Entrevista com Jeremias Soares, autor da obra “A Mão de Celina”.

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“Qualquer livro pode ser escrito. Mas não é qualquer livro que pode ser publicado”

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Jeremias Soares é gaúcho, torcedor do Sport Club Internacional e fã de histórias de terror e suspense. Em 2012 lançou seu primeiro livro, O Sobrado da Rua Velha (Ed. Multifoco) e, em 2014, publicou A Mão de Celina, pela Editora Os Dez Melhores.

Jeremias poderia ser apenas mais um novo autor em um mercado editorial abarrotado de novos autores – alguns talentosos; outros, nem tanto. Mas o que diferencia Jeremias da maioria é, além da habilidade com as palavras, sua capacidade de fazer seus livros circularem.

O Sobrado da Rua Velha já vendeu mais de 300 exemplares, e A Mão de Celina segue em ritmo de vendas ainda mais acelerado. Para um autor jovem, desprovido de pistolão, e sem dinheiro para investir em jabá, tratam-se de números expressivos.

Tive a oportunidade de conversar com Jeremias Soares, e falamos sobre mercado editorial, vendas de livros, escritores/celebridades, e até sobre o medo da morte.

Confira abaixo nosso bate-papo na íntegra:

capa-amaodecelina-020414Quem é Jeremias Soares?

Como pessoa física, um cara do bem. Fã de histórias de terror, do Sport Club Internacional e de jogos eletrônicos. Como escritor, atuo criando romances que tratam da maneira como as pessoas interagem com o desconhecido. Tento me espelhar no mestre Stephen King, buscando sempre uma característica própria. Trilogias e continuações não me agradam. Prefiro buscar uma experiência nova a cada livro.

Quando, onde, como e por que você decidiu ser escritor?

Lá em meados de 2001, na minha casa, digitando os primeiros textos no Office 2000. Decidi ser escritor por que gostava de escrever, e me achava relativamente criativo para fazer isso, nem que fosse por lazer.

Você é autor de dois livros, O Sobrado da Rua Velha (Ed. Multifoco), lançado em 2012, e A Mão de Celina (Ed. Os Dez Melhores), lançado em 2014. Ambas as obras são do gênero terror/suspense. De onde vem a predileção pelo tema?

Das leituras dos livros de Stephen King, o primeiro autor cujo trabalho li com gosto. Também tenho predileção por esse tema porque sou medroso. Inclusive fecho os olhos em filmes de terror. Creio que escrever sobre coisas que me assustam seja um viciante desafio.

O que o autor de A Mão de Celina diria ao autor de O Sobrado da Rua Velha?

Obrigado, meu chapa. Se não tivesse escrito O Sobrado da Rua Velha, eu não teria finalizado A Mão de Celina. Sua coragem está valendo a pena.

A Mão de Celina inicia com uma pergunta que, creio eu, todos nós já fizemos pelo menos uma vez: “Você tem medo da morte?” E é a morte – e o medo que sentimos dela – que permeia toda a história de Edu, Celina e Jana. Por que você decidiu abordar este tema específico em seu segundo livro? E ainda: você, Jeremias, tem medo da morte?

A morte é um tabu para a grande maioria das pessoas. Ninguém sabe o que acontece depois dela. Até quem se sente amparado pelas explicações de sua religião não imagina como as coisas ocorrem após o último suspiro. Por isso histórias de terror fazem tanto sucesso.

Em A Mão de Celina, são explorados o medo da morte, o luto e o flerte com o suicídio. Para quem gosta de encarar um tabu de frente, o livro é uma boa pedida.

E eu morro de medo de morrer. Queria ter a garantia de que a minha consciência sobreviverá após a morte. Caso os eventos de A Mão de Celina correspondam à realidade, morrerei aliviado daqui a uns cem anos (risos).

Como está sendo a recepção do público em relação à sua obra, A Mão de Celina?

O livro vem despertando a curiosidade das pessoas. Isso é bom, pois gera o interesse do público em geral. Analisando mais a fundo, observo que os leitores felizmente encontraram em A Mão de Celina uma história instigante. Percebo que também foram tocados pela parte dramática do romance. Para um autor que chega ao seu segundo livro, são reações empolgantes.

