“Escrever deve ser assim: o futuro precisa ser incerto, sempre”, Flavio Cafiero em Entrevista

0
522
Flavio Cafiero
Flavio Cafiero (Foto: Mila Bertoluci)

Entrevista por Renato Tardivo *

Carioca radicado em São Paulo, Flavio Cafiero estreou na literatura no fim de 2013 com o romance O frio aqui fora (Cosac Naify). Desde então, foi indicado para os prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura, pelo romance de estreia; com um conto inédito ganhou o prêmio Off-Flip em Paraty; e a coletânea de contos Dez centímetros acima do chão (Cosac Naify), que acaba de ser lançada, levou o prêmio Cidade de Belo Horizonte. Cafiero, ainda, teve a peça Antes de mais nada montada no TUCA, em São Paulo, e abriu o selo Jota (para e-book) com o conto O capricórnio se aproxima (e-galáxia). Nada mal para o primeiro ano de escritor publicado.

Mas o reconhecimento não é fortuito. Já há alguns anos Cafiero abandonou a carreira de executivo e passou a dedicar-se exclusivamente às letras – ele também escreve roteiros para cinema e tevê, além de atuar. Participou de oficinas de escrita e, quando seu primeiro livro foi publicado, o autor já era dono de um estilo sólido. Sua prosa prima pelo trabalho formal e não se furta ao trabalho consigo mesma. Questões existenciais surgem radicalmente alojadas à linguagem – de onde parte e para onde retorna a batalha pela sobrevivência, temática cara ao autor. Quem vence? Jamais saberemos. Afinal, como diz Cafiero na entrevista a seguir, concedida por e-mail, “escrever deve ser assim: o futuro precisa ser incerto, sempre”.

***

Você abandonou uma carreira bem-sucedida no mercado corporativo para se dedicar à escrita. Quando a literatura passou a ser uma atividade em sua vida? Poderia falar sobre a decisão de se dedicar exclusivamente a ela?

A literatura foi paixão de criança e adolescente, sufocada pela existência oficial de adulto publicitário, uma camuflagem bastante comum. Minha veia artística ficou congelada por mais de 15 anos, cutucada aqui e ali por leituras, estudos e cursos avulsos de teatro e filosofia. A decisão de me dedicar à escrita veio junto com a decisão de não ser mais executivo. O não para um lado foi um sim automático e necessário para o outro. Foi quase como se não houvesse saída. A escrita foi minha fuga possível, um regate do passado, de quando tudo já estava indicado, mesmo sem a gente perceber. As pessoas costumam não acreditar, mas é verdade: antes de sair do mundo corporativo não havia escrito uma linha sequer, fora os e-mails de trabalho e umas poesias toscas. O que manteve a chama-piloto funcionando foi meu talento de leitor, junto com minhas frequentes viagens, cursos sobre vários temas e internações semanais em cinemas e teatros.

O frio aqui fora, seu livro de estreia, é narrado por um gerente de produto que se torna escritor. Os paralelos entre o enredo e a sua vida pessoal colocam o livro no gênero da autoficção. O que você pensa a respeito desse gênero?

Essa história de gênero está em crise, e não só na literatura. Os limites estão esfumados em todos os campos. Público/privado. Ficção/não-ficção. Quanto de Cervantes havia no mundo de Quixote? Quanto da história de família de Flaubert se misturou ao drama de Emma Bovary? Quanto de Carolina, mulher de Machado de Assis, foi parar em Capitu? A diferença é que na época não existia Facebook ou eventos literários. Não confundíamos a vida com a ficção de um jeito tão automático porque pouco sabíamos sobre o lado de cá. A autoficção sempre existiu, embora eu concorde que tenha havido uma exacerbação. O mundo é hoje um lugar com bilhões de centros, as verdades absolutas se despedaçaram em muitas, o reflexo na literatura é tão forte quanto em outras áreas das relações humanas e das artes. Falar de si mesmo agora é possível, tirar as máscaras, colocar outras, espiar as culpas e pecados que no passado nos condenavam. Há um processo de radicalização, sem dúvida, tanto do lado da criação quanto da percepção. Mas não creio que seja algo tão novo assim. E nem tão relevante.

