Eduardo Spohr te leva de Asgard ao inferno em Paraíso Perdido

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O autor de A batalha do Apocalipse encerra a trilogia Herdeiros de Atlântida com um livro cheio de referências. Passando desde a mitologia nórdica, passando pela grega e indo ao Inferno, Paraíso Perdido liga o ser humano ao divino.

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Eduardo Spohr

Milênios de existência chegam agora à conclusão. Morre com ela um fragmento do mundo, desaparece uma parte da história. E o universo fica menor. (Pg. 490)

Último livro da trilogia Filhos do Éden, Paraíso Perdido agrega pela primeira vez ao universo angélico criado por Eduardo Spohr a mitologia nórdica, além de retomar personagens como Ablon, o protagonista de A batalha do Apocalipse, best-seller e primeiro livro do autor. Paraíso Perdido também une as duas primeiras partes da trilogia, que se inicia com Herdeiros de Atlântida, um livro que aparenta trabalhar com espiritualidade e situações mais humanas, e Anjos da morte, no qual temos um passeio pelas guerras do século XX do ponto de vista de um anjo renegado, Denyel.

Se o primeiro livro é filosófico e o segundo histórico, este terceiro se destaca por seu lado mitológico, talvez o terreno onde Eduardo Spohr se saia melhor.

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Paraíso Perdido (Verus, 2015)

Em Paraíso Perdido, temos os anjos Kaira e Urakin chegando a Asgard após caírem no rio Oceanus, um rio de propriedades místicas que conecta várias dimensões. Embora não soubessem que chegariam à dimensão dos deuses nórdicos, o percurso os trouxe até ali na busca por Denyel, o anjo com quem Kaira possuía uma ligação profunda, ainda que fosse um anjo renegado, pois este havia se “sacrificado” para que escapassem de serem mortos em uma parte anterior da missão. Se, na Terra, pouco tempo se passou, em Asgard passaram-se mais de duzentos anos, sendo que Denyel se destacou entre os Aegir, tornando-se um capitão do exército. O lugar se revela um paraíso para os anjos guerreiros, querubins como Denyel e Urakin, de forma que Denyel se recusa a voltar em um primeiro momento. Até porque não havia opções para eles, pois, para Bifrost, a ponte que liga Asgard à Terra ou qualquer outro ponto do universo, está obstruída, assim como o deus responsável, Heimdall, subjugado por Thrymr, o gigante de gelo que matou até mesmo o deus Thor. Sem Odin, Thor e o herói Siegfried, resta à rainha Sif viver a decadência de sua raça, os Aegir, contando como exército de defesa apenas com as valquírias, embora sejam guerreiras destemidas. Kaira, Urakin e Denyel se voluntariam para a missão de recuperar as armas mágicas perdidas (como o famoso Mjolnir, o martelo de Thor) e depois atacar Thrymr para devolver a Bifrost aos serviços dos Aegir, o povo de Odin.

Temos aí o plot para a primeira parte, apenas o começo desta trama cheia de conflitos, mais físicos do que psicológicos.

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(Curiosamente, enquanto lia o livro, justo nesta parte, assisti ao filme Kagemusha (A sombra de um samurai, no Brasil), de 1985, dirigido por Akira Kurosawa, como parte da “maratona Kurosawa” que venho fazendo, e isto me permitiu um insight sobre os diferentes propósitos de construção de histórias. Em síntese, todos os filmes de Kurosawa, não importa se sobre samurais, seus sonhos, histórias pós-bomba atômica ou realistas, como a vida de um professor aposentado, convergem para o ponto da decadência e do conflito psicológico, que, quase sempre, levará a loucura. Ao passo que, nos livros de Spohr, conforme proposto pelo autor e esperado pelo público, todo conflito se resolverá em batalhas, proporcionando histórias que só pausam a ação quando se prestam a trazer algum conteúdo histórico.)

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Cena de sonho em Kagemusha (A sombra de um samurai, 1980)

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A segunda parte de Paraíso Perdido apresenta a caça de Ablon, ainda sob o comando do arcanjo Miguel, a Metatron, o primeiro anjo. Diferente da saga apresentada em A batalha do Apocalipse, temos aquele que se tornaria um anjo renegado ainda fiel às ordens do arcanjo, ainda antes que qualquer reflexão sobre se as ordens divinas seriam realmente divinas, imerso no mais completo fanatismo – um cenário pertinente em tempos de fundamentalismo religioso. Aqui sim os duelos fantásticos atingem um ponto de equilíbrio que culminará, com o avanço do enredo, em várias explicações a perguntas que permaneciam abertas nos livros de Spohr – cumprindo com êxito o papel de último livro de uma saga.

Na tentativa de não dar spoilers que prejudicarão a experiência do leitor, ressalto apenas que na terceira parte temos a costura dessas duas primeiras. O autor visita um cenário nunca antes visto em seus livros, o Inferno e também o Hades, os quais, na mitologia dos livros, assim como se pode notar caso façam-se comparações entre a mitologia grega e a cristã, são espaços diferentes.

Considerações finais

Quando alguém me pergunta o que estou lendo e o livro em questão é uma obra de fantasia, passados os instantes em que conto um pouco da história à pessoa e noto a visão de assombro, decepção ou surpresa em meu interlocutor, me pergunto: por que leio fantasia? Mesmo sendo leitor de parte da obra de Joseph Campbell – cuja principal contribuição além do descobrimento da jornada do herói é, em minha opinião, o apontamento da necessidade de mitos que o ser humano possui –, às vezes ainda sou assaltado por esta pergunta.

Contudo, sempre que leio uma grande obra de fantasia, tal qual Deuses americanos, de Neil Gaiman, ou Rei Rato, do China Miéville, ou este Paraíso Perdido, de Eduardo Spohr, vejo esta pergunta respondida, desde que eu mantenha minha mente aberta para as metáforas.

As metáforas são a fantasia. São e sempre foram a literatura.

Dito isso, não poderia encerrar esta resenha sem apresentar o trecho que de maneira mais direta toca nesta questão, além de, claro, mais do que recomendar a obra.

Depois do que acontecera, era impossível não refletir sobre a natureza dos deuses e como eles eram vistos na Terra. Quem os podia julgar, afinal? No âmago de cada homem ou mulher há um gigante, ela pensou, dentro de cada ser humano há um anão ganancioso, um lobo faminto, um príncipe honrado, uma rainha nostálgica e uma guerreira impetuosa. Então, uma voz soou algures em seu espírito, declamando uma frase que ela certamente escutara, só não sabia onde, nem quem, ou o quê, a tinha pronunciado: “Todos os mundos, céus e infernos vivem eternamente dentro de nós. (pg. 166)