Ecos de Clarice Lispector em “Quarenta Dias”, de Maria Valéria Rezende

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Uma comparação entre Clarice Lispector e Maria Valéria Resende, a freira vencedora do Jabuti 2015 com seu romance Quarenta dias

Maria Valéria Rezende

A freirinha fumante. Foi essa a imagem – fincada pela poderosíssima fotografia de divulgação acima – que minha memória guardou da escritora Maria Valéria Rezende, vencedora do Jabuti de 2015 em ficção. Uma figura intrigante, misteriosa, meio sagrada, meio mundana. Com um olhar de quem não se importa, mas que na verdade se importa pra burro. A última vez que tinha dado de cara com esse tipo de representação de um escritor foi diante de Clarice Lispector e seus intensos olhos de cigana oblíqua e dissimulada. Acontece que, para a nossa felicidade, essas duas escritoras têm muito mais em comum do que seu exterior.

A sinopse de Quarenta Dias é simples: professora aposentada que se muda para Porto Alegre por pressão da filha passa um período nas ruas à procura de Cícero Araújo, moço da sua terra que foi trabalhar na cidade e nunca mais deu notícias. Por trás dessa aparente simplicidade, no entanto, encontra-se um intrincado jogo narrativo e um mergulho profundo na psiquê dessa senhora, muito mais viva e pulsante do que imaginam os que a rodeiam.

A exploração interior é velha conhecida dos leitores de Clarice. Só para citar alguns casos, temos nos contos Amor e A imitação da rosa duas donas de casa que, a despeito de suas vidas banais, passam por pequenos momentos epifânicos em que (re)descobrem quem realmente são, seus desejos e sua potência interior. É um processo similar ao da protagonista Alice. Pressionada a se mudar para Porto Alegre a fim de assumir o papel de avó em tempo integral, ela não é vista pela filha como alguém com vontades, mas apenas como uma senhora que não tem mais o que fazer. Trata-se de uma anulação da sua individualidade, bastante reforçada em vários pontos da história. Porém, ao contrário das personagens claricianas, que negam a si próprias desde sempre num plano inconsciente e que de repente descobrem tudo o que estava escondido por debaixo dos panos, temos uma Alice que faz um esforço pensado de modo a afastar seus impulsos, buscando se convencer de que a sua acomodação seria o melhor para todos. Seria, de fato. Mas ela não consegue se conformar. Aproveita a informação do conterrâneo sumido para se dar de presente um novo propósito de vida, um objetivo, de que vai em busca com seus próprios recursos, corpo e mente.

Neste caminho, faz descobertas que a surpreendem, como a de que se pode dormir em hospitais e rodoviárias sem ser incomodada ou a de que é reconhecida pelos outros como uma idosa, pois jamais lhe cobram passagem ao entrar num ônibus. Esses pequenos momentos são partes da epifania de Alice, do seu processo de autoconhecimento. Ela vai se dando conta das coisas aos poucos, na longa penitência dos seus quarenta dias (referência clara aos quarenta dias de provação de Jesus no deserto), ao contrário das mulheres de Clarice, sempre obrigadas a engolir a experiência toda de uma vez.

RezendeApesar dessa diferença, outro ponto em comum entre algumas personagens de Clarice e a de Valéria é a necessidade de escrever como forma de dar sentido ao vivido, de passar toda a angústia vivida para uma superfície que a absorva. Comparemos, por exemplo, os dois trechos abaixo, o primeiro de Quarenta Dias e o segundo de A hora da estrela. A correlação é visível.

Ninguém vai ler o que escrevo, mas escrevo. É a única maneira de voltar inteiramente, se é que ainda dá pra fazer meia-volta-volver. Mas tento, por isto deixo quieto lá no quarto-de-hóspedes-escritório o meu dinossauro eletrônico tão bem conservadinho e quero mesmo é o manuscrito, deixar escorrer tudo direto do corpo pra caneta e pro papel. A única coisa que tenho ânimo pra fazer agora. O único jeito possível de livrar-me deles, expulsá-los do espaço que ocupam dentro de mim e recuperar minha própria presença é reduzi-los a tinta e papel e encerrá-los numa gaveta, ou tacar fogo pra sempre. Será? (p.18)

É, parece que estou mudando de modo de escrever. Mas acontece que só escrevo o que quero, não sou um profissional – e preciso falar dessa nordestina senão sufoco. Ela me acusa e o meio de me defender é escrever sobre ela. Escrevo em traços vívidos e ríspidos de pintura. Estarei lidando com fatos como se fossem as irremediáveis pedras de que falei. Embora queira que para me animar sinos badalem enquanto adivinho a realidade. (p.17)

E as semelhanças não param por aí. O modelo narrativo é um ponto forte do romance de Valéria – o que lemos é o diário da protagonista, narrado em primeira pessoa, no qual ela dialoga com a imagem da boneca Barbie que estampa a capa do caderno. Esse recurso é interessante não só por escancarar o grau de solidão de Alice (já que o único interlocutor disposto a lhe ouvir é um objeto inanimado), mas também porque há trechos em que se enxerga a óbvia verdade de que, por trás da conversa com a figura da boneca, há a tentativa de dialogar consigo mesma. Essa necessidade é revelada em diversos pontos da obra e também ecoa os textos clariciano, como se pode observar nos trechos seguintes de, respectivamente, Quarenta Dias e A paixão segundo G.H.:

Voltei, Barbie, não se faça de cansada, eu vou continuar a escrever agora mesmo que, finalmente, já estou chegando quase na beirada do buraco em que caí, e não pense em ficar de folga tão cedo. Fui só ao banheiro e aproveitei para dar uma olhada aqui nos armários da cozinha e na geladeira, prever alguma coisa pra janta. Mas agora vamos em frente e faz de conta que você está ansiosa e vai ficar indignada com o que vou lhe contar. (p. 73)

Mas é que a verdade nunca me fez sentido. A verdade não me faz sentido. É por isso que eu a temia e a temo. Desamparada, eu te entrego tudo – para que faças disso uma coisa alegre. Por te falar eu te assustarei e te perderei? Mas se eu não falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia. (p. 19)

Talvez uma das principais diferenças entre a obra de Valéria e a de Clarice é o trabalho cuidadoso da primeira ao estabelecer uma certa cor local, narrando um espaço específico de Porto Alegre, com as histórias de seus pobres, seus migrantes e da própria protagonista – rejeitada pela faxineira do prédio em que passa a morar por sua aparência “brasileirinha”. Esse trabalho coloca uma camada de crítica social dentro de uma busca universal, algo em que Clarice se mete muito pontualmente ao longo da carreira. Isso vem de um aspecto importante da biografia da autora, que viveu em meio aos pobres por diversas ocasiões, tendo inclusive auxiliado perseguidos políticos na época da ditadura. Tal vivência empírica concede uma força quase heroica a sua professora aposentada. Acompanhamos seu trajeto com interesse a fim de descobrir até que ponto ela é capaz de chegar.

O final é um dos poucos aspectos do texto que me incomodam, mas já estou conformada: numa experiência dessas, o que importa é a jornada, e não aonde ela vai chegar.