Como você cria seus personagens? Até que ponto sua vida pessoal e sua personalidade influenciam nesta criação?

Após pensar em uma história, procuro criar personagens baseados em pessoas reais, com dilemas e fraquezas. Para isso, observo amigos, conhecidos e parentes. Então, os personagens são criados. A próxima etapa é me colocar no lugar de um dos protagonistas e moldá-lo de acordo com a história. Por isso, às vezes é possível encontrar as minhas preferências nos gostos dos personagens. Mas confesso que até hoje não usei minha vida pessoal como inspiração. Talvez a história que suceda A Mão de Celina tenha um pouco de mim, mas ainda é cedo para falar.

Quais são os seus objetivos enquanto escritor?

Criar histórias que despertem nos leitores experiências diferentes e fascinantes. Que elas resultem em livros capazes de assustar e emocionar. Quero cultivar quem me acompanha desde O Sobrado da Rua Velha e, ao mesmo tempo, atrair o interesse de mais pessoas. Pretendo conquistar isso aprimorando meu trabalho; amadurecendo os meus livros de acordo com a minha própria maturidade.

Sabemos que uma das maiores dificuldades encontradas pelos novos escritores brasileiros é quebrar o preconceito que existe em torno de livros nacionais, e efetivamente realizar a venda de sua obra. Seu primeiro livro, O Sobrado da Rua Velha, já vendeu mais de 300 exemplares, e A Mão de Celina segue no mesmo ritmo. Tratam-se de números expressivos para um novo autor. A que você atribui esta vendagem significativa?

Atribuo isso a alguns fatores igualmente relevantes. Primeiro, acredito que os temas escolhidos para ambos os livros são instigantes. Se você quer gerar interesse pela sua obra, suscite a curiosidade do leitor já na sinopse da história. Mas é claro que isso não adiantará nada se a sua divulgação não for boa. Em O Sobrado da Rua Velha, publicado pela Editora Multifoco, corri atrás de jornais e blogs que divulgaram o livro. Enviei exemplares para resenha, criei vídeos de divulgação, joguei muito conteúdo no Facebook e coloquei exemplares em feiras literárias da região. Contei também com pessoas boas de venda, que me ajudaram a distribuir os exemplares.

Em A Mão de Celina, a Editora Os Dez Melhores comanda a divulgação, o que me deixa muito tranquilo. Eles fazem toda essa parte de parcerias com blogs e divulgação. Mas sigo contando com o Facebook e com pessoas que me ajudam a vender.

Muitos autores, consagrados ou não, estão fazendo o caminho de volta, deixando suas editoras para lançar seus livros de forma 100% independente, isto é: os escritores estão passando a cuidar não somente da criação do texto em si, mas também da diagramação, impressão, comercialização, distribuição e divulgação de seus livros. O que você pensa sobre esta questão? Em sua opinião, a literatura ganha ou perde com esta nova postura dos escritores nacionais?

Não tenho uma opinião conclusiva sobre o assunto. Há vantagens em cada modalidade de publicação; entretanto, a modalidade 100% independente dá ao escritor liberdade para trabalhar sobre seu livro, tanto artística quanto comercialmente. Porém, é importante descobrir se o escritor é capaz de explorar essa liberdade.

Você lançou A Mão de Celina durante a Feira do Livro de Canoas/RS, e recentemente participou também da Feira do Livro de Porto Alegre/RS. Como você vê o espaço destinado aos novos autores em eventos literários de grande envergadura?

Vejo espaços disponíveis em ambos os eventos. Existem associações literárias, participantes das feiras, que permitem a novos autores colocarem os seus livros nas respectivas bancas, mediante consignação. Estas mesmas entidades fazem a intermediação da participação de autores em sessões de autógrafos, mesmo que não sejam associados. Portanto, há o espaço através destas associações. Acredito que, diante das leis do mercado, temos ao nosso dispor uma boa vitrine.