Você participou de oficinas de escrita. Como avalia a importância dessas oficinas?

Foi fundamental. Por ter começado a escrever tardiamente, uma série de crenças cristalizadas precisaram ser quebradas, caixas foram abertas, experiências compartimentadas começaram a se embaralhar, e isso foi necessário para que algo novo saísse dali, algo que pudesse ser reconhecido como arte, pelo menos por mim. Foi doloroso, em certa medida. As oficinas me ajudaram com o método, muito importante para que a mudança se desse de um jeito minimamente perceptível, para que a experiência de escrever se encaixasse num loop de feedback, para que a autocrítica entrasse em campo de forma construtiva. Fora a necessidade de me habituar com o escrutínio alheio, a crítica, a negativa. E não foi qualquer oficina, certo? Foi com a Noemi Jaffe liderando, a pessoa que acabou me amadrinhando. E foi com um time de colegas muito especial. Muitos se tornaram amigos e comparsas, e tem mais gente começando a publicar. Noemi se tornou uma parceira. Encontrar uma turma foi essencial num caminho basicamente solitário.

Este ano, você estreou também como autor para teatro. A peça Antes de mais nada fica em cartaz em São Paulo até este mês. Poderia falar sobre sua experiência em teatro?

Na infância também quis ser ator, o teatro sempre me encantou. Quando abandonei o mundo corporativo fui fazer cursos de dramaturgia e atuação, tudo misturado. Tirei registro profissional de ator e comecei a escrever para teatro antes mesmo de me arriscar na literatura. São dois campos da escrita em que a liberdade criativa é muito grande, mais do que no audiovisual, o que aumenta os riscos. Isso porque a matéria prima nesses casos é a linguagem, é o verbo, algo muito comum e banal. Não é qualquer criação envolvendo linguagem verbal que consegue te tirar do lugar, te arrancar do presente. Isso me atrai. Na literatura e no teatro o grau de investimento imaginativo e intelectual do leitor/espectador é muito alto, o público é mais co-autor, as lacunas deixadas para a imaginação e o repertório de quem frui são imensas. Portanto, são dois caminhos muito paralelos na minha cabeça, os dois me desafiam igualmente, e costumo alterná-los. O Antes de mais nada foi uma estreia ousada, fruto do investimento de tempo e dinheiro do Germano Baía, o produtor que sonhou com o texto até mais do que eu. Sou muito grato pela generosidade do Germano, que se apaixonou pela história assim que pôs os olhos na primeira versão. Eu tenho uma relação ambígua com o texto, embora o considere com qualidade suficiente para ter merecido a montagem. Escrevi essa peça há mais de cinco anos, antes de quebrar tudo e escrever de um jeito mais autoral. Arte traz esse incômodo: conviver com a obra mesmo tendo me tornado outro. De qualquer forma, meus temas preferidos estão ali e o processo foi inesquecível. Vivi dois meses de sonho frequentando os ensaios. O resultado final é de alto nível técnico e artístico. A experiência no teatro vai virar literatura, seguramente.

Diferentemente do mais usual, você estreou com um romance e, agora, acaba de lançar uma coletânea de contos. Pretende seguir publicando nos dois gêneros? Considera um mais importante do que o outro?

Os limites entre gêneros literários andam bem pontilhados, conforme já disse. O frio aqui fora foi escrito em “socos”, do mesmo jeito que escrevo contos, e dá pra perceber pela estrutura fragmentada. O Dez centímetros acima do chão é uma antologia com caráter bem homogêneo, capítulos avulsos de uma mesma realidade. Não vejo diferenças em termos de valor. Um conto é uma estocada profunda, aguda. O romance é uma sequência de cortes sucessivos, lentos, e que devem alcançar igual profundidade. São dores diferentes, mas tem que doer do mesmo jeito. Vou continuar insistindo nos dois crimes.

Os contos do recém-lançado Dez centímetros acima do chão são cuidadosamente trabalhados. Algo que já ocorrera em O frio aqui fora, os temas vão se desenhando e como que saindo da sombra a partir de frases longas – mas não cansativas. Você utiliza inclusive o recurso da nota de rodapé. Que importância atribui ao trabalho com a forma?

