Duas referências literárias em “O quarto de Jack” (com spoilers do filme)

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Baseado em fatos reais, O quarto de Jack traz referências literárias que aprofundam o drama dos personagens

579884-635x420-1Quando o ano se inicia, é comum que os cinemas brasileiros encham suas programações com os filmes indicados ao Oscar, a mais badalada premiação da sétima arte. O burburinho nos veículos de mídia aumenta e inevitavelmente vem a vontade de ver alguns dos candidatos ao prêmio. Na safra de 2016, um dos que despontou como destaque foi O quarto de Jack, que acabou dando o (merecido) prêmio de melhor atriz a Brie Larson. Um filme sensível, tenso, que utiliza de maneira pontual, porém incisiva, duas importantes referências literárias.

Se você não quer ler spoilers sobre a primeira metade da obra, pare por aqui.

A premissa é avassaladora: uma jovem e seu filho de cinco anos vivem juntos em um quarto, aprisionados por um homem que a levou sete anos antes. Inspirada em casos reais, como o do austríaco que aprisionou a filha em um porão por 24 anos, a história se propõe a questionar o que faz com que uma pessoa em situação tão extrema continue sobrevivendo. No caso do filme, o elemento modificador é Jack, o filho que a protagonista teve a partir dos abusos do sequestrador. Trata-se de um menino esperto, curioso, que ela busca educar com zelo e alguma tentativa de normalidade. Para isso, faz inclusive com que o menino durma toda noite dentro de um guarda-roupa enquanto o abusador se encontra no quarto, impedindo todo e qualquer contato dele com o menino.

As referências literárias surgem num momento chave da história: quando o menino faz cinco anos e Joy (verdadeiro nome da jovem sequestrada) está perto de não aguentar mais a situação. Até então, ela se esforça em criar uma espécie de redoma para o menino, negando a existência do mundo que ele enxerga pela tevê. Existem apenas o quarto em que vivem, diminuto e presente, e o infinito espaço sideral. É uma forma óbvia de evitar o sofrimento para o pequeno – mas que, em uma instância mais profunda, busca também afastar o sofrimento de si mesma. Porém, com a percepção de que Jack finalmente está em condições de entender a situação em que se encontram e ajudá-la a se livrar daquilo, Joy revela a sua história, desesperadamente afirmando que já foi alguém no mundo. Com o objetivo de fazê-lo entender, compara-se a Alice, personagem de Alice no país das maravilhas, livro que lê para Jack à noite. “Sabe como a Alice não esteve sempre no país das maravilhas?”, a mãe pergunta. “Ela caiu no buraco”, ele se lembra. “Então, eu sou como a Alice, eu não estive sempre no buraco”.

A menção à queda no buraco é pungente. Conhecemos a história de Alice, sabemos que ela foi tragada para um outro mundo sem perceber. É a mesma história de Joy, que conta ao menino ter parado para ajudar um sujeito que disse estar com o cachorro doente. Ela então cai num buraco, metáfora poderosa, embora, no seu caso, não descubra um mundo amplo, interessante, por vezes divertido, mas um universo cruelmente limitado em que só existe sofrimento. Essa Alice se ressente do seu “país das maravilhas”, lugar sem qualquer maravilha, e da saída que, ao contrário da Alice do livro, ela não consegue encontrar. A menção à obra de Lewis Carroll é breve, mas potente. Faz com que compartilhemos a angústia de Joy sem qualquer dificuldade e compreendamos o que é o seu mundo.

A segunda obra surge logo em seguida, como inspiração para a fuga. Ao reconhecer o filho como aliado para a sua salvação, Joy passa a elaborar de modo febril um plano que o envolva. Relembra então ao menino o escape aventuroso de Edmond Dantès, protagonista de O conde de Monte Cristo, outra leitura que é parte do seu universo. E sentencia, apesar do pânico do garoto: “É isso que você vai fazer. (…) Dessa vez, você vai se fingir de morto”.

Para o espectador, o uso de Jack chega a soar cruel. No entanto, a situação da moça, a esse ponto, já foi estabelecida de tal forma que percebemos a dureza de criticá-la. Ela não tem escolha e, em última instância, faz o que faz pelos dois. Joy ama Jack acima de tudo e quer ter uma vida junto dele, mas fora dali. A literatura surge aqui, portanto, como fonte essencial não só de ideias relevantes, como também de esperança. Sua função antes recreativa cede espaço à função mais urgente de tábua de salvação. Ao contrário da história de Alice, que provoca em Joy apenas revolta e desespero, a de Edmond Dantès traz a possibilidade de experimentar uma nova existência, de se tornar uma nova pessoa, desejo sem dúvida imperioso para alguém diariamente posto em uma posição de medo e impotência como a protagonista.

Não avançaremos no resto da narrativa, embora caiba deixar o registro: ela vale a pena. O roteiro de O quarto de Jack, adaptado pela própria autora do livro que baseou a versão cinematográfica, é eficiente e emotivo sem nunca ser piegas. E se vale da literatura clássica de forma pontual, porém efetiva, a fim de colocar em funcionamento alguns dos momentos mais importantes da história. É por meio dos livros que Joy reconhece o momento em que entrou num mundo infinito de horror e é por meio deles também que percebe que, apesar do buraco ser fundo, sempre pode existir uma saída.