ESPECIAL NEIL GAIMAN: Vida, Obra e Fotos com Cachorros

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Neil Gaiman

Tragam o bolo, Neil Gaiman está fazendo 53 anos hoje.

O autor britânico, atualmente, vive em Minneapolis, nos Estados Unidos. No currículo, obras como Sandman, Deuses Americanos, Filhos de Anansi e Coisas Frágeis. Entre os vários gêneros que escreveu, e obteve sucesso, estão: contos, romances, graphic novels, áudio dramas, roteiros de teatro e de cinema. Venceu prêmios como HugoNebula, e Bram Stoker.

E se isso tudo não fosse motivo para fazermos um especial sobre ele aqui no Homo Literatus, resta ainda dizer que este papo somente rolou por que Gaiman têm fãs no mundo inteiro, inclusive estes dois que produziram esta matéria.

Prepare para um bate-papo descontraído sobre as principais obras de Neil Gaiman.

***

Gaiman e Cabal

Vilto Reis Vilto Reis: Então, é aniversário do “Príncipe dos Sonhos”.

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Luís Beber: O título é meio forçado. Melhor chamá-lo de Príncipe da Melancolia. Neil Gaiman faz hoje 53 anos, e nós como leitores e fãs de sua obra decidimos apresentar aqui nossas opiniões sobre suas obras e contar um pouco de sua história.

Vilto Reis Vilto: É engraçado que me ocorreu este título em referência à biografia dele que foi publicada aqui no Brasil, O Príncipe das Histórias (Os Vários Mundos de Neil Gaiman, Editora Geracao – 2011). Com certeza há histórias interessantes para contar de sua vida. Lembro de ter visto ele dizer naquele discurso que fez aos formandos da University of the Arts, na Filadelfia, que quando tinha 15 anos fez uma lista de tudo que queria fazer durante a vida. Os tópicos eram: escre­ver um romance para adul­tos, um livro infan­til, uma revista em qua­dri­nhos, um filme, gra­var um audi­o­book, escre­ver um epi­só­dio de Dr. Who. Ele disse que não teve uma carreira, simplesmente foi fazendo a próxima coisa da lista.

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Beber: Com tantos itens da lista já completos, imagino o que ele pretende de novo em sua carreira, além do seu jogo (Wayward Manor). É incrível pensar nessa ligação que o Gaiman tem com a sua infância e adolescência. Aos sete, ganhou As Gaiman e Cabal 2Crônicas de Nárnia e a partir dali aprendeu sobre os prêmios literários, através da Medalha Carnegie que Lewis ganhou em 1956. Em 2010, quando Gaiman ganhou a sua Medalha Carnegie, ele disse “if you can make yourself aged seven happy, you’re really doing well – it’s like writing a letter to yourself aged seven.”. Enfim, acho que o ponto que eu e muitos se identificam com Gaiman está no fato de que seus livros favoritos são também os nossos e ele fala abertamente disso.

Vilto Reis Vilto: Lembro de ter ido num evento onde os participantes disseram que se você copiar algo de alguém, é plágio. Se o Neil Gaiman copiar alguém, é referência. E concordo contigo, o homem é pura referência. Ao mesmo tempo, ele tem uma coisa que é única dele, escrever uma fantasia que une mitos ao mundo moderno. É como se ele escrevesse uma “fantasia adulta” (não que seja o único, claro).

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Beber: Os mundos fantásticos de Gaiman são maduros e obscuros. Os personagens destas fantasias também aparecem dessa Motoqueiros do Apocalipsemaneira, são intensos e muitas vezes caricaturados com referências a outras obras. Analisando os seus livros, gosto de pensar muito no pontapé em sua carreira que foi a sua amizade com Terry Pratchett. Belas Maldições é o livro com mais referências de Gaiman, parecia que ele precisava descarregar anos e anos de absorção de cultura. Foi um bom livro pra entrar no ramo da literatura, mas fraco em comparação a suas outras obras.

Vilto Reis Vilto: Acho que o “problema” deste livro está no fato de você não saber o que é Gaiman e o que é Pratchett. Tenho a sensação que tem mais do segundo do que do primeiro. É claro que tem um humor inglês tradicional, mas ambos são. Fico tentado a dizer que os personagens, ou boa parte deles, vêm mais do Gaiman, o estilo da prosa, contudo, foge bastante do nosso aniversariante.

