Dostoiévski e a fobia social

Sobre como “Memórias do subsolo”, de Dostoiévski, aborda um problema muito atual: a fobia social

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Dostoiévski na linha Estação Lublin-Dmitrov do metrô de Moscou

Entre os personagens de grande densidade psicológica criados por Dostoiévski existe um que, nitidamente, sofre de fobia social. Trata-se do narrador das Memórias do Subsolo (também conhecidas como Notas do Subterrâneo), um homem que, talvez não por acaso, sequer possui um nome para identificá-lo. A fobia social é um transtorno de ansiedade que se caracteriza por um extremo desconforto diante de situações em que a pessoa se expõe à avaliação social. É um medo de tal forma incapacitante que o seu portador passa a evitar situações aparentemente corriqueiras, como cumprimentar as pessoas, atender ao telefone, entrar em uma loja ou comer em público. O sociofóbico acredita que, nessas situações, o seu desempenho será avaliado sempre de forma negativa. Tem medo de parecer ridículo, de ser humilhado publicamente ou de ficar em situação embaraçosa. O resultado é que ele resolve se antecipar a esses constrangimentos, de modo a evitar que ocorram. Com esse objetivo, o sociofóbico acaba por se isolar – vive uma vida escondido no subsolo.

Há, para os portadores de fobia social, uma clara noção de qual deve ser o comportamento ideal na sociedade, ao mesmo tempo em que se julgam incapazes de reproduzi-lo. No caso do personagem de Dostoiévski, vemos um homem que se enxerga como vítima de uma trama fatal em que suas dúvidas e emoções merecem unicamente o desprezo dos “homens direitos”, ou “homens de ação” – aqueles que sabem exatamente como se portar na vida social. Na sua imaginação, esses homens estão postados orgulhosamente ao seu redor, como juízes e ditadores, rindo às gargalhadas de todas as suas hesitações. É fácil imaginar que não tem uma boa estima: julga os outros como superiores, diante de quem é incapaz de sustentar o olhar e é paralisado pelo medo de parecer inconveniente. Nutre um profundo desprezo por esses homens, mas, no fundo, daria tudo para ser um deles. Os outros são “todos”, e ele está sozinho, isolado em sua inadequação.

Uma característica comum a quem sofre de fobia social é a de reconhecer que os seus medos são exagerados. O personagem de Memórias do Subsolo tem plena consciência do absurdo de seus temores. Considera-se um rato, mas reconhece que não há ninguém que o obrigue a pensar assim. Seu estado de alerta e de constante tensão nervosa o leva a se ofender por coisas mínimas – tudo o que o afeta é algo capital. Irá planejar vinganças contra quem esbarra nele em um bar, mas suas resoluções não duram: em pouco tempo o insulto deixa de parecer insulto, e ele próprio passa a assumir a culpa pelo que aconteceu. Sem possibilidade de consolo, tudo o que lhe resta é socar a parede com violência. É quando ele some miseravelmente em seu buraco, o seu subterrâneo, onde voltará a lembrar de todos os insultos, evocará todas as minúcias, e se atormentará com a sua própria imaginação.

Este lugar de isolamento também é o de segurança, no qual consegue se refugiar de todas as ameaças que surgem do convívio em sociedade. Quando a prostituta Lisa resolve fazer uma visita ao seu esconderijo, percebe-se a perturbação causada ao homem, afinal, tratava-se de uma invasão ao seu subterrâneo, ao lugar em que se sentia efetivamente seguro. De repente, nem mais ali, em seu ambiente, ele se sente à vontade. Sendo imprevista, a visita também não lhe deu tempo de pensar em como reagir. A reação em seu corpo não demora: o coração começa a saltar, ele deseja sair correndo imediatamente dali – sentimentos bem conhecidos de quem sofre de fobia social. Toda a opressão que sente acaba extravasada em meio a lágrimas, quando atribui a origem do seu problema aos outros: “Não me deixam… Não posso ser bom”.

O mergulho psicológico promovido por Dostoiévski revela sintomas bastante semelhantes aos que atualmente são diagnosticados clinicamente como fobia social – isto em um tempo em  que o transtorno ainda não era conhecido por um nome. Sujeitos assim não habitavam apenas a Rússia do século XIX: eles existem hoje, em número cada vez maior, não sabendo como se inserir num mundo tão fragmentado quanto exigente. Acuados,  eles também levam uma vida amarga no subsolo.

Henrique Fendrich Autor

Henrique Fendrich é jornalista, escritor e pesquisador. Mantém a “RUBEM”, única revista digital sobre crônica, e é autor dos livros “Brasília quando perto” (2013) e “Deus ainda não acabou com tudo” (2014), ambas coletâneas de crônicas. É organizador do blog literário “Vida a Sete Chaves”. Também escreve livros de história e genealogia, além de textos para os jornais “Folha do Norte” e “Evolução”, de São Bento do Sul/SC