Escrita feminina e escrita masculina

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Homens e mulheres escrevem de modos diferentes? Existe uma escrita feminina e outra masculina?

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Foto de Isabella A

A escritora Maxine Kumin, em vários momentos de seu início de carreira, recebeu o que, na época, presumiam ser o maior elogio a que uma autora poderia aspirar: “Você escreve como um homem.” Porque escrever como um homem—fazer qualquer coisa como um homem—parecia tornar qualquer atividade séria e respeitável; de como você conduzia um automóvel ao seu método preferido de abrir potes de azeitona. Mas o que significa escrever como homem? E mais ainda: o que significa escrever como mulher? Existe algo como os gêneros da literatura? Não os gêneros que já conhecemos: policial, fantasia, ficção científica. Mas existe algo no texto que pode ser identificado como nossos conceitos de masculino e feminino? Quando seguro minha caneta, quando sento à frente do computador, deixo algum tipo de rastro invisível que alguém vai farejar, erguer o dedo e identificar como escrito por uma mulher? Certa vez escutei que escritoras tendem a se prender demais a descrições com prosa florida, enquanto escritores tendem a ser dinâmicos, mais práticos. Aplico a noção a J. R. R. Tolkien e J. K. Rowling. O primeiro certamente era dado a longas, por vezes exaustivas descrições; a segunda é mais econômica e dinâmica. Significa que Rowling escreve como um homem? Ou então: George R. R. Martin, que já produziu, em suas Crônicas de Gelo e Fogo, alguns dos parágrafos mais floridos da literatura fantástica. Ele está escrevendo em seu gênero?

Gênero, quando designado a nós, humanos—ou a qualquer coisa, na verdade—pode ser bastante curioso. É algo que teima em nos colocar dentro de caixas, em aplicar etiquetas de identificação. Quando uma história nos foge de seu gênero, ficamos confusos. É um romance histórico? É ficção científica, por que lida com viagem no tempo? É fantasia, por causa das cenas que envolvem sobrenatural? Exemplos que podem ser aplicados à série Outlander, que Diana Gabaldon, a autora, proclamou uma vez poder recomendar a qualquer pessoa, dada a confluência de gêneros contidos em seu texto. Quer ler algo militar? Outlander pode ser para você.

Um parágrafo apenas para explicar que, se nos perdemos quando gêneros literários insistem em fugir da caixa em que queríamos que ficassem, que se imagine quando pessoas tentam fugir das pré-definições do que seria seu gênero, masculino ou feminino.

“Mas existe algo como a escrita de gêneros,” alguém diria. “Quando uma mulher escreve, ela tende naturalmente a tratar dos problemas femininos.” É o argumento que criou a chick-lit, a ideia de que o universo feminino é algo que existe à parte, em uma categoria à parte, enquanto um homem falando de problemas masculinos, sua impotência ou os desagrados de uma casamento que esfriou, bem, ele só está escrevendo literatura séria e de verdade. Algo ainda mais estigmatizado parece ser o gênero romântico, carimbado como 100% pertencente a mulheres. Escreva sobre as atribulações da vida amorosa de uma heroína de épocas passadas e o mundo vai compensá-la com uma capa de design discutível e um canto na prateleira rosa. Que se faça o mesmo com um herói: vamos chamar de clássico e fazer uma série da BBC baseada na saga (ver: Poldark). Nicholas Sparks, não faz tanto tempo, teve uma crise de nervos ao ser descrito como um autor de romances; disse que não se vê assim, mas como um autor cuja profundidade e gênero não podem ser definidos, o que parece ser uma tentativa criativa (se particularmente hilária) de se recusar a ser colocado lado a lado com suas colegas do sexo feminino. Mas que surja Jodi Picoult e pronto: coloquem-na na prateleira rosa também.

Escrita feminina e escrita masculina não me parecem ter muito a ver com prosa: Gillian Flynn pode criar personagens masculinos tão críveis quanto Frank Herbert pode criar personagens femininas memoráveis. Gillian Flynn pode escrever momentos de tensão tão bem quanto Frank Herbert pode destilar quanto púrpura quiser em descrições de sexo. Um é mais masculino ou feminino do que o outro?

A questão me parece bem mais simples: “escrita feminina” e “escrita masculina” são apenas como aprendemos a definir, respectivamente, “histórias escritas por alguém que parece ser uma mulher, pelo menos na foto da contracapa” e “histórias sérias.”

Anos se passaram desde que Maxine Kumin começou sua vida como autora. Ela faleceu no ano passado. Entristece pensar que, em 2015, “você escreve como um homem” ainda seja um elogio. Escrevemos: somente.