É urgente sermos desobedientes

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Em seu clássico Desobediência Civil, o escritor e teórico crítico Henry D. Thoreau defende que sai mais barato sofrer a penalidade pela desobediência do que obedecer

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“Estamos nós, que vivemos no presente, condenados a nunca experimentar a autonomia, nunca pisarmos, nem que seja por um momento sequer, num pedaço de terra governado apenas pela liberdade?”, trecho de Zona autônoma temporária, de Hakim Bey.

Agora, eu quero falar com os desobedientes. Se esse termo ainda lhe parece negativo, desculpe-me, mas a intenção é justamente elogiar-vos e mostrar o seu valor. Desde cedo somos ensinados a obedecer. E desobediência sempre foi vista como patologia, como mera rebeldia, como inadequação à norma, de acordo com Foucault. Entretanto, encontramos na literatura bons exemplos de desobedientes que nos dão bons motivos para essa postura, entre eles Henry D. Thoreau, com seu clássico Desobediência Civil.

É cada vez mais estranho para nós qualquer tipo de determinismo. Toda frase que começa com “você deve ser assim porque …” soa mal aos nossos ouvidos. Devemos muito dessa mudança à chegada da ontologia sartriana – “a existência precede a essência”. A ideia de que a vontade de alguém pode prevalecer sobre a outra pessoa pela sua simples autoridade, quando ainda aparece em nosso tempo, é vista por não mais que resquício de um passado em que a autonomia se fazia desconhecida.

Mas se você desobedece simplesmente por desobedecer, você não pegou o espírito da coisa. É claro que se alguém te mandar não pular de um prédio, a melhor opção é obedecer. Falo da desobediência visando a uma obediência mais elevada. Não uma rebeldia sem causa, mas uma rebeldia com uma causa maior. Transgredir as normas sociais, os próprios paradigmas, e até mesmo a lei se for preciso – tudo para obedecer à lei da nossa consciência.

E isso não quer dizer que os outros não devem ser levados em conta em nossas decisões, muito pelo contrário. Liberdade exige responsabilidade. Se formos nos dobrar a outra pessoa, que isso seja por amor, o que “não busca causa nem fruto” (de acordo com o padre e estudioso António Vieira), jamais por dever ou autoridade.

A desobediência tem um preço. Contudo, como nos encoraja o escritor e teórico crítico Henry D. Thoreau: “Sai mais barato, em todos os sentidos, sofrer a penalidade pela desobediência do que obedecer.” Ela não é acessível apenas a um Thoreau, um Gandhi ou um Luther King, mas a cada um que é filho da liberdade e se dispõe a obedecer exclusivamente à maior lei de todas, a do amor.