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Beber: O livro é recheado de piadas que passam de nuance, algo que é característico sim do humor inglês, Douglas Adams mandou lembranças. Situações inusitadas como dois dos personagens principais serem um, um Anjo, e outro, um Demônio, e os dois serem amigos desde o Éden é genial. Ou meu favorito, todas as fitas que são colocadas dentro do Bentley de Crowley, o demônio, terem suas faixas lentamente transformadas em músicas do Queen. Ou até o anticristo ser um garoto que se preocupa com a questão do meio ambiente. Lembras de alguma que te chamou mais a atenção?

Vilto Reis - Editor do Homo Literatus Vilto: Cara, como não citar os quatro cavaleiros do apocalipse em suas motos? Não sei por que, esta cena badala em minha cabeça. É simplesmente cômico e ao mesmo tempo tem total sentido. Imagine que João, o cara que teve a visão e depois escreveu o último livro da Bíblia, visse exatamente o que Gaiman e Pratchet descreveram, quatro motoqueiros, mas isso há dois mil anos atrás, é óbvio que ele os chamaria de “cavaleiros”. Isso é cômico. E a Anathema Device, (“anátema”= Maldito (malditos sejam por uma ideia tão boa)), descendente   da bruxa Agnes Nuter, morta há trezentos anos atrás, cuja única missão é desvendar o livro que chegou até ela, de Lugar Nenhumprofecias da bruxa. Isso é incrível. Engraçado que estou falando assim do livro do Gaiman que eu não gosto muito.

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Beber: A história não é boa, o livro me vale por estas piadas. E pelo Crowley, ele é a “alma” do livro. Em seguida, temos Lugar Nenhum, que foi a transcrição da série que o Gaiman escreveu para a BBC, vou deixar o maior fã dessa obra falar.

Vilto Reis Vilto: Cara, o que é Lugar Nenhum? Um dia, disse para um amigo meu que era um livro sobre mim. Ele tinha lido o livro, não entendeu nada. E aí sim eu tive vontade de desaparecer. Fiquei com cara de idiota.

O livro conta a história de Richard Mayhew, um sujeito propositalmente sem sal (como grande parte dos protagonistas do Gaiman no começo das histórias). Ele é noivo de Jessica, linda e ambiciosa. Tudo ia muito bem para os dois, até que numa ida a um restaurante, uma moça vinda do nada desaba à frente de Richard; e, contrariando Jessica, ele decide ajudá-la. Este fato mudaria sua vida por completo. É seu primeiro contato com a “Londres de baixo”.

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Beber: É um livro de grandes personagens. A minha impressão é que todos estão desempenhando o seu papel ali naquele mundo, dando uma sensação que a Londres de Baixo é viva e pegamos a história já andando. Eu acho genial os dois assassinos de aluguel, o Sr. Croup e o Sr. Vandemar, que ao mesmo tempo que são o perigo da história, mas também são a parte mais cômica do livro.

 

Vilto Reis Vilto: Talvez aí está o ponto forte do Gaiman, ou um deles, construir antagonistas sombrios, mas cômicos. Ainda vejo como o Old Bailey e Marques de Carabasmelhor personagem do livro o Marquês de Carabás. E é interessante que o vejo assim tanto no romance quanto na versão em minissérie da BBC. É o mesmo personagem. Encarna o típico sujeito meio mercenário, estilo Han Solo, mas com dreadlocks na cabeça, sobretudo e botas de couro. É meu personagem favorito do livro. Embora a Door, a menina que abre portas em qualquer lugar (literalmente) e o Anjo que vive no esgoto também sejam muito bem construídos.

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Beber: Mesmo para nós que não conhecemos Londres, o livro é incrivelmente icônico, imagino para quem viva na cidade.

Vilto Reis Vilto: Uma coisa que pensei agora é que, apesar de sombrio, o Gaiman também se destaca em sua “escrita para crianças”, como Stardustem Stardust e Coraline. 

