“Escrever é uma doença”, afirma Paul Auster, além de citar Gabriel García Márquez

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“Se estás enfermo, certamente deves tomar remédio; ser escritor é algo parecido: deves lidar com tua doença sentando-te todos os dias para escrever.”

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Paul Auster ocupa o posto de um dos melhores escritores contemporâneos. E contrariando a máxima de que “escritor bom é escritor morto”, Auster possui fãs no mundo inteiro. Recentemente, no Chile para participar do seminário “La Ciudad y las Palabras”, o escritor concedeu uma entrevista ao diário chileno La Tercera, onde fez importantes declarações.

Em seu cotidiano, Auster toma uma xícara de chá enquanto lê o The New York Times, depois por volta das nove da manhã, senta-se em se seu escritório. Apenas se levanta para almoçar, logo retornando ao trabalho literário, parando por volta das quatro da tarde. Durante sua juventude, principalmente nos anos setenta, acreditou que jamais seria escritor. Hoje é o contrário: “É uma compulsão”, diz, “É uma doença”, acrescenta.

Entre suas influências, segundo admite, vê-se apenas clássicos: Poe, Melville, Hawthorne, Tolstói, Dostoievski, Dickens, Joyce, Kafka, Celine. Além disso, acrescentou que em certa noite, com vinte e dois anos de idade, não conseguiu largar Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez: “Não pude parar. Me impactou muitíssimo”, disse sobre o livro. “De alguma maneira García Márquez é o escritor mais querido do mundo. Em toda parte as pessoas o amavam. É um desses casos raros em que um grande escritor alcança popularidade. García Márquez é uma espécie de Dickens de nossos tempos”.

a_trilogia_de_nova_yorkAs obras de Paul Auster que se tornaram best-sellers são: Timbuktu, O livro das ilusões, A noite do oráculo e A música do acaso. Mas seu livro mais conhecido no mundo inteiro é A trilogia de Nova York, uma obra que reúne três romances nos quais surgem possibilidades de pessoas comuns atuarem como detetives. Contudo, nem de longe os mistérios são os pontos-chave das obras. O que o escritor propõe são desconstruções de linguagem, formando assim um labirinto mental, tanto para seus personagens, quanto para os leitores. Em Cidade de vidro, primeira história da trilogia, um escritor de romances policiais recebe uma ligação no meio da noite e a responde, passando-se por um detetive chamado Paul Auster. Em Fantasmas, um detetive chamado Blue, que foi treinado por Brown, é contratado por Black para investigar White, contudo, quanto mais observa a pessoa que deve perseguir, mais suas personalidades vão se confundindo. Em O quarto fechado, o amigo de um escritor vive atormentado pela culpa, pois foi encarregado da publicação do espólio do homem, embora as coisas não sejam muito bem o que parecem.

Ainda em entrevista ao La Tercera, quando indagado como recordava dos anos em que escreveu A trilogia de Nova York, Auster respondeu:

“O que mais recordo é que estava começando com Siri [sua esposa]. Nos conhecemos em 1981, em uns meses começamos a viver juntos e logo iniciei A cidade de vidro. De alguma forma, é uma homenagem a ela. O que teria acontecido se não a conhecesse? Talvez seria alguém como Quinn (o protagonista). Há outra coisa: um dia recebi uma ligação perguntando pela Agência de Detetives Pinkerton. Era engano. No outro dia o mesmo. Logo me arrependi: devia ter dito que sim, que eu era o detetive. Esperei a terceira ligação, mas nunca chegou. Dessa situação saiu a trilogia: histórias sobre detetives que na realidade não o são, crimes sem mortos, etc. Somente perguntas sem respostas.”

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É sempre intrigante conhecer o processo criativo de um escritor, no entanto melhor ainda é saber que ele trabalha num novo projeto. Paul Auster disse que está “pensando cada vez mais sobre a infância e queria tratar de explicar-me”. Esta sua disposição o impulsiona na obra em que está se aplicando: “Agora estou escrevendo um romance longo, o mais que complexo que já escrevi. Acredito que demorarei uns dois ou três anos mais. Todos os dias escrevo até as quatro da tarde e nesse ponto meu cérebro está frito, estou tão cansado que apenas posso mover-me. Me custa muito escrever apenas uma página”.

Providencial, a última pergunta do entrevistador possibilitou a fala de Auster que dá título a esta matéria. A questão era: “Sempre foi tão doloroso [escrever]?”. Ao que Paul Auster respondeu:

“Acredito que todos os artistas, de uma forma ou de outra, são pessoas danadas. E às vezes o mundo real não é suficiente. Temos que explorar um mundo inventado. Admiro as pessoas que se contentam com as coisas como são, que vivem no presente e não têm a carga que parecem ter os artistas. É uma compulsão, como uma doença. Se estás enfermo, certamente deves tomar remédio; ser escritor é algo parecido: deves lidar com tua doença sentando-te todos os dias para escrever.”