Duelo e solidão em ‘O Velho e o Mar’

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Em O velho e o Mar, o escritor Hemingway capta a teia de contradições, menos inverossímil do que desveladora, das nuances humanas e seus paradoxos intermináveis

Ernest Hemingway

Talvez a vida seja composta por alguns duelos sobre um palco extenso de solidão: eis uma das lições poéticas que a grande literatura nos ensina, como no livro O velho e o mar, de Ernest Hemingway, escrito em Cuba e publicado em 1952. 

Passados 84 dias sem apanhar sequer um único peixe, o velho Santiago se lança no mais longínquo da Corrente do Golfo na tentativa de quebrar a má sorte que o rondava, motivo pelo qual os outros pescadores já o chamavam de salao. Esta pecha de azarento provoca, igualmente, e por decisão dos pais, a troca do menino que o acompanhava para outro barco de mais resultados. Em alto-mar e sozinho, portanto, Santiago enfrenta um dos maiores desafios de sua existência, pescar um espadarte de tamanho nunca visto, metáfora rica em implicações e altamente ambígua. Nesse sentido, o livro se inscreve ao lado daquelas novelas fundamentais da literatura universal como, por exemplo, A metamorfose, de Franz Kafka, A revolução dos bichos, de George Orwell e Bartleby, de Herman Melville.

Ao tratar do caráter duplo das formas breves, o escritor e crítico Ricardo Piglia elabora um raciocínio valioso, que não apenas ajuda a compreender o conto, mas se estende a vários gêneros. Para ele, um conto sempre narra duas histórias: a forma clássica narra em primeiro plano a história A, enquanto a história B é construída em segredo nos interstícios da primeira; já a forma moderna injeta uma tensão insolúvel entre elas, descartando finais surpreendentes. Nesta última, enquadra a tendência de Hemingway ao subentendido, à alusão, à compressão da história B, de tal modo que o essencial nunca se comunica senão por um processo duro de cifragem. Na escrita de Hemingway, esta procura obsessiva pelo não-dito se mostra tão acentuada que, se lida desatentamente, a trama parecerá uma descrição trivial de pescaria. Segundo o argentino, “Hemingway põe toda sua perícia na narração hermética da história secreta. Usa com tal maestria a arte da elipse que logra fazer com que se note a ausência do outro relato” (p. 92). Acresce aqui o estilo enxuto, a descrição precisa e a concisão com que confere status universalizante aos percalços de um “simples” pescador.

A relação conflituosa entre a fragilidade humana e o vigor do mar expressa no título se multiplica ao longo do texto em algumas dualidades latentes: velhice/juventude, animal/homem, el mar/la mar, sorte/azar, etc. No nível estrutural, essa construção de vértices opostos atinge o protagonista em momentos de extrema solidão numa espécie de superposição dialógica do foco narrativo tradicional. Em outras palavras, Hemingway cria hábeis diálogos de Santiago consigo mesmo que sobrepõem a voz onisciente do narrador. Intercala os pensamentos do velho pescador à deriva, marcados por aspas, e suas falas, preconizadas por travessão, de maneira a estabelecer uma conversa entre personagem interior e personagem exterior que, muitas vezes, beira a loucura, resultado de uma longa reclusão. Já no nível espaço-temporal, é necessário sublinhar, de um lado, a oposição entre o apogeu do passado, representado pelo episódio metonímico da queda de braços, e a decadência da situação presente na qual imperam a pobreza e a falta de sorte. De outro lado, a ilha serve de contraponto ao espaço marítimo predominante, simboliza, ao mesmo tempo, o ponto de partida e chegada, a realidade escassa e já tomada pelas fábricas, mas também o lugar ameno.

Dois outros elementos interpolam o desenrolar da história e podem ser considerados alívio da tensão narrativa e válvula de escape para os sofrimentos de Santiago. O primeiro é a lembrança da costa da África e seus leões, memória de infância que acomete os sonhos e breves cochilos do personagem, o segundo vem a ser as notícias do baseball, com ênfase para o jogador do time Yankees, DiMaggio. Ambos servem de fuga dos momentos mais hostis, concatenam outros planos mais suavizados à dramaticidade do entrecho principal. Assim, temos: “depois apareceram os outros leões e o velho apoiou o queixo na madeira da proa do navio que estava ancorado ao largo, na brisa da noite, e ali ficou à espera de ver mais leões, sentindo-se feliz e confortado” (p.86) Com esse vislumbre proporcionado pela imersão onírica, portanto, o velho recupera forças.

Sobrevivência e orgulho se confundem no duelo entre polos tão carregados de sentido, ambivalência inclusive entrevista pelo próprio Santiago, ao devanear: “Talvez fosse um pecado ter matado o peixe. Suponho que sim, embora a carne fosse para me conservar a vida e para alimentar muita gente” (p.110), para, na sequência, contradize-se: “Mas você não matou o peixe apenas para conservar-se vivo e o vender para alimento […] Matou-o por orgulho e porque é um pescador. Amava o peixe quando estava vivo, afinal ainda o ama morto. Se o ama, com certeza que não foi pecado matá-lo. Ou será ainda pior?” (p.111). Assim, em síntese, Hemingway capta essa teia de contradições menos inverossímil do que desveladora das nuances humanas, seus paradoxos intermináveis.

 

Referências

HEMINGWAY, Ernest. O velho e o mar. Trad. Fernando de Castro Ferro. 10ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.

PIGLIA, Ricardo. Teses sobre o conto. In: _____. Formas breves. Trad. José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 87-92.