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Beber: Coraline apesar de ser para crianças, é muito sombrio. E Stardust é um livro que leio e digo, isso não é Neil Gaiman. É estranho como ele pode ser um autor tão versátil. Nessa história novamente vejo personagens geniais, mas com uma história fechada que segue a estrutura mítica. Os conceitos de Stardust também são incríveis, na criação desse universo fantástico dá para enxergar muitas das referências de Gaiman na fantasia. Enfim, um livro completo, mas ainda falta algo, não que ele não tenha nada de sombrio, mas falta ainda algo. E o filme é sensacional.


Deuses Americanos

Vilto Reis Vilto: Confesso que Coraline não me encanta. É um dos pontos que não dou a Gaiman. Em minha opinião, não é o “novo Alice no País das Maravilhas“, como muita gente diz. É razoável, mas falta alguma coisa. Há o vazio que todos os livros do Neil Gaiman, mas não é isso a que me refiro. Stardust ainda não pude ler.

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Beber: Chega de falar de livros pra crianças que eu não sou a Xuxa. Vamos falar de Deuses Americanos. O romance que finalmente definiu Gaiman na literatura. O universo fantástico do livro é genial. Como o mundo funciona para os deuses e como cada deus é uma personificação, e diferente em cada país. É um livro com ritmo, uma estrutura boa e personagens incríveis. E além de tudo isso, é sombrio e surreal.

Vilto Reis Vilto: Chegamos ao meu romance preferido. Aí sim temos Gaiman na íntegra na narrativa. A ideia de Deuses Americanos me impressiona. Esta coisa de cada povo que imigrou para a América ter trazido seus deuses consigo, mas com o passar do tempo, eles irem enfraquecendo, por não terem mais adoradores.

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Beber: A personalidade de cada um dos deuses chama muito a atenção. O fato de Shadow não saber metade do tempo o que ele está fazendo nos deixa desesperados tentando absorver cada detalhe da obra em busca de dicas a partir das ações do Sr. Wednesday. E o plot twist do final é muito genial, eu realmente fiquei surpreso quando li.

 

Vilto Reis Vilto: Engraçado você comentar do plot twist no final. Estava lendo esta semana uma entrevista que o escritor Jorge Luis Os Filhos de AnansiBorges concedeu à Revista Paris Review, na qual ele disse que não gostava de ler histórias daquelas em que você lia para saber o final, pois são histórias de uma só leitura, depois perdem a graça. Sobre o Deuses Americanos, tenho a sensação que ela é mais do que uma história com um bom final, maior do que isso, é uma crítica à nossa sociedade. É uma história que nos revela a nós mesmos. O final é bom, o percurso é melhor.

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Beber: Claro, o percurso, ele dois meses parado no meio do Alaska. E assim não vale Vilto, primeiro Lugar Nenhum era teu favorito, agora Deuses americanos também é, logo tu vai dizer que ama Os Filhos de Anansi e tomar o meu lugar como fã maluco dessa obra. Apesar de eu achar Deuses Americanos incrível, Os Filhos de Anansi é para mim uma obra ainda mais com a cara do Nail Gaiman. O personagem inicial volta a ser um britânico sem sal, diferente do sarado e gigante Shadow que fica lendo Heródoto. É um livro muito musical, assim como em Deuses Americanos vislumbramos a história da colonização americana, em Os Filhos de Anansi existe a música e a cultura afro-caribenha e como ela se estende até a os EUA, até a Flórida.

Vilto Reis Vilto: Nenhum demérito a Os Filhos de Anansi, mas vejo-o como um romance menor em relação a Deuses Americanos. Não digo que seja pior, apenas tem uma amplitude delimitada de forma mais pequena. O que quero dizer é o seguinte: Deuses Americanos está fazendo um crítica à cultura predominante no mundo, os americanos, sua mitologia, ou como a ignoram. Os Filhos de Anansi está tratando de Charles Nansi, um problema específico, único, de relacionamento. Musicalmente, Os Filhos de Anansi é melhor, mas como história, ainda fico com Deuses Americanos.

