Em busca do forninho de Sylvia Plath – Como o mito de Plath nos faz refletir sobre nossa própria atração pela morte

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“A mitologia de Sylvia Plath faz refletir sobre os limites da admiração, da investigação e do culto à arte.”

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Sylvia Plath escreveu apenas três livros, sendo só um deles um romance, mas a lista de títulos correspondentes à pesquisa do seu nome na Amazon é gigantesca—pelo menos cinco páginas diretamente relacionadas só na seção de importados para Kindle no site brasileiro. No pai Google, então, a variedade é exorbitante, e não apenas em relação a livros: é possível encontrar desde luvas de cozinha (num infame humor negro) até bonecas de vestir baseadas na escritora, que, ao fazer um pacto com a morte, fundou uma vasta mitologia sobre a própria persona. Não é de se estranhar que a simples garota de Wellesley, Massachussets, mais tarde a típica dona de casa com dois filhos e um casamento em ruínas, mais ou menos mal enraizada nas terras inglesas depois de ter sido transplantada da confortável América, tenha despertado a criatividade de tantas pessoas nas mais diversas áreas, transmutando-se num ícone pop ao mesmo tempo em que mantém sua respeitabilidade imaculada. Quem mergulha na obra de Sylvia é encharcado instantaneamente por uma curiosidade mórbida que se deixa cativar, sem pudor, nas próprias linhas dela. “The blood jet is poetry,/There is no stopping it” (do poema Kindness).

Sendo uma dessas despudoradas declaradas, quando embarquei na viagem para Londres, tive um insight dantesco: precisava conhecer a última morada de Plath. Em 1963, durante um dos mais rigorosos invernos ingleses, em meio a uma amarga separação de Ted Hughes, um dos mais respeitados poetas ingleses do final do século XX, Sylvia se matou enfiando a cabeça no forno e deixando que uma torrente generosa de gás a asfixiasse. Deixou uma coleção de poemas que são considerados sua obra-prima e formam o póstumo Ariel, além de um romance inacabado e centenas de páginas de diários, todos publicados ou destruídos. Tinha trinta anos e estava no auge, por mais que Hughes tivesse outra e a tivesse arrasado. Há diversos textos de amigos de Plath sobre seus últimos dias, todos tentando organizar em retalhos o mapa para a resposta que jamais foi encontrada: “por quê?”. Ritualístico, lotado de pistas falsas e minúcias controversas, o suicídio deixa pensar se Sylvia queria ou não ser salva. Esse é um dos mistérios que estarão para sempre em suspenso na aura do seu nome.

Meu objetivo era encontrar-me frente a frente o seu carrasco e portal para o submundo. Queria encarar o forno, com alguma coragem espiar suas vísceras mortiças, tentar capturar qualquer resquício invisível do espectro de Sylvia. Queria tentar compreender aquela transição para a imortalidade, aquele rito multiplicador de histórias que acabou sendo a morte dela: dezenas de livros continuaram a ser escritos pelas penas mais diversas depois que a dela já não podia, e dessa maneira ela escreveu muito mais do que os três livros que constam sob sua autoria.

Luvas de cozinha com verso do poema Fever 103º
As luvas com a piada de humor negro

Não tinha, então, mergulhado tão fundo nos textos biográficos sobre ela. Quando o fiz, aprendi que Sylvia talvez tenha mesmo tecido sozinha a rede na qual se enredou e só escapou sem vida. Primeiro li A Mulher Calada, de Janet Malcolm, e mais o espectro de Plath pareceu me escapar entre os dedos; Malcolm é melhor escritora do que biógrafa, e, apesar da imparcialidade ser impossível, gostou de caprichar na distância da linha do meio, enxergando Sylvia como uma “mulher calada” que não podia responder à mitologia criada sobre ela, mesquinha e problemática, e que na verdade mal aparece no livro, sendo Malcolm a verdadeira protagonista, com sua problemática busca de biógrafa que não é mesmo muito boa no ofício. Inconformada, maravilhada com as recentes traduções brasileiras, cheguei a Ísis Americana, de Carl Rollyson, e, aí sim, consegui desvendar uma parte da complexa Sylvia, entidade literária que dominou a morte depois de entregar-se a ela. Pouco fiquei sabendo do forno; não lembro em que texto de memórias, catado depois do livro de Rollyson, descobri que era um modelo de três botões. Encontrei uma imagem na internet do que seria supostamente o cadáver de Sylvia brotando do forno, além de um fórum em que outros despudorados discutiam que o maldito apartamento fora reformado e o que era cozinha virara agora banheiro. Imaginar o altar sacrificial de Plath transformado no encaixe de uma privada me deprimiu.

