Entrevista com Cristovão Tezza: “sem palavra escrita e sem leitura não há salvação”

Tezza

Por ocasião da Tarrafa Literária (que vai de 25 a 28 de setembro de 2014 – programação aqui), tivemos a oportunidade de conversar com o escritor Cristovão Tezza, considerado um dos mais importantes autores da literatura brasileira contemporânea. Com seu livro O filho eterno, venceu os mais importantes prêmios literários do país: Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa, Prêmio Bravo! Prime de Cultura, Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) e Jabuti de melhor romance, além do Prêmio São Paulo de Literatura.

Veja abaixo como foi esta conversa.

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A sociedade atual se relaciona de forma muito significativa com o capital simbólico – ler livros premiados, filmes cultuados, exposições famosas são formas de se posicionar como alguém que consome cultura. E, recentemente, você é um dos escritores mais premiados e reconhecidos. Ser premiado afeta como você vê sua obra e seu trabalho?
Cristovão: Não, de modo algum. O que os prêmios e um certo reconhecimento crítico me deram foi uma possibilidade objetiva de sobrevivência sem depender da universidade, onde fui professor por duas décadas. Num momento, me senti seguro para pedir demissão e enfrentar o mundo selvagem aqui fora. Como todo mundo, sou movido por questões práticas, e o dia a dia me consome inteiramente.

Atualmente, você é um escritor que consegue viver só de literatura no Brasil. Por que você acha que esta é uma tarefa ainda tão difícil para os escritores?
Cristovão: É uma tarefa especialmente difícil para os escritores de ficção porque a literatura hoje é um capítulo pequeno no mundo editorial. E, no Brasil, o consumo de literatura brasileira não é muito grande. Por várias razões, a literatura brasileira foi perdendo o seu leitor na passagem dos anos 1980 em diante, no mesmo passo em que, paradoxalmente, foi aumentando a base de leitores, pela urbanização crescente. Mas hoje o Brasil é cultural e economicamente muito diferente daquele da minha geração. De qualquer forma, se hoje é difícil, antes era impossível alguém viver dos livros.

Você é considerado pela crítica como um dos grandes nomes da literatura contemporânea. Para você, como é lidar com este predicado? Era algo que você almejava quando começou a escrever?
Cristovão:
Nunca pensei nisso como um objetivo. Sempre quis escrever um bom livro, uma tarefa que não tem fim. A literatura foi uma viagem pessoal que aconteceu na minha vida, uma escolha que ficou e que fui tocando meio às cegas. Hoje, não sei fazer outra coisa.

Houve um “hiato” considerável entre o romance O filho eterno, lançado em 2007, e o lançamento do  romance seguinte, O professor, em 2014. Esta pausa ajudou na construção da história de Heliseu, que gira em torno do envelhecimento e da passagem do tempo?
Cristovão: Não houve propriamente um hiato. Depois de O filho eterno, que é de 2007, publiquei sucessivamente a novela Um erro emocional (2010), o livro de contos Beatriz (2011), o ensaio autobiográfico O espírito da prosa (2012), a coletânea de crônicas Um operário em férias (2013) e o romance O professor, que saiu há poucos meses. Mas, de fato, já há alguns anos eu tinha a ideia de escrever um romance de mais fôlego sobre um velho professor que vai receber uma homenagem. A ideia foi tomando corpo na cabeça e finalmente deslanchei a narrativa nos últimos dois anos.

Por que motivos você acha que ainda não há o devido reconhecimento aos nomes brasileiros que merecem esse prestígio em outros países?
Cristovão: A presença da nossa literatura no exterior é um assunto complicado. Comecei a rever alguns lugares comuns que eu mesmo repetia sem pensar muito. Imagina-se sempre que a culpa é do isolamento da língua portuguesa, da desimportância internacional do Brasil ou mesmo da falta de políticas de incentivo à divulgação dos nossos autores no exterior. São explicações incompletas, embora cada uma tenha algum peso. Quanto ao incentivo, o projeto da Biblioteca Nacional patrocinando traduções de livros já contratados por editores estrangeiras – imitando o que se faz muito em países de Primeiro Mundo – tem sido importante no relativo aumento da nossa presença lá fora. Mas há outras variáveis. O profundo desinteresse do exterior pela nossa literatura pode ter relação simplesmente com algumas especificidades muito fortes da nossa produção, que sente dificuldades de conversar com o resto do mundo. E também, talvez, com alguns aspectos temáticos e estilísticos da linguagem literária brasileira que não encontram ressonância fora daqui. Não sei. É um tema amplo que não tenho muito claro na cabeça. Quero pensar mais e escrever sobre isso.

Na sua mesa, na Tarrafa Literária, a discussão gira em torno dos usos da Literatura. Como você vê o cenário brasileiro da Educação, que tem dificuldade crescente em formar leitores do cânone nacional?
Cristovão: A educação no Brasil não consegue sair do lugar, e tem um buraco gigantesco que é a evasão escolar do ensino médio, dos anos intermediários da formação escolar. Justamente no momento em que se forma consistentemente o leitor, na adolescência e início da juventude, a escola brasileira é uma ruína, um desastre monumental. A separação entre ensino público e privado é a máquina de um apartheid gigantesco, e começou nos anos 1970, quando a classe média brasileira em ascensão começou a tirar os filhos da escola pública. E o apartheid se inverte na ponta da pirâmide, com universidade pública melhorzinha para os ricos e a paga, horrorosa, para os pobres. Nesse panorama, a ausência da literatura brasileira na escola é o menor dos problemas.

O público adolescente vem frequentando cada vez mais eventos literários, principalmente por causa das sagas best-sellers, como Crepúsculo, Jogos Vorazes, dentre outras. Você acha que ler livros cuja qualidade literária é questionada é positivo para a formação de um público leitor?
Cristovão: Eu gosto de imaginar que leituras da juventude, por mais superficiais que sejam, acabam formando um futuro leitor. O ato da leitura sempre exige um toque de solidão que é positivo, puxa pela cabeça e provoca empatia, que é um dos fundamentos também da grande literatura. Comecei a ler por autores como Monteiro Lobato, Conan Doyle e Júlio Verne, fui adiante e não parei mais. Acho que há literatura excelente para jovens, como a saga de Harry Potter. Mas sei que é preciso mais circunstâncias para alguém se tornar de fato um leitor. Bons professores, boas conversas, boas discussões, o estímulo à curiosidade – e, também, enfrentar problemas com os quais, talvez, só a boa literatura possa lidar. É um mistério como isso acontece. Em qualquer caso, todos sabemos que sem palavra escrita e sem leitura não há salvação.

 

Cecilia Garcia Marcon Autor

Mestranda em Sociologia da Educação, formada em Letras e Linguística pela Unicamp e pós-graduada em Jornalismo pela PUC-Campinas. Publicou um conto na antologia "Sentimentos à flor da pele". É professora, jornalista, escritora e realmente acredita que o poder das palavras é o único capaz de mudar o mundo. Ama o ofício, pois é viciada em adrenalina.