Por que você escreve? A literatura, para você, é lazer ou dever?

Escrevo pela necessidade de compartilhar as ideias que saltitam pela minha cabeça. Elas insistem em ganhar o mundo. A literatura, para mim, é lazer e dever. A escrita precisa me divertir. Quando passa a ser exclusivamente dever, deixa de fluir. Mesmo que procure escrever com disciplina, preciso me sentir atraído para prosseguir diariamente.

Para você, literatura é mais transpiração do que inspiração? Por quê?

É um pouco de cada. No meu caso, o que gera a transpiração é a inspiração.

Você escreve para se explicar ou para se entender?

Para me entender, pois cada capítulo escrito faz com que eu descubra um pouco mais sobre eu mesmo. Alguns dos meus grandes dilemas foram postos nos dois livros que escrevi. Deverei colocar outros nos próximos. Gosto de “ouvir” o que os meus personagens têm a dizer sobre as minhas dúvidas. A arte da escrita me faz refletir e atingir conclusões que não atingiria somente com os meus pensamentos.

Houve um tempo em que a imagem do escritor não era tão valorizada quanto nos dias de hoje. Antes das redes sociais, poucos leitores conheciam o rosto do autor por trás dos livros, e a maioria dos escritores vivia no anonimato. Isto mudou, e atualmente temos escritores circulando pelo hall da fama, inclusive sendo reconhecidos nas ruas por fãs, que lhes pedem autógrafos como antigamente acontecia apenas com atores e cantores consagrados.

Para você, esta exploração da imagem do escritor é benéfica ou maléfica para a literatura?

Depende do caso. Se pensarmos que o leitor gosta de ter contato com o seu escritor favorito, concluímos que as redes sociais são fantásticas para a literatura. Através de um Facebook ou Twitter da vida, você pode interagir com o autor através de um único clique. Incrível! Por outro lado, essa exposição tira um pouco do romantismo dos livros. Vou explicar: os primeiros livros de Stephen King que li eram velhos e amarelados exemplares de bibliotecas públicas. Não havia internet para saber que ele era um cara pop. Resultado: eu acabava imerso por aquele ar de mistério. Julgava os livros e o autor tão assombrados quanto suas histórias. Eu pensava assim: “Aquele exemplar carcomido de O Iluminado não é um produto comercial, mas sim algo colocado na prateleira para assombrar os desavisados”. Olha que loucura! Depois que comecei a pesquisar a fundo o indivíduo King, passei a temer um pouco menos as suas histórias – por mais que seguisse viciado nelas. Toda esta explicação serve para o seguinte motivo: como um autor que circula pelo hall da fama vai conseguir sustentar o ar de mistério que os escritores de antigamente conseguiam? Um sujeito que adquirir o meu livro pode descobrir boa parte da minha vida através do Facebook e em menos de cinco minutos. Será que ele vai ter o mesmo medo dos meus livros?

É algo a se pensar, ainda que estejamos em um caminho sem volta. A exploração da imagem do autor é inevitável. A menos que os escritores comecem a esconder seus rostos e usar somente pseudônimos.

Como você vê o mercado editorial para o novo autor? Em sua opinião, ele caminha para frente ou para trás?

Vejo novas oportunidades despontarem em todos os cantos. O mercado vem caminhando para frente. No entanto, os escritores não devem se deixar seduzir por ofertas fáceis. A publicação de um livro deve ser realizada da maneira mais criteriosa possível. Antes investir e publicar algo caprichado do que jogar para o público um livro de qualquer jeito.

Você possui alguma rotina específica no momento de escrever? Se sim, qual/quais?

A rotina é sempre escrever conectado à internet, para realizar pesquisas complementares. E de preferência no silêncio absoluto.

Você costuma ter ideias para escrever em lugares inapropriados, como na fila do banco ou na cadeira do dentista? Caso sim, o que faz para não perder a ideia que lhe surgiu?

Sim, algumas vezes as ideias surgem em locais inesperados. Então eu pego o celular imediatamente e gravo um arquivo de voz, registrando a ideia. Se não posso falar no momento, escrevo e mando por WhatsApp para o número de alguma pessoa conhecida.

