo, o espaço, o narrador, use palavras chaves, como “ As Meninas – Lygia Fagundes Telles + Ditadura Militar” e veja aonde essa busca pode te levar.

Deste modo, a leitura do livro te encaminhará para outras leituras e conhecimentos. E isso é muito bacana, pois aumenta o seu repertório cultural. E impede que aquele seu amigo chato te chame de “maluco”. Já o professor eu não sei. No entanto, tenha sempre em mente que a sua interpretação do livro, antes de tudo, é a coisa mais importante.

Renan Pereira
Estuda Letras na Unesp de Araraquara. E anteriormente trabalhou como repórter fotográfico no jornal Debate, no interior de São Paulo.
Renan Pereira
Estuda Letras na Unesp de Araraquara. E anteriormente trabalhou como repórter fotográfico no jornal Debate, no interior de São Paulo.
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