E não é que pintaram o Machado

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Harold Bloom considera Machado de Assis “uma espécie de milagre” – foi assim que ele o definiu em seu tratado sobre a genialidade. Para entender o espanto do renomado crítico estadunidense é preciso não esquecer o contexto político e social em que Machado viveu e escreveu, e que apesar de adverso não foi capaz de impedi-lo de equiparar-se em talento e notoriedade aos grandes mestres da literatura mundial – quase todos tendo vivido em condições bem mais confortáveis do ponto de vista histórico-cultural.

Filho de uma família pobre do Morro do Livramento, no bairro da Saúde (conhecido como Pequena África), no Rio de Janeiro do século XIX (se hoje ainda não há educação de qualidade para todos, quem dirá à época), e sendo negro (bisnetos de escravos) numa sociedade ainda oficialmente escravocrata as chances dele atingir ao patamar em que chegou eram mínimas.  Nasceu em 1839 e a “Abolição da Escravatura” só veio 49 anos depois, em 1888.  Por isso Joaquim Maria Machado de Assis tinha tudo para não ser Machado de Assis.

Contei esses fatos porque em 20 de novembro se celebrou o Dia Nacional da Consciência Negra, que marca a luta contra o preconceito racial e lembra o assassinato de Zumbi dos Palmares, em 1695, motivado por sua luta contra a escravidão dos negros no Brasil. E isso me fez lembrar um episódio, no mínimo, esdrúxulo, ocorrido há cerca de três anos. Lembram aquele comercial da Caixa Econômica Federal em que pintaram o Machado? Puseram um ator caucasiano para interpretá-lo. Não lembram? Pegou mal pra caramba, bicho. A coisa ficou preta (pra usar uma expressãozinha politicamente incorreta). O banco voltou atrás. Tirou o comercial do ar e se não me falha a memória tempos depois foi veiculada outra propaganda com Machado já com as melaninas que lhe foram negadas.

Mas o processo de embranquecimento da figura de Machado de Assis não é de agora. Bastou o homem morrer para ter início esse dilema racial. Após a sua morte, em 29 de setembro de 1908, em carta, Joaquim Nabuco clamava que o escritor era branco. Outro exemplo flagrante desse processo é o atestado de óbito de Machado de Assis. No documento, ele é tido com sendo uma pessoa de cor branca. Creio que isso seja fruto da incapacidade de se admitir que o maior escritor do Brasil seja negro.

Acho que Pelé jamais correria o risco de ser representado por um ator branco. Edson Arantes do Nascimento é rei de um esporte que nem sempre foi bem visto pela sociedade. Nos seus primórdios, futebol era coisa para marginal. E como para jogá-lo com destreza era preciso molejo de corpo, ginga, que sempre foi atribuída como sendo uma característica inata aos negros, nunca causou espanto Pelé, um homem negro, ser expert na peleja.  Já Machado foi ser rei num reino onde uns tolos acreditavam que ele não poderia reinar simplesmente pelo fato dele ser negro, uma vez que as teorias racistas em voga, entre meados do século XIX e início do século XX, que infelizmente reverberam até os nossos dias, supunham que o negro fosse adaptado para o trabalho manual e incapaz para o trabalho intelectual.

Sei que Machado de Assis era negro desde o carnaval de 1989, quando eu tinha quatro anos. Isso por conta de um sambinha-enredo da Vila Isabel, não a da Tijuca, aqui no Rio, mas a Vila Isabel, lá de Porto Alegre, que terminava com os seguintes versos: “E hoje entre os negros que mais se destacaram no país/ a Vila Isabel vem homenagear ao imortal Machado de Assis”.

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Machado de Assis nas propagandas da Caixa Econômica