Distopias: a arte de refletir e premeditar as sociedades

Uma análise das distopias “O Conto da Aia” e “O Homem do Castelo Alto” para entender temas importantes da nossa sociedade.

Introdução

Levando em consideração os debates calorosos – e absurdos – da atualidade brasileira sobre ser ou não parte da liberdade de expressão apoiar ou fazer apologia a regimes totalitários e genocidas, trago para vocês, caros leitores, uma breve introdução sobre como histórias distópicas oferecem lições para o nosso presente, analisando o passado e olhando para o futuro. 

O que é uma distopia? 

No grego antigo, distopia significa literalmente “lugar ruim”. É também definida como o oposto de utopia: ambos os conceitos se relacionam com futuros fictícios, imaginados pelo homem sobre a própria sociedade. Porém, enquanto as utopias trazem a representação da justiça bem aplicada, do bem-estar comum e do fim das mazelas da humanidade, as distopias por sua vez apresentam sociedades perturbadas nas quais, geralmente, uma elite predomina no poder, subjugando a lei e os demais às suas vontades e interesses.  

Dessa forma, distopias trazem cenários imaginados de um futuro pós-apocalítico e/ou que sofreram um grande choque político-social, no qual a sociedade – agora desumanizada – precisa lidar com uma realidade assustadora e ameaçadora. Em alguns casos, podem apresentar-se como uma forma de protesto contra regimes ditatoriais e Estados totalitários, fornecendo intenso conflito, drama e suspense.  

Exemplos de distopias

Há diversas distopias de grande popularidade literária, como por exemplo: Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley; A Revolução dos Bichos (1945), de George Orwell; Fahrenheit 451 (1953), de Ray Bradbury; entre outras.  

Já no cinema, temos produções de grande sucesso: a franquia Jogos Vorazes (2012-2015) baseada nos livros de Suzanne Collins; a trilogia Divergente (2011- 2013) baseada na série de livros escrita por Veronica Roth; Bacurau (2019); Wall-E (2008); entre outros. 

O Conto da Aia

Margaret Atwood, autora de O conto da Aia, é uma das mais célebres escritoras de ficção distópica. Ela explanou o seguinte pensamento:

“Se você está interessado em escrever ficção especulativa, uma maneira de gerar um enredo é pegar uma ideia da sociedade atual e movê-la um pouco mais adiante na estrada. Mesmo que os humanos sejam pensadores de curto prazo, a ficção pode antecipar e extrapolar para múltiplas versões do futuro.” 

As distopias têm a capacidade fantástica de nos transportar para realidades que não chegamos a viver – ainda – e, de quebra, nos trazer reflexões sobre para onde nossas atitudes – sejam elas permissivas ou de abstenção – podem nos conduzir no que diz respeito ao modo de organização da nossa sociedade. 

O conto da Aia – também fortemente conhecido no Brasil pelo seu título original “The Handmaid’s Tale” –, é uma série distópica que estreou em 2017 baseada no livro de mesmo nome de Atwood. Conquistou o público e a crítica desde seu lançamento, contabilizando mais de 70 prêmios, entre eles 15 Emmy.

Gilead, um regime fundamentalista cristão

A história traz um cenário perturbador no qual, por meio de um golpe, os Estados Unidos assistem à morte de sua democracia enquanto uma teocracia se instaura. O país passa a se chamar Gilead e a nova ordem é um regime fundamentalista cristão militarizado, norteado pelos preceitos do Velho Testamento.

As mulheres – como de praxe de qualquer regime autoritário – têm seus direitos retirados e passam a assumir posições de esposas submissas, serviçais ou, pior, escravas sexuais com função principal de reprodução da espécie humana, visto que essas são as únicas que ainda podem gerar filhos dentro de uma sociedade geneticamente estéril. Estupros mensais são banalizados ao se tornarem rituais sagrados e qualquer insubordinação dentro do sistema é corrigida com violentos castigos físicos ou execução. As mulheres, nesse cenário, tornam-se literalmente propriedade dos homens.  

O jogo de cores e as reviravoltas do roteiro deixam o espectador tenso o tempo todo. O drama da protagonista June Osborne nos envolve a cada cena, desde o momento em que ela e sua família são perseguidas pelo governo recém instaurado, até quando as filhas são retiradas dela diversas vezes e se vê submetida a estupros institucionalizados pelo Estado.

É possível sentir a dor da personagem e o tamanho de sua vontade de vingança todas as vezes que Elizabeth Moss levanta vagarosamente o olhar dominado pela raiva, trazendo toda a profundidade de June para a cena. É de arrepiar!   

The handmaid's tale': 3ª temporada desvia foco da violência para a revolução - Jornal O Globo
Fonte: Jornal O Globo

Causas “nobres”

Gilead utiliza de seus pontos positivos para argumentar a favor das atrocidades de seu sistema. O país se torna exemplo de sustentabilidade no mundo, mas às custas de boa parcela da população que está sujeita ao trabalho serviçal e à miséria; apenas os comandantes levam uma vida digna e abastada. Além disso, o objetivo principal desse sistema é lutar contra o defeito genético de infertilidade que assola o mundo dentro desse universo futurístico, garantindo assim que a taxa de natalidade aumente.

