Entrevista com Marçal Aquino: “no Juízo Final, espero estar na fila dos escritores”

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Está acontecendo em Santos a 6ª Tarrafa Literária(de 25 a 28 de setembro de 2014 – programação aqui), e nós aproveitamos para conversar com o escritor Marçal Aquino, jornalista, escritor e roteirista de cinema.

Marçal falou do início de sua carreira, suas primeiras leituras, a paixão pelo romance policial e a relação de internet e literatura. Leia mais abaixo.

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Sua história como escritor começou com a publicação independente de um volume de poesias aos 26 anos. Hoje, 30 anos depois, como você descreveria o percurso que sua carreira literária tomou do primeiro livro publicado independente até ter uma obra adaptada para o cinema?
Marçal:
Acho que a coisa mais importante que meu primeiro livro de poemas me ensinou é que não sou poeta. Não demorei muito a perceber que meu negócio é com a prosa – até transformei um daqueles “poemas” num conto. Hoje, sou apenas um leitor de poesia, que adoro. Mas sou um prosador.

Olhando para tudo que você já escreveu, onde você considera que está a parte mais intensa de sua obra: na prosa, na poesia, na literatura juvenil ou nos roteiros?
Marçal:
Costumo brincar dizendo que, no Juízo Final, espero estar na fila dos escritores. Com isso, quero dizer que considero a literatura adulta a parte mais importante, à qual dedico meu maior esforço.

O público adolescente vem frequentando cada vez mais eventos literários, principalmente por causa das sagas best-sellers, como Crepúsculo, Jogos Vorazes, dentre outras. Você acha que ler livros cuja qualidade literária é questionada é positivo para a formação de um público leitor?
Marçal:
Tenho uma visão absolutamente democrática do hábito de ler: acho que cada um deve ler aquilo que gosta – o importante é ler. Não há, no meu entendimento, uma hierarquia de valores nesse aspecto. Há leitores que migram deste para aquele tipo de literatura e outros que ficam a vida inteira lendo algo que os satisfaz. Não existe uma fórmula.

Na sua mesa, no Tarrafa Literária, a discussão gira em torno do gênero mistério. Quais foram seus primeiros contatos com esta Literatura e de que forma os escritores deste gênero influenciaram sua identidade como escritor?
Marçal:
Em certo momento da minha juventude, me interessei de maneira intensa pela literatura policial e pelos livros de mistério. Foi uma época em que devorei um pouco de tudo, de Poe a Agatha Christie. Foi a fase em que tomei contato com os grandes mestres da narrativa policial, como Raymond Chandler, Jim Thompson, Rubem Fonseca, Luiz Lopes Coelho, Dashiell Hammett etc. Depois, já no jornalismo, trabalhei como repórter policial por um tempo em São Paulo. Foi uma experiência muito importante, que contaminou minha literatura.

Como você vê as relações interpessoais no mundo dos smartphones, redes sociais e realidade virtual? Como você vê a questão da formação do cidadão politizado sendo bombardeado por tantas informações e conflitos de interesses no meio virtual, especificamente?
Marçal:
Ainda acho que a vida é presencial, tanto que não faço parte de nenhuma rede social – existe um página no Facebook, mas ela é fake. Entendo que a internet é uma ferramenta preciosa, mas também um oceano de sandices. Depende de como cada um a utiliza. Mas é algo que afeta a vida de todo mundo de maneira inescapável.

É comum ver no Facebook e nas redes sociais um movimento jovem que quer escrever e publicar e que tenta, mesmo que independente, começar a carreira no mercado editorial. Não é irônico que a média de livros lidos por ano seja tão pequena no Brasil e o desejo de escrever seja crescente? Qual sua opinião sobre isso?
Penso que a internet, entre outras coisas, possibilitou que muita gente descobrisse os prazeres da leitura e, em particular, da escrita. Quero dizer com isso que um camarada que, anteriormente, antes do advento da internet, passaria a vida sem escrever uma mísera carta, de repente se vê tentado a manter um blog.

Se algum jovem te dissesse agora que deseja ser escritor, o que você diria?
Marçal: Leia. Leia. Leia.