Domex, de Gustavo Piqueira: uma comédia da representação

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Domex, HQ de Gustavo Piqueira, mistura o ridículo e o absurdo de duas gerações através da exposição de seus estereótipos

Gustavo Piqueira inaugura exposição e lança dois livros – Jornal da USP
Foto divulgação, Jornal da Usp

Esperando a pizza

Comparado a Ar Condicionado – trabalho anterior de Piqueira pela editora Veneta, em que todo o texto era espremido dentro da silhueta dos personagens –, Domex é até uma narrativa tradicional.

Isso não quer dizer, no entanto, que a história em quadrinhos seja um fruto estranho no percurso do autor pelas artes visuais. As ideias pouco convencionais aqui propostas exigem, justamente, que embarquemos de maneira tranquila. Isso é perceptível a partir do aviso que abre Ar Condicionado:

caro leitor, ainda que não pareça, este livro foi feito para ser lido.

Nesta segunda HQ de Piqueira publicada pela Veneta, acompanhamos a conversa entre um pai e um filho enquanto esperam uma pizza.

O álbum parte de uma narrativa dentro da outra – Domex, o androide –, um tosco fanzine que o pai desenhou na juventude, com ligeiras quatro páginas e protagonizado pelo personagem-título: um brucutu de visual punk que desce a porrada em inimigos tribais, mata uma cobra gigante e salva uma mulher seminua.

São clichês suficientes para que o filho ridicularize a falta de imaginação do pai à época e questione seu próprio percurso torto pela vida, com a profissão anulando seu prazer e satisfação pessoal.

O conflito de gerações segue até que a campainha toque, e lá está o androide. 

Uma visita do passado

Essa presença desencadeia, então, uma série de justaposições e estranhamentos que Piqueira consegue explorar com os recursos que as artes visuais (não apenas os quadrinhos) permitem.

Afinal, pai e filho são aqui representados por manchas azuis e verdes, simples silhuetas humanas com alguns traços que definem seus gestos. Já o androide é um super-herói de canetinha, um rabisco adolescente e sem volume que Piqueira apenas copia e cola do fanzine original, fazendo pequenos ajustes.

O contraste dessa literal visita do passado materializa, aos olhos do filho, todos os valores falidos e ultrapassados do pai. Este, por sua vez, se acomoda em conservar seu sub-Schwarzenegger como uma mera lembrança afetiva e simpática, tentando desviar-se do raio problematizador do filho.

Enquanto isso, Domex, com sua mentalidade de máquina, tenta contribuir ao diálogo por meio de frases-feitas e clichês motivacionais.

Assim, Piqueira arma, de maneira inusitada, uma comédia da representação – um dos pilares do debate cultural nos últimos anos.

Foto divulgação Editora Veneta

De um lado, uma juventude ativista de sofá, especialista em julgamentos anacrônicos e contrariando uma geração mais velha, que banaliza e normaliza os absurdos de seu tempo.

Imagens fora de lugar…

O androide Domex, na verdade, será apenas o primeiro intruso desta espera gigante por uma pizza que nunca chega. Um índio, um negro, meninas de biquíni em estilo mangá e até o ex-presidente militar Ernesto Geisel vão se juntando passageiramente à história.

A sacada – e aí entra a expertise de Piqueira como designer – é que nenhuma dessas figuras são fruto da sua caneta, pelo menos, não a de hoje. Como deciframos ao longo da narrativa e no posfácio bastante explicativo, o Domex que se faz conhecido é uma criação de Piqueira durante a adolescência – nomeado originalmente Dibex e agora rebatizado ironicamente em homenagem a uma marca de detergente para qual o designer trabalhou nos anos 1990.

Foto divulgação Editora Veneta

Por sua vez, as figuras do índio e do negro foram recortadas de um álbum de figurinhas brasileiro da ditadura militar, tiradas de uma seção de ilustrações de tipos humanos e raças.

O terrível ex-ditador Geisel, da mesma forma, saiu da capa de outro álbum da época, a Enciclopédia Escolar, na qual é retratado como um bondoso velhinho de óculos escuros no rodapé de um mapa do Brasil colorido e repleto de elementos exóticos.

Todas essas imagens estranhas carregam, de uma maneira ou de outra, algumas das matizes que formam não apenas o imaginário do pai e do filho da história, mas de todos os leitores, carregados de preconceitos, acostumados a estereótipos visuais e referências que, mesmo que queiramos, não são nada inocentes ou nostálgicos.

…E os lugares fora da imagem

Nessa miscelânea de construções fora de contexto, com muita astúcia e bom humor, o designer nos lembra da própria diluição do conceito de autoria, seja no texto ou nas imagens, flagrando representações absurdas por meio da pesquisa (os álbuns de figurinha), do autoplágio (a ironia autobiográfica de Dibex), ou mesmo da compra de direitos de reprodução (as garotas de mangá genéricas).

Piqueira deixa de ser aquele autor clássico, idealizado, para assumir-se um bufão de citações visuais e literárias, que vão de Marcel Proust a Henry Darger, passando pelo Shutterstock. E quem for atrás das suas outras dezenas de trabalhos, saberá que ele é um mestre neste campo.

Daí também vem a capacidade de Domex acumular questões sobre a suspensão de descrença, ou até mesmo sobre o que se considera aceitável num meio, mas não em outro.

Afinal, onde mais, senão exclusivamente na tradição estética dos mangás, pode-se compreender culturalmente a representação de garotinhas sexualizadas? Ou até mesmo o que nos daria o direito de julgar ou desqualificar, com os olhos de hoje, o que foi feito há 20, 30 ou 50 anos?

Nada mais honesto do que trazer essa provocação como um autodeboche espirituoso. O próprio Piqueira lembra que a intenção não é ridicularizar, mas dar corpo à frase do francês Michel Onfray, citada no livro pelo androide Domex:

“o homem comum reitera as besteiras de sua época”.

Por meio da liberdade dos quadrinhos (esse mesmo espaço em que surgiu Dibex, numa época em que Piqueira ainda não era um designer reconhecido), o autor encontra um espaço ideal para sobrepor imagens e ideias distintas que, niveladas ao fantasma de um tempo presente, conduzem uma narrativa simples, mas repleta de assombrações que cada pessoa carrega como uma herança maldita.

Referência

PIQUEIRA, Gustavo. Domex. 1ª ed. São Paulo: Veneta, 2021.

PIQUEIRA, Gustavo. Ar Condicionado. 1ª ed. São Paulo: Veneta, 2018.