A produção literária e audiovisual dessa distopia nos faz um enorme alerta quando apresenta esses pontos: governos autoritários tendem a utilizar suas “nobres” causas para justificar sua rigidez e violência. É uma forma de garantir que a população se calará diante de tamanha barbaridade e legitimará as decisões dos governantes incoerentes, acreditando que esse é o único caminho possível.  

O Homem do Castelo Alto

Falando em barbaridades e governantes incoerentes, outra distopia de excelente qualidade para a reflexão é “The Man in the High Castle”, também conhecida como O Homem do Castelo Alto. Uma série de grande sucesso produzida pela Amazon, que traz como cenário caótico a existência de um universo paralelo onde o nazismo venceu a Segunda Guerra Mundial, dominou o mundo e o dividiu com o Japão, estabelecendo um fascismo global. 

A narrativa se passa, em sua maioria, nos EUA. O lado leste do país é dominado pelo nazismo e a costa oeste torna-se território nipônico, enquanto uma faixa territorial no centro chamada de Zona Neutra é deixada de lado. É nessa região onde judeus, negros e homossexuais se refugiam para sobreviver.  

Em solo sob seu domínio nipônico, os japoneses tratam os americanos como cidadãos de classe inferior, menosprezando sua cultura e capacidade intelectual; aplicam medidas drásticas de contenção a insurgentes, executam pessoas aleatórias nas ruas como retaliação a cada morte de militar japonês.  

Um regime nazista

Na região nazista, a exaltação da raça ariana leva as autoridades a vasculharem a árvore genealógica de seus cidadãos e realizar exames de avaliação física para averiguar quão “branca” é a pessoa. Além disso, a lei é rígida e cruel quanto às pessoas com deficiência. Essas devem ser executadas em prol do bem comum, para garantir a perfeição genética das gerações futuras.  

Diversos pontos de tensão são criados no decorrer da trama. Uma espécie de Guerra Fria entre Japão e Alemanha ganha espaço, ao mesmo tempo em que um grupo anônimo denominado de Resistência passa a ganhar força, conforme seus membros se apossam de filmes com cenas de universos paralelos que apresentam diferentes resultados da Segunda Guerra Mundial e da guerra que está para se despontar no mundo entre as duas potências.

A Resistência

A personagem Juliana Crain centraliza a trama quando acaba se envolvendo com o grupo da Resistência por acaso. Ela recebe da irmã um filme com a cena da vitória dos Aliados – fato que corresponde à realidade do nosso universo, em que o Eixo é derrotado em 1945 – pouco antes de assisti-la ser assassinada na rua pelos militares japoneses. Assustada e intrigada com o filme, Juliana parte para a Zona Neutra em busca de respostas sobre a morte de sua irmã. Ela abandona seu namorado Frank Frink, descendente de judeus e futuramente membro da Resistência também, e conhece Joe Blake durante sua jornada, um jovem americano descendente de alemão e espião nazista disfarçado.  

O modo de vida e os modelos de governo que nos são apresentados nessa produção audiovisual genial nos trazem uma forte reflexão sobre o que seria do mundo se deixássemos o fascismo dominar. 

O Homem do Castelo Alto: diversidaosas - CRÍTICA
Fonte: Delirium Nerd

Conclusão

Nunca é demais relembrar (e nisso as distopias nos ajudam) a importância de contermos pensamentos e expressões perigosos de intolerância. Jamais devemos confundir apologia a regimes genocidas com liberdade de expressão.  

Segundo o filósofo austríaco Karl Popper: “Se estendemos tolerância ilimitada até àqueles que são intolerantes, se não estamos preparados para defender a sociedade tolerante contra o ataque dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, juntamente com a tolerância.” 

Créditos Homo Literatus

Esse texto foi escrito por Gabriela Guratti para nossa coluna Cinemateca HL. A revisão é de Evandro Konkel e a edição final de Nicole Ayres, editora-assistente do Homo Literatus.

Gabriela Guratti
Formada em Relações Internacionais pela Unifesp e pós-graduanda em Cinema pela Belas Artes de São Paulo. Apaixonada por livros, cinema, viagens, história e culturas estrangeiras. Amante do Egito Antigo, fã de fofocas da antiga monarquia europeia e curiosa por teorias da conspiração e alienígenas.
Gabriela Guratti
Formada em Relações Internacionais pela Unifesp e pós-graduanda em Cinema pela Belas Artes de São Paulo. Apaixonada por livros, cinema, viagens, história e culturas estrangeiras. Amante do Egito Antigo, fã de fofocas da antiga monarquia europeia e curiosa por teorias da conspiração e alienígenas.
Revisão por
Evandro Konkel
Catarinense, apaixonado por educação e por leitura
Editoria por
Nicole Ayres
http://sentimentosemcompotas.blogspot.com.br/
Professora de francês, Mestra em Teoria da Literatura pela UERJ, escritora e editora assistente no Homo Literatus. Apaixonada pelas palavras e pela vida. Não sabe definir os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, e nem pretende.
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