Espaços seguros na literatura e a liberdade de expressão

No âmbito estudantil, os “espaços seguros” evitam a reflexão de certos assuntos como o machismo, homofobia, transfobia, misoginia e racismo. Mas não é necessário abordar estes temas e acabar com o atraso da mente humana?

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Há alguns anos, o termo “espaço seguro” deixou de representar exclusivamente locais físicos em que há segurança para uma suposta criança brincar sem se machucar ou um atirador poder treinar a mira sem a possibilidade de ferir alguém. Hoje, os espaços seguros ascenderam seu significado de uma dimensão física ao conceito intelectual: garantem, em paralelo aos direitos humanos atuais, que determinadas minorias não se sintam ofendidas com certos conteúdos de discriminação explícitos, através da proibição ou modificação de determinadas informações.

No âmbito estudantil, os espaços seguros evitam a reflexão de certos assuntos polêmicos, tais como o machismo, homofobia, transfobia, misoginia, racismo, etc.

O passo consequente será o de advertir, por exemplo, num material como um livro, que “o conteúdo desta obra é potencialmente traumático, por propiciar o risco de uma experiência negativa ao leitor”. Depois, teremos o index de leituras proibidas: Mercador de Veneza, de Shakespeare, por disseminar o antissemitismo; Caçadas de Pedrinho, de Lobato, por ser racista; Orgulho e Preconceito, de Austen, por fomentar a sociedade patriarcalista fundada na família “heterossexual” e Ilíada, por retratar a misoginia homérica. (FERNANDES, André Gonçalves)

As últimas décadas, em contraponto aos séculos sepultados, mudaram radicalmente conceitos vigentes que permeavam o Ocidente. O racismo, a homofobia e o machismo, outrora tratados com indiferença e normalidade, vieram à luz das discussões. Paralelamente, as universidades também trouxeram à tona esses assuntos.

Parece, entrementes, que há uma divergência entre os novos ideais e a erudição: alguns clássicos da Literatura, por exemplo, apresentam contextos e características desgostosos aos direitos humanos atuais. A solução, segundo alguns educadores, é ignorar a existência de algumas das mais importantes obras já escritas, tais como Caçadas de Pedrinho e Orgulho e Preconceito. Ou, em casos extremos, até mesmo modificá-las!

Não seriam estas medidas similares à censura? Justificá-las em prol da segurança não seria ignorar o intelecto dos universitários? Através do tempo, correntes de ferro nos pés não se revelaram tão eficientes quanto correntes invisíveis na mente: se há algo que ninguém deveria aprisionar de outrem é o livre-arbítrio do pensamento. A ignorância, como justificativa de segurança contra o surgimento de ideias distintas, é o fim da liberdade.

O preconceito, como demonstrara a História, é um atraso indiscutível à mente humana. Porém, o demônio não deixará de assombrar o inconsciente coletivo ocultando-se a sua existência.

Evidenciar aos alunos a relatividade dos contextos históricos. Contrastar os aspectos positivos e negativos da vasta gama de ideologias. Exemplificar, se não a aprenderam no ambiente doméstico, a herança que nos deixaram os filósofos: a moral e a ética. Pois, se é do intuito do professor, universitário ou não, ajudar aos seus discípulos, a melhor maneira é ensinando-os a pensar: só, por si só, e eternamente sozinhos.

 

Daniel Nakamurahttp://instagram.com/dani.ymn
"Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta." (Jung) Faço umas ilustrações...
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