Na última década, podemos afirmar que a literatura democratizou-se, permitindo que mais pessoas publicassem seu primeiro livro. Se por um lado esta mudança no cenário editorial foi positiva, já que permitiu que escritores talentosos emergissem, por outro também resultou no lançamento de um grande número de livros sem qualquer aprimoramento, sem qualquer preparação ou profissionalismo.

Para você, quais as principais vantagens e desvantagens desta abertura do mercado editorial para os novos autores?

Em minha opinião, qualquer livro pode ser escrito. Por outro lado, não é qualquer livro que pode ser publicado. Acho que todo o trabalho literário, antes de ser lançado, deve passar por uma série de etapas. Primeiro, deve ser avaliado por uma editora ou por algum profissional da área. Segundo, deve receber um tratamento editorial. Pelo menos uma revisão gramatical.

Este excesso de facilidades deixa o mercado saturado. Tirando os autores consagrados, todos os outros estão perdidos pela internet, em redes sociais e blogs. Vendo um livro pela capa, não tem como saber se ali está o trabalho de alguém que fez tudo certinho, ou de um escritor que queria publicar o seu livro de qualquer maneira. Assim, fica mais difícil para um autor verdadeiramente sério e talentoso se destacar.

Estas facilidades também fazem com que um autor talentoso, porém afoito, acabe queimando o seu filme, levando ao público um livro sem o acabamento ideal.

A internet promoveu uma verdadeira revolução na maneira como vivemos e nos relacionamos. Hoje, um autor pode saber em tempo real a opinião do público sobre seu texto – e os leitores parecem cada vez mais opinativos e exigentes.

Quando está escrevendo, você procura avaliar o que os leitores pensarão sobre seu texto, quando o publicar? Caso sim, esta avaliação já fez com que você mudasse a temática ou o teor de um determinado texto, por exemplo?

Procuro pensar sobre isso antes de começar a escrever. Quando a ideia de um livro amadurece, eu tenho que gostar dela em primeiro lugar. Depois medito a respeito da aceitação que este eventual livro poderá obter. Nunca aconteceu de eu mudar o teor do que escrevi por causa de opiniões em redes sociais. Mas não digo que isso jamais vai acontecer. Simplesmente ainda não houve uma oportunidade para julgar.

Qual a sua opinião sobre prêmios literários, como o Prêmio Jabuti, o Prêmio São Paulo de Literatura, e o Prêmio Portugal Telecom de Literatura?

Existem várias maneiras de avaliar estes prêmios e os critérios utilizados pelos jurados. Eu prefiro avaliá-los pela importância e respeito adquiridos. Qualquer autor ficaria feliz em conquistar um destes prêmios. Seria mais uma maneira de ver o seu trabalho literário reconhecido.

Dá para viver de literatura no Brasil?

Muitas pessoas vivem de literatura no Brasil. Não é o meu caso (risos). Eu acho que é possível, sim, mas somente depois de percorrer um grande percurso.

Qual a sua opinião sobre a Academia Brasileira de Letras?

Tirando algumas abominações, como uma premiação dada ao Ronaldinho Gaúcho, a ABL é uma instituição que possui uma grande história no Brasil. Deve ser respeitada por tudo o que representa para os nomes da nossa literatura.

E para finalizar, quais são teus planos para o futuro, Jeremias?

Começar a escrever o meu quarto livro e revisar novamente o terceiro. Também tenho a ideia de escrever alguns contos e incrementar o meu blog. Enquanto isso, sigo me dedicando à comercialização e divulgação de A Mão de Celina.

Bate-Bola Literário (em uma palavra, defina):

  • Stephen King: Mestre
  • Paulo Coelho: Raulzito
  • Edgar Allan Poe: Professor
  • Dan Brown: Polêmica
  • José Saramago: Monstro
  • Raphael Montes: Crime
  • Machado de Assis: Craque
  • André Vianco: Vampiros
  • Jorge Amado: Tieta
  • Clara Averbuck: Talentosa