Escritores: os grandes mentirosos

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Já dizia Fernando Pessoa que o poeta é um fingidor, e isto cabe a todos os escritores

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Não mais de uma vez tive de ouvir perguntas como “você está bem?”, “tem certeza de que está feliz?” ou “hummm, parece que alguém está com sorte”, a lista é imensa. Esses são os tipos de coisinhas que escuto depois de publicar um novo texto. Bem, colegas, espero que não se sintam mal depois de ler o que tenho para dizer porque, parafraseando Fernando Pessoa(s), o poeta – e aqui incluo todos os escritores – é um fingidor. Ninguém melhor que ele, aliás, para dizer tal coisa, se é que me entendem. Essa história de vincular o autor intimamente ao texto é um erro e eu provarei isso nas poucas linhas que você está prestes a ler, em apenas um único tópico.

Quem escreve, escreve por um motivo.

O que isso quer dizer? Muito simples. A escrita é uma forma de comunicação, logo, que outra razão ela teria para existir, senão comunicar? “Mas, eu só escrevo para mim etc”. Bem, novidade (nem um pouco nova): escritores de gaveta também têm motivo para escrever. Seja para o próprio escritor ou para o melhor amigo, para o jornal local ou a nível mundial, um texto sempre tem uma razão de existir. Se alguém quer falar sobre seus próprios sentimentos ou apenas os simular depende inteiramente da intenção do autor e de quem ele quer atingir.

A questão agora é: por que isso é tão importante na análise de uma obra? Porque assim se evita alguns deslizes. Às vezes, nós temos os autores em tão alta conta em nossas mentes que eles se tornam verdadeiros famosos, ou até mesmo deuses, que nos esquecemos de ver a obra por si só. Um livro que conta a história de um camponês, por exemplo, que se apaixonou por uma moça muito rica tem perguntas e respostas nele mesmo, suas lições e seus pensamentos. Pode ser necessário dar uma olhada na biografia do escritor de vez em quando para entender uma ou outra passagem, mas, não necessariamente o autor do tal livro pensará da mesma forma em sua vida cotidiana e real. “Mas, e os casos em que as obras são praticamente autobiografias do autor?”. Well, well, well… Você quer estudar o autor ou a obra dele? Conheci pessoas que leram Clarice Lispector e entenderam sua obra sem nem mesmo saber em que momento da vida dela aquilo foi escrito; isso não importava realmente para esses leitores. Eu mesma me apaixonei por Jane Austen e por muito tempo fui sua fã sem ter conhecimento de sua trajetória de vida; quando tive, realmente me perguntei por que ela afinal não se casou, se todas as suas personagens atingiram esse fim.

Está bem… O autor é o criador daquele mundo e de vez em quando, ou até mais frequentemente do que gostaríamos de admitir, sua vida real pode passar para seus textos. Nada de condenável nisso, e é um baú de tesouros para os historiadores e biógrafos. Para o leitor, entretanto, o que é mais importante no decorrer de um agradável texto: como o autor descobriu que um camponês pode se apaixonar por uma moça rica ou que o camponês se apaixonou pela moça rica? Consegue ver a diferença?

E, importante lembrar (já que muitos se esquecem), o escritor não é o narrador. O tom que será abordado no texto pode ser muito mais sério ou divertido que o próprio autor e tal escolha é ligada ao fato de haver uma razão para isso. Sim, é novamente o que eu disse ali em cima: “quem escreve, escreve por um motivo”.

Por isso, queridos leitores e escritores, eu nunca me canso de dizer que somos todos grandes fingidores. Os leitores por fingir – mesmo que momentaneamente – que os sentimentos de uma poesia ou os personagens de uma história são tão verdadeiros quanto o ar que estão respirando, e os escritores por inventarem tudo isso.

 

P.S. Você se surpreenderia se descobrisse que não concordo com uma única frase dita acima?

 

Ilustração: autoria desconhecida