Usar a forma para contar e até maximizar os efeitos da história foi um direito que assumi no curso de escrita criativa. E foi instantâneo, já nos primeiros contos que escrevi em aula me libertei do formato clássico e comecei a brincar com tempos verbais, pontuação, variações de registro. Comprei a briga de cara, e isso tem muito a ver com os desafios propostos pela Noemi. Recentemente tive a oportunidade de reviver a experiência escrevendo o primeiro volume do selo Jota (O capricórnio se aproxima), coordenado pela Noemi e que sai pela E-Galáxia apenas em formato digital. O conceito do selo é publicar o resultado de desafios propostos a escritores, baseado na vivência do grupo francês Oulipo. Foi uma brincadeira deliciosa. Os desafios de restrição são capazes de te levar a lugares inacessíveis. Foi muito bom ter incorporado esse hábito de sempre tentar escrever de um jeito diferente, pesquisar novos tipos de narradores, desrespeitar regras de bom-mocismo literário. Pra mim, a forma é tão fundamental quanto o enredo e a trama. Ás vezes até mais. No caso das notas de rodapé, por exemplo: o fato de serem informações de rodapé já geram significados que seriam inexprimíveis de outra forma, reforçando a ideia de subtexto, que importei do teatro, ou de trama paralela que ilumina a trama principal, que trouxe das séries de TV. Há também o caso das frases longas, que viraram uma marca registrada já nas oficinas: as vírgulas e os conectivos, às vezes excessivos, conferem um ritmo de angústia e exasperação que economizam adjetivos, poupam reiterações. A forma de escrever conta tanto quanto as palavras.

No último conto do livro, a ousadia formal é levada ao limite. Poderia comentar o processo de criação de “A última aventura do herói”?

Foi um processo louco. Tão louco quanto o próprio conto. Foi uma obsessão. Dos catorze contos do livro, seis nasceram dentro das oficinas de escrita criativa. O conto do herói foi um deles, mas seu DNA é de fracasso. Esse conto me mostrou como o fracasso pode ser bom. Havia tantas restrições e regras a serem cumpridas que minha mão congelou, e fui um dos únicos da turma que não conseguiu cumprir a proposta. O conto ficou incompleto, mesmo com um prazo de dois meses, e isso me incomodou por muito tempo. Quando resolvi apresentar uma antologia na Cosac Naify, cismei de inclui-lo. Trabalhei, retrabalhei, testei mil soluções, foi um inferno. Mas terminei. A obsessão foi tanta que o conto deu nome à antologia (mais tarde a editora pediu que eu trocasse, mas foi com esse título que o livro venceu o Prêmio Cidade de Belo Horizonte 2013/2014). Quando a antologia voltou da editora, o conto do herói veio carimbado com dezenas de pontos de interrogação. Ninguém entendeu nada, mas não cogitei excluí-lo. Três contos já brincavam com notas de rodapé e decidi que o recurso podia ser uma saída honrosa. Não expliquei nada nas notas de rodapé, a ideia não era tirar o caráter enigmático do conto, algo que era intencional e que tinha a ver com a trama. Mas as notas acrescentaram sentidos antes inexistentes que, de certa forma, jogaram luz sobre o corpo principal. A criação tem essas surpresas que se dão pelo próprio processo, e a sensação é deliciosa quando fenômenos assim acontecem. Isso me deu força para arriscar novos recursos. Não sei o que passou pela minha cabeça: achei uma solução e resolvi criar mais problemas. Radicalizei na ortografia inventada (o conto simula um novo acordo ortográfico baseado na fonética das letras) e criei uma espécie de paradoxo que deixou dúvidas sobre a veracidade do próprio conto. Enfim, uma insanidade com um quê borgiano, mas que me deu prazer, depois de um longo período de angústia. Se o conto deu certo, é outra coisa. O que é dar certo em literatura? Sinceramente, espero nunca saber. Tudo que dá certo vira automaticamente passado. Penso que escrever deve ser assim: o futuro precisa ser incerto, sempre.

 ***

* Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Autor, entre outros, de Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura arcaica (Ateliê/Fapesp) e da coletânea de contos Silente (7Letras).