Entrevista com Leonardo Antunes, tradutor de Édipo Tirano

Leonardo Antunes, tradutor de Édipo Tirano, fala sobre processo de tradução e sobre as peripécias da sua profissão

“Inteligente, astuto, despido de preconceitos, apesar de uma origem obscura, segue em frente por seu caminho, não só destruindo quem se lhe opõe como também recusando-se a reconhecer suas culpas. As coisas acontecem naturalmente, mas aquele que tudo adivinha só compreende seus erros quando já é tarde demais. Se seu pai ainda estivesse vivo, as coisas teriam sido diferentes, mas a mãe sempre achava que tudo que fazia era bem feito.”

É assim que Umberto Eco extrai a trama essencial de Édipo Tirano de Sófocles em um jogo de palavras n’O segundo diário mínimo e é assim que começo minha entrevista com Leonardo Antunes, poeta, tradutor e professor de Língua e Literatura Grega na UFRGS, que acaba de lançar sua tradução de Édipo Tirano (Todavia).

 

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MÁRIO:Boa tarde, Leonardo! Em primeiro lugar eu gostaria de saber o que te levou para a área de estudos clássicos.

LEONARDO: Boa tarde, Mário. Obrigado pelo convite para falar um pouco sobre a tradução do Édipo e sobre como cheguei até aqui.

Pois bem. Eu comecei o curso de Letras na USP em 2001. À época, minha intenção era a de cursar o Bacharelado em Inglês, para trabalhar como tradutor/professor. Esse era o plano do ponto de vista racional. Queria ter um ganha-pão em uma área próxima à de minha paixão, que sempre foi a escrita. Sabia que seria difícil viver como escritor, mas nunca vi isso como um problema. Pelo contrário, sempre percebi que havia muitos caminhos que poderiam contribuir para minha formação como escritor ao mesmo tempo em que me dariam algum sustento.

Enfim, essa foi a lógica para entrar em Letras. Pensava em fazer Inglês porque era a língua estrangeira que eu conhecia, cuja literatura também me fascinava. Entretanto, como você bem sabe, o primeiro ano de Letras na USP é comum a todos. Nesse ano, tive “Introdução aos Estudos Clássicos” com o José Eduardo Lohner e com a Adriane da Silva Duarte. Eu e meu amigo Antonio Araújo (colega de graduação e uma das influências mais importantes que tive naquele tempo) brincávamos com a ideia de como seria maravilhoso aprender Grego Antigo, de como nos sentiríamos elegantes. Foi assim – meio que na brincadeira, por um motivo meio besta e apesar da nota baixíssima que tive na primeira prova – que eu fui me apaixonando pelo Grego.

Quando dei a notícia à minha família, fui deserdado pela segunda vez. A primeira havia sido quando decidi fazer Letras. Meu pai me disse que, se queria fazer Letras, que passasse na USP, pois não pagaria sequer a inscrição para outro vestibular. Enfim, dei sorte e acabei passando. Quando decidi pelo Grego, foi outra comoção. Assim como ele achava que eu tinha ido para Letras porque estava com preguiça de estudar para entrar em Jornalismo, ele também achou que estava indo para o Grego porque estava fazendo corpo mole para tentar o Inglês (que era bem mais concorrido).

Claro, depois ele viu que não era o caso nem de uma coisa nem de outra, e virou defensor da causa, percebendo que meu cálculo de buscar uma carreira acadêmica numa área menos explorada no Brasil poderia dar em boa coisa. Hoje, só posso agradecê-lo por todo o apoio, emocional e financeiro, que ele me deu durante toda a minha formação.

MÁRIO: Em Por que ler os clássicos Calvino diz que “os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: “Estou relendo … ” e nunca “Estou lendo …”. Aqui ele usa um jogo de palavras deixando implícita a acumulação de leituras críticas, mas você acredita que podemos usar esse raciocínio e afirmar que um clássico é um livro que sempre está sendo retraduzido ou adaptado? Se sim, por que existe uma miríade de textos ditos clássicos que não foram traduzidos para o português?

LEONARDO: Poxa vida. Você começou com uma pergunta gentil, para me deixar confortável, e agora já vem me jogar num mato sem cachorro. Que situação! Mas, enfim, vamos lá.

Essa questão dos clássicos – e do cânone – é bem cara a mim. Venho pensando nela bastante e, a meu ver, é algo que não pode ser compreendido isoladamente. A questão dos clássicos só adquire algum grau de clareza quando observada em conjunto com as outras grandes questões da Estética, com suas ramificações e articulações naturais para dentro de outras áreas do conhecimento.