 

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Beber: Eu acho ele melhor exatamente por não ser tão grandioso, por trabalhar melhor os personagens. E Vilto, Sr. Wendesday ou Sr. Nansi? Quem é o melhor? Quem é o mais pegador? Quem é o dono de todas as histórias?Deuses Americanos 2

Vilto Reis Vilto: Golpe baixo me perguntar isso, hein? Apesar do Sr. Wednesday ser quem é (e não vamos dizer quem ele é, só para quem não leu ficar curioso), não acho que ele seja páreo para o Sr. Nansi. Mas o dois têm uma coisa em comum, ambos filhos da p… (risos).

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Beber: Como todo deus deve ser. O incrível nessa mitologia de Gaiman é que como os dois são deuses antigos eles aparecem como homens velhos, assim o deus da internet aparece como um jovem e o deus das ferrovias como um quarentão.

Vilto Reis Vilto: Tá aí uma coisa que Deuses Americanos tem de sensacional, Os Filhos de Anansi, propositalmente, não tem: os “deuses novos”. Quando você pensa o que seria um “Olimpo moderno”, baseado no conceito de que aquilo que é adorado vira um deus, como era nos povos antigos, sem dúvidas nossos deuses atuais seriam seres ligados à internet, ao consumo, ao sexo. Penso que Os Filhos de Anansi reflete sobre aquilo que perdemos sobre as histórias, o valor de contá-las, ou cantá-las. Isso tem uma beleza sem igual, admito, é também mítico.

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Beber: Ele é o meu livro favorito entre os dois por ser minimalista. A magia nesse universo fantástico eu acho bem única, não é algo exagerado, mas sim tão sutil que pode ser confundida com uma boa lábia. Outro fato é que também dos dois, ele é o que mais me diverte, as situações são mais inusitadas, acho também incrível o jeito de como o livro se encaminha para o final, como cada personagem que já foi apresentado toma uma nova forma para preencher a trama, isso é único. E é claro o final, mais inesperado impossível. Mas Deuses Americanos é bom também.

O Oceano no Fim do Caminho

Vilto Reis Vilto: Em minha opinião, Os Filhos de Anansi é bem mais próximo ao novo livro do Gaiman, O Oceano no Fim do Caminho. Mas nem se compara, Filhos… é bem mais “redondo”, fechado. Parece que Oceano… acaba meio inacabado, embora tenha um fim satisfatório. Não sei se ficou claro o que eu quis dizer.

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Beber: O Oceano no Fim do Caminho me lembra muito mais de O Livro do Cemitério. Os dois apresentam uma aventura leve, infantil, mas dentro de uma trama sombria, e no caso do Livro do Cemitério, até macabra. O Oceano me deixou um gosto amargo no final, não acho que o livro tenha ficado inacabado, mas a história fica em aberto. Quem sabe Gaiman não escreva um conto falando do que aconteceu a este personagem.

Vilto Reis Vilto: Engraçado, eu os vejo como livros de categorias diferentes. Gosto dos dois, mas considero O Livro do Cemitério as Crônicas de Nárnia do Gaiman, um livro de fantasia mesmo. O Oceano no Fim do Caminho pode até passar por um livro realista, se você quiser, no seu caso, tenho certeza que não quer (risos). Mas sim, tem um final aberto, e por isso, nem acho que seja um livro tão juvenil quanto o do cemitério.

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Beber: O fato de eu comparar muito estes dois livros é porque os personagens nos dois parecem muito com o próprio Neil Gaiman. Quanto a comparações, se o Livro do Cemitério for o Crônicas de Nárnia, O Oceano me lembra muito mesmo de Ponte para Terrabítia, por isso o leio como um livro mais surreal.

Vilto Reis Vilto: Mas sabe que tem um gênero em que Gaiman, segundo penso, é ainda melhor do que no romance? Como você deve imaginar, falo do conto. Bom, só não melhor do que Deuses Americanos, mas no que tange ao restante, acho melhor.
Fumaca e Espelhos

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Beber: Tem só um conto que sozinho é melhor que Os Filhos de Anansi, os outros acho tão bons quanto os romances, não consigo compará-los, Gaiman é um mestre na arte dos contos mas seus livros também são incríveis. O Conto em questão é o que abre o Livro Fumaça e Espelhos, chama-se Cavalaria. Como algumas pessoas sabem, eu sou aficionado pela mitologia celta e as histórias do rei Arthur e da Távola Redonda. O conto não é grandioso, apesar de se tratar desse tema. A personagem principal é uma senhora já idosa que acaba comprando o Graal por 30 pence numa loja de usados. Essa ironia é tão maravilhosa que me arrepia logo no início do conto, ele prossegue então contando de um cavaleiro que vai atrás do Graal e encontra a idosa, e aí entram mais algumas situações completamente inusitadas e tão icônicas que fazem deste conto o melhor de Gaiman.

