Édipo é a mãe, de Dirceu Ferreira: um livro de crônicas para rir e pensar

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Em entrevista ao Homo Literatus, o jornalista e escritor Dirceu Ferreira fala sobre humor, literatura e as mazelas do Brasil

Leila e Dirceu Ferreira
                                                                  Leila e Dirceu Ferreira

Misturar literatura e humor, com qualidade, é uma tarefa difícil, para poucos. Mais complicado ainda é produzir textos que se mantenham interessantes com o passar dos anos. A tarefa exige inteligência, um olhar aguçado para a sociedade, indivíduos, seus costumes e até mesmo para a história da humanidade.

Esses são alguns dos méritos do jornalista e escritor mineiro Dirceu Ferreira, autor de diversos livros, entre eles Édipo é a mãe, relançado em 2015 pela Sesi-SP editora, exatamente 30 anos depois de sua primeira publicação – que chegou a cinco edições. O livro apresenta um conjunto de crônicas com críticas à sociedade brasileira, em diversos âmbitos, que permanecem incrivelmente atuais mesmo após três décadas se passarem.

As crônicas de Dirceu são capazes de nos fazer rir, mas também de refletir sobre nosso comportamento ou de pessoas próximas. Édipo é a mãe é uma leitura rápida e divertida, contudo revela um autor perspicaz, como se observa nas crônicas O ex-homem do século e Tempos ainda modernos, que parodiam, respectivamente, a obra de Franz Kafka, A Metamorfose, e o filme de Charles Chaplin, Tempos modernos. O livro conta ainda com a contribuição do cartunista, chargista e jornalista Ziraldo, responsável pela ilustração da capa.

Escrevendo humor desde 1969, Dirceu foi colaborador de jornais como Estado de Minas e Folha de S.Paulo. Publicou os livros: Minhas Marílias e seus nomes de guerra; Picadinho de Humor à mineira; Inconfidências Mineiras de Humor; Mas podem me chamar de Woody Allen e Máximas do Dirceu, esse último também lançado recentemente.

Para saber mais sobre o livro Édipo é a mãe e sobre o processo de criação do escritor, confira a entrevista concedida ao Homo Literatus:

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Como funciona seu processo criativo? Como decide sobre o que escrever?

Não decido. O que faço me vem espontaneamente. Muitas vezes, quando tento forçar, programar, não dá certo. Depende do momento, do acaso, do cotidiano.

Considera seu trabalho literatura ou jornalismo?

Considero uma literatura (razoável), não tanto jornalística porque esta fica datada. Do Édipo, para publicação, eliminei alguns textos porque não gostava mais, mas não porque estivessem ultrapassados, embora entenda a força das mudanças da realidade. Em outro livro que escrevi, Máximas do Dirceu, pela Autêntica, tem lá 400 frases, várias criadas ao longo do tempo e ainda atuais.

É difícil escrever humor? Como começou a trabalhar com esse estilo?

Não tiro de letra, é preciso atenção, organização. Todos nós somos de certa forma humoristas, mas tudo já foi falado através dos tempos, e, por isto, devemos tentar ser originais.

Pensa no leitor enquanto escreve ou vai colocando as ideias no papel e decide se publica o resultado depois?

A preocupação primeira é se as ideias me agradam. Depois consulto pessoas, como minha irmã, Leila Ferreira, que é jornalista e escritora e raramente não aceito sua opinião.

Mesmo depois de 30 anos, as crônicas do livro Édipo é a Mãe continuam atuais. A que credita esse fato? A sociedade brasileira não mudou ao longo desses anos?

Acredito que é pelo fato de não me preocupar com quem faz as coisas negativas, mas com as coisas negativas em si, permanentes. A sociedade brasileira evoluiu, teve avanços tecnológicos, científicos e sociais, mas muitas mazelas não só persistem como foram agravadas.

Entre as diversas crônicas do livro, porque escolheu Édipo é a mãe para a capa e título do livro?

Eu vinha de seis anos e meio de uma análise freudiana. Descobri que era um Édipo e me rebelei duplamente contra mim mesmo, dando o nome ao texto e escolhendo o texto para dar nome ao livro.

Como surgiu a parceria com o Ziraldo, para ilustração da capa da obra?

Foi o Ziraldo que me lançou no Pasquim, como frasista, no auge do jornal, ilustrando uma página dupla. Quando parti para os textos, que resultaram no Édipo, ele não só foi à Editora Nova Fronteira e brigou para a publicação do livro, que alcançou a quinta edição, como fez a bela capa.

Qual sua principal preocupação quando está escrevendo?

Penso em agradar a mim primeiro. Depois aos leitores, principalmente aos inteligentes e sensíveis. Quando acontece isso, é muito gratificante.