Por que digo isso? Digo isso porque eu me filio a uma corrente de pensamento, que vem desde Hutcheson e Hume, segundo a qual a beleza não é um atributo inerente aos objetos, mas um juízo de valor que fazemos deles. Como Eco (e antes dele, com suas próprias idiossincrasias, Hegel e Heidegger), entendo que a beleza é algo que varia de acordo com cada época. Além disso, seguindo Adorno, compreendo que o prestígio das diversas formas de arte passa por interesses e pressões de classe – com a necessária ressalva freudiana de que isso muitas vezes pode se dar de modo inconsciente. Finalmente, apoiando-me em Jauss, entendo que o cânone não abarca obras de valores universais – nem de beleza transcendental, nem de verdade imutável ou qualquer outro tipo de ufanismo – mas sim reflete um passado de recepções que modificam os significados possíveis e as possíveis experiências estéticas que teremos com essas obras.

Faço questão de dizer “recepções” porque a história da recepção de uma obra é sempre plural. Como Even-Zohar aponta em sua teoria de Polissistemas, uma mesma obra pode ser recebida de formas muito distintas num país e noutro. Cada sistema literário vai buscar nela aquilo de que precisa (o que se dá de modo ainda mais eloquente nas traduções). Além disso, o prestígio, o interesse e o significado atribuídos a uma mesma obra pode variar enormemente com o tempo.

Como exemplo, posso citar as Anacreônticas. A coleção dos poemas anacreônticos, perdida em um tomo ignorado por pelo menos cinco séculos, foi reintroduzida no mundo europeu a partir da edição de 1554 de Henricus Stephanus (Henri Estienne), cuja fonte foi um único manuscrito do corpus, conservado como um apêndice ao codex da Antologia Palatina. À época, o editor foi louvado por ter redescoberto os poemas perdidos de Anacreonte. Houve um interesse crescente nesses poemas, que culminou, no século XIX, em traduções belíssimas de Byron, Almeida Garret, António Feliciano de Castilho, entre outros. Mais tarde, contudo, foram descobertos os reais fragmentos de Anacreonte e, pelo estudo do estilo e do vocabulário, percebeu-se que as Anacreônticas não poderiam, de modo algum, ser do poeta de Teos, mas sim poemas anônimos escritos entre 100 e 600 depois de Cristo. Com isso (mas não só por isso), o interesse no corpus diminuiu enormemente.

Édipo Tirano (Todavia)

Enfim, há diversos jogos de poder na determinação do cânone, na atribuição da alcunha de clássico a alguma obra. Há também muitos processos subjetivos no reforço ou resgate a determinado autor, da mesma forma como há muito em jogo também quando queremos relegar alguém ao esquecimento. Por exemplo, Haroldo de Campos resgatou Odorico Mendes do esquecimento, para usá-lo como uma espécie de figura inaugural para o procedimento criativo que ele queria defender para a tradução. Porém, o mesmo Haroldo de Campos tentou relegar Carlos Alberto Nunes ao esquecimento, pois o tradutor paranaense não se adequava às suas noções de transcriação.

Para terminar, então, e tentando dar uma resposta à parte final de sua pergunta, há muito que não foi traduzido ainda porque não serviu ao interesse de ninguém. As obras muito traduzidas, por outro lado, acabam recebendo mais traduções porque elas já se configuraram, por suas recepções, como pontos de inflexão dentro de nossa cultura: a elas atribuímos determinados sentidos e delas esses sentidos dependem para serem aplicados a outras coisas em nossas vidas. Acho que o Édipo é bem emblemático nesse sentido.

MÁRIO: Haroldo de Campos, poeta, tradutor e amigo do supracitado Umberto de Bologna, trouxe para nós o conceito poundiano do make it new e cunhou o termo “transcriação”. Eu noto que você também usa um termo parecido, “recriação radical” que implica em um produto diferente das traduções acadêmicas, que são mais literais. Qual é a influência de Haroldo no seu projeto tradutológico?

