Entrevista internacional com o escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez

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Depois de ser chamado de “Bukowski cubano”, Pedro Juan Gutiérrez é um escritor de prestígio internacional e com uma identidade própria consolidada. Suas histórias calientes, com muitos palavrões e escritas com frases concisas, trazem uma espécie de filosofia própria; um conteúdo que também propicia imersão existencial.

O escritor, que nasceu em 1950, em Matanzas, capital da província cubana homônima, atuou como vendedor de sorvete, cortador de cana, professor de teoria marxista, especialista em explosivos do exército e quase cafetão; além de seu último emprego formal, como jornalista. Atualmente, vive em Havana, trabalhando integralmente como escritor.

Seus principais livros publicados no Brasil são: Trilogia Suja de Havana (1998), Animal Tropical (2000) e Carne de cão (2003).

Leia mais sobre ele em: A literatura “suja” do escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez

E embora tenha convidado o Homo Literatus para visitá-lo pessoalmente em Cuba, de tão cordial que se apresentou, o site acabou por conversar com ele por e-mail. E abaixo segue a entrevista exclusiva que Pedro Juan Gutiérrez concedeu.

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HL – Pedro Juan, comecemos por falar sobre: o que representa a literatura na vida das pessoas? Uma pessoa é melhor por ler?
PJG – Acredito que sim, que a literatura entre na imaginação das pessoas e nos amplie os horizontes de nossa vida estreita. É o mesmo que acontece ao escritor quando escreve, multiplica sua vida.

HL- Há muitos livros que nos marcam, mas tem algum livro específico que o incitou a mudar profundamente algo em sua vida?
PJG – Bonequinha de Luxo, de Truman Capote. O li aos 16 anos, em 1966, talvez 1967, e me marcou profundamente porque não parecia literatura e sim algo muito natural. E me disse a mim mesmo: “Se algum dia for escritor, escreverei deste modo”.

HL – Você fala em seu site oficial que sua literatura aspira ser “de um modo tão natural, que não pareça literatura”. Este é o argumento que te impulsiona a escrever tanto sobre sexo?
PJG – Talvez. Sexo é tão natural como comer, beber água ou qualquer outra coisa. Não há por que evitar falar de sexo. Acredito que é um forte preconceito cristão. E eu sou budista, assim não tenho nada a ver com este preconceito.

HL – Um de nossos maiores escritores brasileiros, Machado de Assis, afirmou uma vez que “ninguém deveria publicar nada até os trinta anos”. Em seu site oficial há uma declaração em que você considera que demorou trinta anos para “aprender a escrever medianamente aceitável”. Em sua opinião, como um escritor pode saber que está preparado para publicar seu livro?
PJG – Não se sabe nunca. Há de jogar. Sem levar-se a sério. Divertir-se como um menino brincando. E se as coisas saírem bem, perfeito. E se não conseguir, não perde nada porque só estava brincando.

HL – Hemingway disse certa vez que tinha de escrever apenas uma frase verdadeira para começar uma história. Para você, o que é esta frase? É o que procuras quando falas de uma escrita natural?
PJG – Acabo de terminar um romance em que tenho pensado durante 20 anos e não podia começar. Minha mulher um dia me disse algo que lhe havia passado em sua juventude e eu comecei a escrever tudo. Saiu de um golpe. É mágico e misterioso.

HL – Não sei o que chega a Cuba, mas o que você conhece da produção cultural brasileira, sobre nossos livros, músicas e filmes? É algo que você gosta?
PJG – Sim, chega música muito boa, pouca coisa de cinema e muita telenovela barata e absurda. Mas me encanta a verdadeira cultura brasileira.

HL – Para terminar, o que você espera de sua vida e de sua literatura depois de certo êxito e reconhecimento mundial?
PJG – Não espero nada. Acredito que escrevi alguns livros interessantes e há algo mais para escrever, não muito. E isso é tudo, o que está bem.