O apartamento ficava em Camden, bastante longe da área de Londres na qual eu estava hospedada, e não havia ninguém que quisesse me deixar chegar lá; minha prima avisou que eu não poderia entrar na casa, que agora pertencia a alguém como qualquer outra, e, com frio e pressa porque havia reservas para outro país, eu acabei me conformando com minhas pesquisas virtuais. O fato de não haver qualquer placa dizendo que aquela fora a casa de Plath também me desanimou; a fronte do número 23 da Fitzroy Road tinha sim uma placa que homenageava um escritor, mas esse escritor era W. B. Yeats, fato que deixou a própria Sylvia encantada pela propriedade. De qualquer maneira, era óbvio que o forno não estaria mais lá, e não havia nenhum museu Sylvia Plath aos moldes do de Dickens. Eu teria de me conformar com o mistério.

Pesquisas pela internet revelaram as coisas mais bizarras: luvas de cozinha de mais de um modelo e motivo sob a influência de Plath, dezenas de ensaios fotográficos de lindas mulheres e fornos vintage, romances (não biografias) inspirados pela vida de Sylvia, bonecas de papel para vestir com forninhos ao fundo, e o ponto alto — ou talvez baixo — do absurdo: uma tábua Ouija cujo tema era Plath. Não é segredo que ela era uma grande fã de ocultismo e usou a famigerada tábua diversas vezes, tendo escrito até mesmo um poema sobre isso, mas o fato de tal produto ter realmente existido só demonstra o quanto Sylvia, com sua poesia visceral e incômoda, conseguiu tornar-se parte do imaginário popular que tanto aprecia as artes mais fáceis. Sylvia não é fácil, de maneira alguma — uma vez atraído por ela, o leitor precisa desvendá-la ao menos um pouquinho, ou se afoga.

Um ótimo presente para as crianças...ou não?
Produtos baseados na autora e no suicídio dela

Àqueles que condenam a curiosidade mórbida, a própria Sylvia parece atenuar um pouco esse desatino: ela mesma era fascinada pela morte e pelos mundos espirituais, realizando sessões espíritas e, segundo Ted Hughes, até mesmo desenvolvendo poderes psíquicos. No que talvez seja o melhor texto de memórias sobre ela, Al Alvarez relata como, nos últimos dias de sua vida, ela se jogara ao tema do suicídio e da morte que tentara evitar por tantos anos, depois de uma tentativa da qual só escapou com vida por acidente, aos 20 anos, e que gerou The Bell Jar, seu único romance, sendo editado na época. Esse encontro fúnebre, promovido por influência de Robert Lowell, poeta contemporâneo de Plath cuja coragem para abordar as próprias dores Sylvia adotou, foi responsável pelo violento jorro criativo que a fez escrever os poemas mais brilhantes de sua carreira. Enredada nessa contemplação da morte, no entanto, afogada nos fantasmas que não sabia como exorcizar, ela perdeu o controle:

 

But now, as though poetry really were a form of black magic, the figure she had invoked so often, only to dismiss triumphantly, had risen before her, dank, final and not so be denied […] Now she was shut in with them and knew she was defenceless (Mas agora, embora a poesia realmente fosse uma forma de magia negra, a figura que ela havia invocado tão frequentemente, apenas para dispensar triunfantemente, havia se erguido à sua frente, gelada, final e inegável…Agora ela estava trancada com eles(a) e sabia que estava indefesa).

A mitologia de Sylvia Plath faz refletir sobre os limites da admiração, da investigação e do culto à arte. Contradizendo toda a crítica, que busca avaliar a literatura pela literatura, evadindo do contexto pessoal do artista, Plath abertamente escreveu sobre si mesma não para si mesma, mas para o mundo. Correspondente frequente dos maiores jornais e revistas que publicavam poesia, ela teve dezenas de textos compartilhados com públicos imensos em vida, e continuou tendo em morte. Assinou contos para revistas de alta literatura e também para publicações populares, buscando o reconhecimento das massas e das elites, e por isso mesmo Carl Rollyson a compara a Ísis, entidade superior, e a Marilyn Monroe, ícone pop, por quem, aliás, Plath nutria admiração. Com seus cabelos vermelhos de Lady Lazarus, Sylvia devora homens como ar, em todos os públicos. E deixa que provem da sua morte, pois é nela que renasce, até hoje, como poetisa imortal.