LEONARDO: A influência, como você mesmo notou, é enorme. Do ponto de vista teórico, no campo da tradução literária brasileira, não há figura mais marcante do que Haroldo de Campos. Ele é uma referência necessária, seja para se filiar aos caminhos propostos por ele, seja para criticá-los na busca por outros. Acho, inclusive, que Haroldo alcança muito além de Pound pelo tanto que é possível sobrepor as ideias do Movimento Antropofágico a conceitos como “vampirização”, “transluciferação” etc. É um jeito de agir que me agrada muito, porque não tem medo de ser subjetivo, de ser parcial, de “sujar as mãos”.

Nesse sentido, eu me filio também à noção de “clássicos pelas beiras”, encontrada em um texto homônimo que fecha o livro “A Musa difusa”, de meu ex-orientador, André Malta. Seguindo o princípio, acredito que não devemos ter medo de olhar para os clássicos e trabalhar com eles a partir de nossa própria perspectiva periférica, a partir de um olhar que não se esquiva de ser nosso.

Isso é algo que tem mudado um pouco nos Estudos Clássicos no Brasil, mas que ainda recebe olhares derrisórios por parte de alguns. Acho que há validade em todas as propostas de tradução existentes hoje. Cada uma nos permite um ângulo de visão diferente. As várias traduções de uma mesma obra, a meu ver, não se anulam em prol de uma que saia vencedora de algum embate, mas, sim, se complementam numa teia de relações que tecem entre si, entre o texto de partida, e entre suas muitas recepções.

Por isso, fico aborrecido quando existe a defesa de um único tipo de prática tradutória, como se ela fosse a correta e a única válida. Em especial, isso me incomoda na defesa da tradução literal como único modo de fazer pesquisa “séria”. Para começo de conversa, nenhuma tradução é realmente literal. Em toda tradução há escolhas, há interpretação, há pressões histórico-sociais que nos levam a receber o texto de uma forma ou de outra.

Enfim, acho que a tradução literal é uma ferramenta importante, da qual eu também faço uso muitas vezes, mas que não pode ser tomada como um mecanismo isento ou mesmo mais preciso do que a tradução poética. Como exemplo, cito o artigo “Traduções em prosa da Odisseia de Homero: exemplos e problemas” (Nuntius Antiquus, v. X, n. 1, 2014), em que André Malta analisa passagens de diversas traduções da Odisseia em prosa e mostra como as traduções literais estão tão sujeitas ao erro como quaisquer outras.

MÁRIO: Ainda em relação ao projeto, como é a sua práxis tradutológica? Quais as maiores dificuldades em verter e metrificar um texto tão antigo?

LEONARDO: Eu adoto procedimentos variados. Para traduzir Anacreonte e as Anacreônticas, por exemplo, eu usei tanto recriações rítmicas que buscam analogias formais com o Grego, como metros vernáculos de extensão semelhante. No momento, estou traduzindo a Ilíada e fazendo uso de dois decassílabos para verter cada hexâmetro de Homero, mas traduzi todos os Hinos Homéricos usando hexâmetros dactílicos nos moldes de Carlos Alberto Nunes. No Édipo Tirano, usei tanto de procedimentos radicais de correspondência rítmica (nos coros) como metros mais afeitos à tradição lusófona (nas falas).

Enfim, cada texto tem seus próprios desafios. Gosto de experimentar soluções diferentes.

MÁRIO: Em Tradução, ato desmedido Boris Schnaiderman diz que: “Não tenhamos dúvida: qualquer compromisso de traduzir um grande escritor é ato de soberba, […] Falando com franqueza, quem sou eu para traduzir um Tolstói, um Dostoiévski? No entanto, é uma exorbitância que eu tenho de assumir, quem puder que o faça melhor.” Além de a história de Édipo ter influenciado autores como Sigmund Freud e Levy- Strauss, a Antígona é até hoje uma leitura obrigatória no mundo jurídico. Qual é a sensação ao traduzir um material e autor dessa importância?

LEONARDO: Concordo com Boris Schnaiderman, mas tomo o problema dele por outra ótica: quem está autorizado a traduzir o cânone? Conheço muita gente que tem traduções na gaveta e não consegue editora porque não dispõe de capital simbólico para se autorizar e fazer valer sua tradução. A construção da carreira de um tradutor, assim como a de um artista, tem disso. Quantos artistas virtuosíssimos não estão passando fome hoje? Com os tradutores não é diferente. Muitos não conseguem publicar, outros tantos aceitam migalhas em troca de seus textos, um ou outro adquire renome, e o mundo segue em frente.