Vilto Reis Vilto: Apesar de saber de sua fixação pela lenda do Graal, até saiu um conto seu ilustrado sobre este assunto, não esperava que fosse citá-lo. Eu, particularmente, nem lembrava desta história. Mas agora que você citou, lembrei do meu sentimento em relação ao conto (não é isso que todo leitor sente em relação a uma história?). Também achei duma comicidade magistral. Acho que está aí, outra das características do Gaiman, ele coloca o item mais importante do mundo à venda numa loja de usados. Uma vez escrevi um conto curtinho, quando ainda muito influenciado pelo Gaiman, que se chamava: Diariamente, o fim do mundo. O conto é ruim, confesso. Mas a ideia tem esta coisa do Gaiman, o conto falava que o universo acabava todas as noites, enquanto as pessoas dormiam. Ele (o universo) tirava as almas das pessoas, se autodestruía, depois recriava tudo e devolvia as almas; e, às vezes, se enganava de corpo: por isso têm dias em que acordamos não nos sentindo nós mesmos. Enfim, mais influenciado pelo Gaiman, impossível.

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Beber: Como não quero só falar de Cavalaria vou aqui mandar todo mundo ler o conto. Leiam. Acho que somos ambos bastante influenciados por Gaiman, mas não sei falar de algum conto meu específico que tenha só influência dele. O legal é ver que assim como
Coisas Frageisnós, o cara também escreve influenciado pelas histórias de outros autores e até brinca com os universos deles. Lembro dos contos dele que se passam dentro do Cthulhu Universe e também do conto sobre a Susan das Crônicas de Nárnia.

Vilto Reis Vilto: São dois contos bons, sem dúvidas. Particularmente gosto mais do Shoggoths Old Peculiar, que brinca com o universo do Lovecraft. Contudo, meu conto preferido dele é A Vez de Outubro, uma história onde os meses do ano se reúnem para cada um contar um conto. Outubro (mês do meu aniversário) conta a história de um menino que foge de casa. Sombria, como todas as boas histórias de Gaiman, esta reflete a questão da inadequação na infância. Cara, isso é poderoso, quase todos já nos sentimos assim.

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Beber: Mais uma vez a relação de Gaiman com a infância. Acho um conto marcante, mas não é o melhor. Antes desse há ainda Arremate por Atacado, onde o cara quer um matador por aluguel e quando consegue negociar com ele descobre que quanto mais pessoas ele querer matar, mais barato fica. Como o personagem é um pechincheiro ele se interessa no negócio. E além desse conto que tu mencionou, tem ainda outro conto no qual ele mescla Lovecraft com Sherlock Holmes o Um Estudo em Esmeralda.

Vilto Reis Vilto: Então, sei que o Um Estudo em Esmeralda ganhou vários prêmios lá fora, mas confesso que não é um conto que me atrai. O do matador de aluguel é bom, mas não acho o melhor. Outro que gosto é Como falar com as garotas nas festas, que é uma história estranha por excelência, você nunca sabe ao certo quem são aquelas pessoas que estão na festa.

 

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Beber: É um conto bastante surreal, e assim como em alguns contos ele arremete a infância, esse ele faz uma brincadeira com a época da adolescência, das festas e como os garotos enxergam as garotas, como seres de outro mundo, o que no caso desse conto é Coisas Frageis 2literal. Seguindo a ordem do Coisas Frágeis, vem outro dos contos geniais de Gaiman: O Pássaro de Sol, que conta a história do clube de epicuristas, gente que aprecia comer os mais estranhos tipos de comida. Acho um conto inclusive bem infantil e divertido, tem um momento entre os membros do clube no qual eles discutem se já comeram todas as comidas mais peculiares do mundo e vão citando uma a uma.

