Especial sci-fi: Anno Dracula, de Kim Newman

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Mais do que uma simples sequência, Anno Dracula une o clássico de Bram Stoker e vários outros personagens, reais ou literários, da época

imageNão espere encontrar um Drácula apaixonado, muito comum de algumas décadas para cá. Ele não voltou por sua “amada” Mina e a Ordem do Dragão sequer é mencionada. Kim Newman escreveu uma obra divina, a continuação perfeita para o Drácula de Bram Stoker. Por quê? Pelo estilo narrativo próximo ao de Bram, focando um protagonista por capítulo, e pela desenvoltura do personagem principal (Drácula). Em Anno Dracula, lançado pela primeira vez em 1992, o Rei dos Vampiros é tão maligno e misterioso quanto seu original. Anno Dracula é a Era na qual o rei dos vampiros vence Van Helsing e se torna o rei da Inglaterra.

Vlad Tepes venceu Van Helsing e os demais cavalheiros que lutaram contra ele na época em que chegava à Inglaterra. Ele pôde dar continuidade aos seus planos de dominação, transformando quase toda a população londrina em seres vampirescos e bestiais. Drácula, assim, conquista a Rainha Vitória e se torna rei. Ele passa a ter, então, total controle sobre o Reino Unido e pretende espalhar sua linhagem pelo mundo. A Revolução Industrial não existe na história, pois Drácula faz sua própria revolução vampira.

O Conde não é, porém, o único. Existem outras linhagens espalhadas pelo globo e, consequentemente, pela Inglaterra. Os renascidos de Drácula, no entanto, desenvolvem doenças durante os processos de transformação e muitos deles morrem. O Rei Vampiro não se importa com isso, claro… Mas, existe para essas criaturas o Hospital Toynbee Hall, em Whitechapel. Lá, trabalham dois protagonistas do romance: Dr. Jack Seward (o mesmo de Bram Stoker) e Geneviève Dieudonné, uma vampira anciã mais antiga que Vlad Tepes.

Já no início do livro, o leitor se depara com os primeiros assassinatos cometidos pelo Faca de Prata – e com o próprio assassino. Esse homem que mata vampiras prostitutas é Jack, o Estripador. As mortes causam alvoroço entre os vampiros renascidos e abala todas as estruturas das esferas de poder inglesas. Frios e quentes se unem para descobrir quem está por trás das mortes. É dessa forma que Charles Beauregard, outro protagonista, entra na história. Ele é membro do Clube Diógenes, destinado apenas a cavalheiros humanos influentes a serviço da Rainha Vitória. Charles e Geneviève se tornam aliados na investigação.

978-85-7657-089-9
Aleph, 2009

Durante essa caçada entram em cena diversos personagens já conhecidos na literatura. De Bram Stoker, além dele próprio, há: Mina, Conde Drácula, Van Helsing, Dr. Seward, Lucy Westenra, Quincey Morris, Renfield, Jonathan Harker e Arthur Holmwood. Newman inclui os lendários Henry Jekill (O Médico e o Monstro), Inspetor Lestrade e Mycroft Holmes (das histórias do detetive Sherlock Holmes), Dr. Moreau (A Ilha do Dr. Moreau), entre outros. O autor também romanceia personagens históricas, como a Rainha Vitória, o Estripador, Oscar Wilde, Catherine Eddowes… A lista é grande. Mas, com desenvoltura ímpar, Kim Newman não faz confusão ou uso desnecessário de tais personagens. É tudo tão bem arrumado que o leitor se convence de que todas essas pessoas, reais ou não, coexistiram.

E, falando em personagens, por onde anda o Empalador enquanto todos procuram pelo Estripador? Protegido pelas paredes do Palácio de Buckingham, Conde Drácula só faz sua primeira aparição no último capítulo. E não precisaria ser diferente… Na verdade, é espetacular! O desfecho é de tirar o fôlego.

O que Newman fez nessa obra é para poucos. Seus vampiros não são necessariamente românticos ou completos demônios, eles têm tantos medos e crenças quanto suas presas. A atmosfera é densa, nevoenta, sombria. A história se desenvolve em suspense e terror, ficção e realidade. Há crueldade, sarcasmo e romance na medida certa. O autor casa o ambiente steampunk com horror, política, investigação policial e história sem ser enfadonho. O livro prende o leitor nas teias conspiratórias contra o terrível Vlad Tepes até a última página. Imperdível.