As razões pelas quais isso acontece, a meu ver, passam por toda a problemática a que me referi na questão sobre o cânone. Mas acho que hoje há um pouco menos de desigualdade nisso. A internet permite que uma quantidade muito maior de pessoas participe como atores na criação de arte. No mesmo movimento, também permite que cada um encontre nichos muito específicos, que haja apreciação de uma pluralidade de obras em detrimento de algumas poucas postas em pedestal. A Ilíada concorre ao mesmo tempo por atenção com Harry Potter e com fanfics das mais variadas coisas. É evidente que a atribuição de valor a essas coisas, dentro de um sistema literário, é variada, mas me parece que há mais liberdade.

Dito isso tudo, ao traduzir um poeta canônico como Sófocles, eu me sinto ao mesmo tempo inserido numa história de recepções, que vem desde Aristóteles, e profundamente atrelado a meu próprio corpo, à minha classe social, ao meu tempo, às experiências que tive e que definiram quem eu sou, o que eu penso, o que eu considero belo.

Traduzir o Édipo é um movimento que poderia enxergar, na linha de Schnaiderman, como uma tentativa de autoelevação da minha poética a um patamar canonizante. Porém, esse lugar de elevação é constituído, em sua materialidade, numa trajetória de alguém que nasceu homem, branco, classe média, que teve auxílio paterno para inciar seus estudos, recebeu bolsa do governo para completá-los, e que agora é funcionário custeado pelo estado para ensinar língua e literatura grega, para pesquisar e difundir o resultado dessa pesquisa.

Enfim, retomo a pergunta: quem está autorizado a traduzir o cânone? Creio que estou, mas gosto de lembrar-me continuamente da anatomia dessa autorização. Procuro cumprir minha função com zelo e dentro do melhor da minha capacidade, confiando que a soberba, a meu ver, seria um caminho de rasura da realidade em prol de uma narrativa meritocrática simplificadora.

MÁRIO: Eu noto uma tendência recente de se adotar o dodecassílabo tanto nas traduções do Pentâmetro Iâmbico, por exemplo nas traduções de Shakespeare por Lawrence Flores Pereira. A que você atribui esse fenômeno? Também percebemos a influência das versões latinas de Sêneca de peças gregas no teatro Elisabetano, existe alguma relação do seu projeto tradutológico com o do Lawrence?

LEONARDO: Eu e o Lawrence temos um grande amigo em comum, o José Francisco Botelho, também exímio tradutor de Shakespeare e que também se aventura nos dodecassílabos. Vim a conhecer o trabalho do Lawrence através do Chico, mas, quando isso ocorreu, eu já havia traduzido alguns sonetos de Shakespeare em dodecassílabos. Também vi traduções do Emmanuel Santiago, para sonetos de Shakespeare, em dodecassílabos. Acho que é um daqueles casos de várias pessoas chegarem, em lugares diferentes, a conclusões semelhantes.

Claro, é uma tendência compreensível, principalmente ao traduzir do Inglês: o dodecassílabo permite mais margem de manobra, tem mais espaço que o decassílabo. Já traduzi octossílabos do Byron em dodecassílabos. Traduzir num verso mais longo do que o do texto de partida permite que você possa dar conta do conteúdo semântico sem comprometer o trabalho estético, e vice-versa. Perde-se em concisão, mas há espaço para ganhar-se em outros quesitos. Enfim, escolhas…

MÁRIO: Qual o motivo para adotar a tradução literal do título ao invés da versão latina Édipo Rei (Oedipus Rex)? Seria uma forma de apontar para as leituras de Vernant e Foucault?

LEONARDO: Esse foi um problema com que me debati desde o início da tradução. Reproduzo o que digo no livro: “A palavra “tirano”, em português, não tem a mesma conotação da palavra τύραννος em grego: τύραννος é aquele que sobe ao poder não por voto nem por sucessão hereditária legítima, mas por um golpe. Se será benevolente ou terrível, é irrelevante a seu estatuto de τύραννος.

A opção canônica é traduzir τύραννος por rei, e o nome da peça, portanto, por Édipo Rei, mas isso apaga um problema inerente à própria peça e discutido nela: o do estatuto do poder de Édipo, que é chamado por vários títulos pelas personagens, dependendo do momento e da afinidade com o protagonista. Édipo só será chamado de βασιλεύς (“rei”) pelo coro depois que ele é revelado ser filho de Laio.

