Dostoiévski e uma fanfic inacabada?

Seria Niétotchka Niezvânova uma fanfic?

Dostoiévski: E essa fanfic?
Dostoiévski: E essa fanfic?

Todo aficionado por livros, séries e/ou filmes, em algum momento da adolescência sucumbiu aos encantos de uma “fan fiction”, as populares “fanfics”. Seja pela busca de um final alternativo, o desejo de ver uma relação fracassada na obra original se consolidar pelas Mãos de outro jovem escritor, ou simplesmente pelo prazer de viajar com os mesmos personagens por universos alternativos ao criado pelo autor. Em pouco tempo até mesmo bandas entraram na dança, em especial as “boy bands”, carregas pela imaginação de suas fãs para romances e aventuras dignos de Hollywood.

Não é possível dizer exatamente quando e como a escrita de fanfics começou, mas a moda pegou de verdade, primeiramente nos Estados Unidos e depois para o Mundo, após o final da saga Harry Potter. Leitores insatisfeitos ou infelizes com o final escolhido pela escritora J. K. Rowling tomaram as rédeas da narrativa recém finalizada para “apresentar à autora” suas próprias ideias sobre como a história do menino bruxo deveria ter terminado. E não foi apenas o final geral que foi criticado, as pequenas tramas paralelas, amorosas ou não, também tiveram sua vez com as palavras dos jovens escritores. Com todo esse contexto, é quase desnecessário explicar quão pouca credibilidade é atribuída a esse tipo de narrativa. Afinal, são adolescentes fanáticos “emprestando” a narrativa de sucesso criada por um autor adulto muito mais experiente e de carreira consolidada.

As fanfics, por mais variados que sejam seus temas e personagens, tendem a ter uma característica determinantes em comum: a vontade do público leitor. Não necessariamente resultando em um final feliz, os grandes eventos, as vontades do público leitor sempre acabam realizadas, não importando quais adversidades o autor resolva apresentar ao protagonista.

Assim como sua autoria, a própria estrutura das fanfics ajuda a minar sua credibilidade frente o público leitor mais crítico, ou de mente mais fechada a novos moldes narrativos. Entretanto, quando se encontra algo muito parecido com essa estrutura entre os escritos de um dos grandes autores do século XIX, a situação fica um tanto incerta. De forma nenhuma estou tentando comparar, de forma justa, a escrita de Dostoiévski com a desses jovens autores do século XXI. Porém acho válido questionar até que ponto a crítica dirigidas às fanfics é realmente quanto ao seu “desenvolvimento”, ou puro preconceito com sua origem autoral.

Recapitulando, fanfics são, quase que de praxe, histórias criadas para fazer acontecer algo que o público leitor deseja – seja um relacionamento, um final alternativo, um universo alternativo etc. Muitas vezes têm um pano de fundo mais trágico, no qual os momentos de realização das expectativas são pequenos escapes dentro da própria narrativa. Deslocando essa estrutura ao passado, precisamente entre os anos de 1846 e 1849, encontramos Niétotchka Niezvânova, obra de Fiódor Dostoiévski idealizada pelo autor para figurar entre seus grandes escritos ao lado de Irmãos Karamázov, Crime e Castigo e afins.

Niétotchka-NiezvânovaPara infelicidade de qualquer leitor que tenha contato com o belíssimo romance, Dostoiévski nunca chegou a concluí-lo, nem mesmo uma primeira versão. Em 1849 o autor foi preso por motivos políticos e, mesmo após sua soltura, nunca encontrou a motivação necessária para concluir o romance; a obra que deveria acompanharia Niétotchka até a maturidade, estacionou forçosamente em sua adolescência. Porém, a incompletude da obra não diminui em nada todo o seu peso humano, por assim dizer – e coloca mais um ponto em comum com as gigantescas promessas de fanfics inacabadas.

A “fanfics dostoiévskiana” consiste em: Niétotchka, uma pobre menina russa abandona para morrer é, milagrosamente, adotada por uma rica família e, após mais uma pequena série de reveses que a levam de uma família para outra, ela finalmente é de fato acolhida. Uma vez resolvido o “drama familiar” Dostoiévski introduz o ingrediente presente em, se não todas, a maioria esmagadora das fan fictions: o par romântico de Niétotchka. E faz isso da maneira mais transgressora à sociedade da época, mas mantém a construção da relação dentro dos moldes “clichês” desta mesma sociedade. Cenas de extrema humilhação que se intercalam com jogos sentimentais e alguns de esquecimento dos conflitos: é assim que nasce a ambígua relação entre Niétotchka e Kátia.

É com essa estrutura narrativa simples, e comum aos dias de hoje, que Dostoiévski desenvolve toda uma discussão aprofundada sobre o despertar e desenvolvimento da sexualidade feminina, ainda sem tornar isso o ponto central de sua narrativa. O caminhar de Niétotchka para se tornar a mulher que está destinada a ser – mais de uma vez a narrativa lhe anuncia um destino brilhante que nunca viemos a conhecer – passa por essa relação amorosa conturbada com sua única “amiga” de infância.

É nesse ponto que as estruturas se confundem. Obviamente que Niétotchka Niezvânova é uma obra de peso psicológico e social incalculável, extremamente distante de uma fanfic que busca explora universos e desenvolvimentos narrativos. Mas o consolidar dessa relação estranha que se impõe ao leitor, a estrutura simples que permite que desenvolvimento psicológicos extremamente aprofundados, o sucesso anunciado da personagem que realisticamente teria encontrado a morte no início da narrativa; esse mix intercalado com o peso que as passagens de Dostoiévski tem sobre o leitor, suas descrições físicas e psicológicas, sua colocação e movimentação dos sentimentos e a fluidez que de tudo isso. Tem-se um fabuloso jogo de dar ao leitor o que ele quer e forma simples, e mergulhar aos poucos e cada vez mais fundo no psicológico da protagonista. Há uma fina camada de leveza criada por essas pequenas “conquistas”, sobre uma base de conflitos psicológicos e sociais, chantagem, segredos e a necessidade de enfrentamento de tudo isso por parte de Niétotchka.

Infelizmente, Dostoiévski não nos permitiu concluir esse mergulho. Nos levou até a borda, de onde se começa a entender tudo que há por baixo da superfície de “a narrativa realiza tudo o que eu quero”. O ponto de virada, o início dos enfrentamentos de Niétotchka e de sua desabrochar como mulher, o que seria o fim da fanfic e o domínio completo de Dostoiévski sobre a trama, foi impedido pela política russa de 1849 para nunca mais ser retomado.

Laís Calusni Autor

Laís Calusni cursa Estudos Literários na Unicamp, e já perdeu as contas de quantas vezes ouviu "Ah, então você gosta de ler?!". Trabalha como revisora e tradutora de textos acadêmicos e para editoras. E sim... gosta de ler !