Vilto Reis Vilto: Simplesmente sensacional. Tem uma ideia cíclica também na história, de um fim que na verdade é começo. Enfim, Gaiman (risos).

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Beber: Dois últimos contos que acho que vale a pena serem citados. Nicolas era…, que é um conto de 100 palavras, tão rápido que nem posso falar muito. E A Ponte do Troll, outro conto cíclico e este mais uma vez com um personagem principal que é parece muito ser o próprio Gaiman.

Vilto Reis Vilto: No final das contas, um autor não consegue fugir de si mesmo. E aí, entra outra obra do Gaiman que, o personagem principal, me minha opinião, é ele mesmo: Sandman.

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Beber: Li muito pouco de Sandman, mas tanto na personalidade quanto na própria aparência o personagem é uma caricatura do próprio escritor. E é mais um universo fantástico magistral em que Gaiman colocou suas mãos.

Vilto Reis Vilto: Exato. Também li pouco, apenas as 75 edições (risos), mesmo assim, parece pouco. Dá vontade de reler tudo. É como se o Gaiman tivesse levado a literatura pros quadrinhos. Por exemplo, na ed. 19, cujo título é Sonho de Uma Noite de Verão; e na ed. 75, A Tempestade; as duas homenageando o tio Bill, também conhecido como Shakespeare.

Sandman

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Beber: Nessa obra o Gaiman extrapola no surrealismo, por muito se passar nos sonhos. Também acho incrível as referências que ele coloca na série e a velha ironia inglesa. Sobre Shakespeare, do pouco que li me lembro de como ele mostra a origem da peça Sonhos de uma noite de verão.

Vilto Reis Vilto: Eu até já escrevi sobre isso no Homo Literatus, as duas edições especiais sobre Shakespeare estão interligadas. Em suma, Sandman, o senhor do sonho, negociou com o bardo inglês que lhe daria toda a inspiração para escrever, em troca, pediu duas histórias para ele. A primeira, Sonho de uma noite de verão, Sandman reuniu vários seres mágicos para assistir; a segunda, A Tempestade (última peça que Shakespeare escreveu e a mais sombria), o rei dos sonhos pediu para si. Isso justificaria por que estas duas peças são justamente aquelas que, na obra de Shakespeare, têm elementos de fantasia. Só para ter uma noção do alcance da obra Sandman. Bom, só falamos de duas edições, são setenta e cinco. Tem também a questão dos perpétuos, seres que estão acima dos deuses:

Gaiman e Cabal 3Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio. E cada um deles tem seu reino. Quase todo mundo que lê Sandman tem a Morte como sua preferida (uma garota meio punk); mas, particularmente, eu prefiro a Delírio. Totalmente imprevisível, como num trecho que lembro agora que ela, do nada, decide segurar “balões-peixes”.

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Beber: Ok Balões-peixe, sou obrigado a terminar de ler a série. Enfim, é uma carreira muito grande para podermos comentar tudo, tenho certeza que esqueci de muitas coisas e vou querer me jogar de um prédio por isso. Se você que está lendo lembrar de outro livro, quadrinho ou conto marcante, comente aí. Ah, e se você tiver mais argumentos para mostrar para o Vilto o quão Os Filhos de Anansi é melhor que Deuses Americanos, comenta pra eu jogar na cara dele.

Vilto Reis Vilto: Isso é tipo como pedir “ajuda pros universitários”, sr. Beber (risos). Mas é isso aí, foi muito bom falar sobre o nosso aniversariante de hoje. E o cara é novo ainda, tem completa 53 anos, que venha muita coisa por aí. Particularmente, espero que ele escreva mais alguns Deuses Americanos, mas cada um tem sua obra preferida do cara, o que acaba dando uma noção do tamanho do que ele fez. E esta é a deixa para os nossos leitores comentarem suas obras preferidas.

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Beber: Ah, e mais uma coisa Vilto.Gaiman e Cabal 4

Vilto Reis Vilto: Sim?

Luis Beber - Webmaster do Homo Literatus Beber: Faça boa arte. ^^