Outra opção, que cogitei inicialmente, era a de esquivar-me do problema, chamando-a apenas de Édipo, e, ao longo da peça, traduzindo τύραννος por “soberano”, “monarca” ou algo assim mais neutro. Porém, isso também apaga o caráter precário do poder de Édipo, mantido não por prerrogativas legais, mas por força de sua inteligência.

Depois de toda essa volta pelas possibilidades, decidi que era melhor manter “tirano” simplesmente, que, se não tem de imediato a acepção ideal, ao menos chama atenção ao problema do que seja um tirano. No livro, isso se resolve de modo mais ou menos fácil com esta nota. Numa encenação, talvez se pudesse projetar a nota antes do início ou incluí-la no livreto a ser entregue à plateia.”

MÁRIO: Em sua opinião, o que torna o Édipo tão especial, ou usando termos aristotélicos, o que faz o texto ter um potencial catártico que o mantém atual?

LEONARDO: Acho que sua pergunta já aponta para uma resposta. Em grande parte, o Édipo é especial porque Aristóteles nos disse que ele era. Mais do que isso, Aristóteles criou toda uma teoria sobre o trágico para mostrar como o Édipo era a melhor peça do mundo. Sobre esses e outros problemas, recomendo muito o livro da Florence Dupont, Aristóteles ou o vampiro do teatro ocidental, recentemente traduzido por um time de queridos colegas e amigos, professores e alunos da UFPR.

MÁRIO: A tradução dos Rubaiyat de Omar Khayyam por Edward FitzGerald adquiriu um status quase de obra independente na língua inglesa, existem traduções para o português que atingiram esse status?

LEONARDO: Adotando uma concepção abrangente de tradução como recepção, e seguindo a ideia de Bloom de que toda criação literária é uma leitura equivocada bem-sucedida de textos anteriores, não me parece difícil sustentar a tese de que Os Lusíadas é uma tradução extremamente bem-sucedida nos termos em que você propôs: uma tradução que rasura a própria origem. Camões foi um ótimo tradutor da Ilíada, da Odisseia e da Eneida.

De modo semelhante, Bocage e Tomás António Gonzaga são ótimos tradutores de Virgílio, que, por sua vez, era um ótimo tradutor de Teócrito. Claro, isso tudo numa concepção abrangente, conforme dito de início.

Acho que não faltam exemplos desse tipo de coisa.

Agora, pensando em uma tradução que não procure ocultar sua origem e mesmo assim consiga atingir um estatuto de obra independente por meio de sua inventividade, creio que o melhor exemplo seja Odorico Mendes e suas traduções da Ilíada, da Odisseia e da Eneida. Mas eu venho dos Estudos Clássicos, né? Acho que não tenho como dar outra resposta. Tenho certeza de que tradutores de outras áreas têm outros exemplos que lhes são mais influentes.

MÁRIO: Agora tratando de um assunto mais prático, você poderia comentar sobre a concepção de que um tradutor é notável quando não é notado, ou a invisibilidade do tradutor e como isso se relaciona com a polêmica da Feira do Livro de Porto Alegre envolvendo o lançamento do seu Édipo Tirano?

LEONARDO: Essa situação com a Feira do Livro de Porto Alegre foi bem emblemática. Para registro, tomo a liberdade de reproduzir aqui meu post, já que ele narra o ocorrido:

TRADUTOR NEM É GENTE

Depois de algumas semanas de negociações em que tentamos de tudo, venho a público para contar para vocês um episódio bem triste, mas não incomum num país em que a tradução é vista como bico para complementar renda.

Algumas semanas atrás, o sempre gentil Leandro Sarmatz sugeriu lançarmos meu “Édipo Tirano” na Feira do Livro de Porto Alegre. Topei de imediato, pois me pareceu uma ótima ideia, para a qual não imaginei que encontraria obstáculos.

Qual não foi minha surpresa ao saber que não poderia participar, pois “tradutor não assina livro”!

O Leandro e sua equipe ainda tentaram dialogar com o pessoal da feira e propor uma segunda ideia: relançar meu “João & Maria” e, na mesma mesa, ter o “Édipo Tirano” como complemento não-oficial.

A resposta: outro “não”, pois a Editora Patuá (editora do “João & Maria”) não faz parte do catálogo de distribuição da Multilivro, que organiza a feira.

Não sei se me frustro mais pela reiterada invisibilidade do tradutor ou pelo descaso com a poesia contemporânea, tão bem representada hoje pela Patuá.

Acho que o mais frustrante de tudo é isso vir da Feira do Livro, que eu esperava ser um território onde as mazelas do senso comum não imperassem sobre a lucidez e a cultura.

