Entre nós & entrelinhas: Uma pausa para a dor – Cláudia de Villar

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Queridos leitores e amigos, peço licença para vocês para neste momento expressar aqui, através das minhas palavras, algumas considerações acerca do acontecido aqui no Estado do Rio Grande do Sul, na cidade de Santa Maria. O que é a dor? Como mensurar a dor de alguém? A dor pode ser medida? Devemos comparar a nossa dor com a dor sentida pelo meu vizinho? A dor… Qual seria a dor maior? Dor de dente? Dor nas costas, dor no peito, dor moral, física ou dor da alma? Alma sente dor? Como podemos ver, o tema nos remete a vários caminhos e muitas divagações, mas não se esgota em palavras e nem em lágrimas.

Cá Entre nós, como dizer que a dor dos familiares que perderam seus entes queridos é maior que a dor daqueles que perderam seus amigos? Ser ou não ser um ser, dolorosamente, ferido na alma neste momento? Quais são as ações esperadas por aqueles que perderam pessoas importantes em suas vidas? O que dizer? O que esperar do futuro com um “buraco” aberto no peito e uma ausência, implacavelmente, surgida de repente? E, se fosse uma dor anunciada, doeria menos do que uma dor que vem sem avisar?

Será esta dor comparável com a dor de Romeu frente a sua Julieta já desfalecida e ainda bela em qual ele, com a alma dilacerada e corroída pelo sofrimento da perda eterna, decide ir com a sua amada: “(…) Recebe tu o último olhar dos meus olhos, o último abraço dos meus braços, o último beijo dos meus lábios, portas da vida que vêm selar o meu eterno contrato com a morte (…)”?

Como responder a estas questões tão íntimas se cada ser é um ser e cada dor é um sofrer? A Literatura traz na ficção fatos dolorosos ou tenta retratar a imensurável dor da perda definitiva, mas, infelizmente, não consegue, embora tente e possa (ou não) munir os indivíduos de exemplos fictícios de dores e sofrimentos, a ponto de, quando a dor verdadeira chegar, a pessoa tenha onde buscar conforto nos exemplos literários.

Não, não e não!

De que servem os exemplos nas obras neste momento? Se não há tempo e nem vento que sopre alívios e respostas para uma tragédia, anunciada.

Anunciada? Sim, anunciada. Com tantos cuidados a se tomar, como deixar passar o descaso com a vida? Como não perceber a ganância monetária tomando conta dos seres, fazendo com que a precaução e o respeito pelas criaturas ficassem para segundo plano? O valor dado ao capital foi tão grande que tomou corpo e calor na tragédia. Foi uma tragédia, implicitamente, anunciada, escondida dos frequentadores, mascarada pela promessa de uma diversão. Onde pessoas que deveriam cuidar da segurança preferiram fechar os olhos. Uma tragédia não percebida pelos jovens, mas com data ainda incerta para acontecer, mas aconteceria.

Como continuar? Por onde continuar? Devem os familiares a continuar as suas vidas ou entregarem-se como Romeu à dor e ao desespero pela falta eterna? Quem são os culpados pela dor? Há castigo ou perdão neste momento? Qual a verdade que há nesta perda coletiva? “(…) Cada um julgava saber, ele só, a inteira verdade e, contemplando os seus semelhantes, afligia-se, batia no peito, chorava e torcia as mãos. Ninguém se entendia sobre o bem e sobre o mal, nem sabia quem havia de condenar e quem se havia de absolver (…).” Este recorte literário da obra de Dostoiévski, Crime e Castigo, nos remete a uma ficção trágica repleta de dor e perdas, mas que não oferece subsídios para aplacar a dor real que dilacera os corações e que entristece o país.

Por fim, cabe cada um de nós, entender como podemos entender, comparando ou não com as nossas dores pessoais à dor sentida por cada um daqueles que ficaram a sofrer. Nas entrelinhas das nossas andanças e aprendizagens, vamos conseguindo – ou não – reunir palavras e sopros de esperança para continuarmos a nossa caminhada aqui na Terra.
Restam-nos a nós, aqui intitulados, pessoas solidárias ao fato, rezarmos e pedirmos força, luz, solução e alívio para os que choram por não terem as respostas para tamanha perda. Cada pai, mãe, irmão, parente ou amigo sente, ao seu modo, a perda individual causada em seu íntimo pela subtração ocorrida em suas vidas e, a junção da perda de cada um forma esta dor nacional, esta dor coletiva que choca e entristece a todos nós. Portanto, peço a todos uma pausa para a dor.

Por hoje, desejo luz, livros e alívio.

Obras citadas: Romeu e Julieta, Shakespeare e Crime e Castigo, Dostoiévski