Em favor do consumismo literário

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Temos de devorar o banquete literário que há diante de nós, pois o valor do conhecimento vai muito além de seu preço

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“Se somarmos muitos de nós, não vamos apenas enviar uma forte mensagem de oposição à privatização do conhecimento – vamos transformar essa privatização em algo do passado. Você vai se juntar a nós?” [Aaron Swartz, em Manifesto da Guerrilla Open Access]

Na semana passada, mais uma vez deixei que meu consumismo literário me levasse a comprar novos livros. Por curiosidade, foram eles: A Origem das Espécies, de Charles Darwin; A Utopia, de Thomas More; O Príncipe, de Maquiavel; A Terceira Onda, de Alvin Toffler. Ao contrário do que acontece após a compra de outras mercadorias, dessa vez nenhum arrependimento. Cada um deles saiu por míseros R$5,00, sendo todos eles obras clássicas pelas quais eu estaria disposto a pagar muito mais.

Provavelmente por muitos de nós já terem nascido nesse contexto de grande acesso ao conhecimento em geral, não nos damos conta do quanto esse fenômeno é novo e de um valor inestimável. As principais obras literárias, que ao longo da história ficaram confinadas às mãos de especialistas, às grandes bibliotecas, às universidades, hoje podem ser encontradas gratuitamente em domínios públicos ou por alguns trocados em um sebo de esquina. Livros que levariam meses ou até anos para serem traduzidos, transportados por navio, editados; hoje estão disponíveis em alguns dias para o mundo todo.

Eruditos de outras épocas ficariam boquiabertos com a facilidade que hoje temos para acessar o conhecimento. Bibliotecários e filólogos ficariam encantados com a riqueza dos bancos de dados disponíveis hoje. Apesar de, como afirma Pierre Lévy em Cibercultura, não haver aí a totalidade do saber, há uma universalidade própria que impressiona. Não satisfeitos ainda com a atual abertura dessas informações, militantes do copyleft ou do conhecimento aberto buscam oferecer ainda mais acesso à cultura pública, opondo-se a qualquer fechamento privativo desta.  

Mais do que um simples ponto positivo do nosso tempo, uma facilidade que vem se somar a outros prazeres da vida contemporânea, há um aspecto moral por trás de todo esse movimento. Uma sociedade que privasse um jovem de acesso a Shakespare poderia ser perdoada? Uma universidade pública que limita o acesso da população geral ao conhecimento que produz pode ser chamada de universidade? Uma editora que impede novas versões de uma obra sob alegação de direitos autorais está cumprindo seu papel? Como disse Aaron Swartz, mártir dessa causa, compartilhar “é um imperativo moral”.

O valor do conhecimento vai muito além de seu preço. Ser autor implica reconhecer que a obra não lhe pertence, mas ao seu público, e por isso exige generosidade intelectual para garantir o maior acesso possível a ela. O banquete do conhecimento está diante de nós, devoremo-lo.