Passei um ano da minha vida traduzindo o Édipo, recriando metricamente os coros, pensando em melodias, revisando o texto dos diálogos, todo feito em dodecassílabos e com extremo cuidado com os jogos de palavras sofocleanos, comentando o texto e justificando escolhas tradutórias, mas parece que tradutor é só uma maquininha de transfusão de sentido mesmo.

O texto teve uma grande repercussão. Muita gente se sensibilizou e ficou revoltada com a situação, que é tão recorrente entre os tradutores. A própria feira, em algumas horas, já estava me procurando para resolver o caso, mas não pude atender o telefonema, uma vez que estava em aula.

No dia seguinte, eles conversaram com a Todavia, que me consultou se eu ainda aceitava participar. Disse que sim. Ficou acertado que eu teria a sessão de autógrafos. Logo depois, eles lançaram, no Facebook, a seguinte nota, que reproduzo integralmente:

Nota de esclarecimento

A Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL), entidade organizadora da 64ª Feira do Livro de Porto Alegre, vem a público responder ao post do tradutor e escritor Leonardo Antunes sobre a sessão de autógrafos do livro “Édipo Tirano” (Editora Todavia, 2018).

A organização da Feira analisou a referida obra e confirma que a mesma está plenamente apta para ser autografada no evento por tratar-se de uma tradução comentada, com textos que ampliam as possibilidades de significados da clássica peça de Sófocles.

Sendo assim, a 64ª Feira do Livro de Porto Alegre recebe com muita satisfação a proposta de sessão de autógrafos da obra traduzida e comentada por Antunes.

Câmara Rio-Grandense do Livro

64ª Feira do Livro de Porto Alegre

Eu não postei mais nada a respeito, até porque não estou em uma cruzada contra a feira, que é um evento importante e louvável na cidade, mas fiquei incomodado com a nota. Acredito que tinham boa vontade ao postá-la. Então, a crítica que faço aqui não é direcionada a eles, mas ao modo com que se olha para a tradução ainda hoje.

Mesmo numa nota de retratação, com boas intenções, veja que a justificativa que eles dão, em tom elogioso, para que o livro possa participar da sessão de autógrafos, é a de que é um trabalho acompanhado de comentário, “com textos que ampliam as possibilidades de significados da clássica peça de Sófocles”. Aí cabem as perguntas: Se não tivesse comentário não seria digna de ter sessão de autógrafo? Tradução sem comentário é mera transfusão de sentido?

Quer dizer: a visão que se tem de tradução é tão negativa, que mesmo quando pessoas esclarecidas e cultas (como são as que escreveram a nota) tentam ser gentis, elas frequentemente recaem no senso comum, que ignora a tradução como prática geradora de conhecimento, como uma atividade de criação e crítica.

É por defender essa bandeira que reproduzo o caso, que, individualmente, no que me toca, é quase uma bobagem. Porém, visto como um episódio emblemático da invisibilidade do tradutor, creio que é digno de nota.

Quantas obras nós lemos em tradução ao longo da vida? Na média, é provável que seja a grande maioria. Nossa relação com o passado, com o cânone, com toda a literatura mundial é mediado pela interpretação, pelo trabalho crítico, pelas escolhas de tradutores. Isso não é pouca coisa.

MÁRIO: Para finalizar, qual seria seu conselho para jovens acadêmicos e estudantes que pretendem seguir a carreira de tradutor?

LEONARDO: Como diria meu avô, “se conselho fosse bom, a gente não dava; vendia”. Mas, enfim, precisando dizer alguma coisa, acho que falaria sobre o que me levou a traduzir. Para mim, a vontade de traduzir sempre veio da leitura de um texto estrangeiro que me fascinava. É um desafio maravilhoso esse de pegar algo, esmiuçá-lo, estudar como ele funciona e tentar reproduzi-lo em outra língua (com todas as limitações e problemas envolvidos nisso). Se isso é algo que interessa a alguém, acho que tem mais é que seguir o caminho da tradução mesmo.

Em termos menos gerais, meu conselho é o de manter-se sempre aberto e procurar encontrar algo de bom no trabalho dos outros. É sempre muito fácil criticar as traduções alheias. Difícil é abrir-se a um projeto estético diferente e tentar recebê-lo com generosidade.

Mário Coutinho Autor

Mário Coutinho. Estudante de Letras na Universidade de São Paulo.