Estamos assassinando a literatura!

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Em seu livro A literatura em perigo, Tzvetan Todorov menciona que estamos assassinando a literatura nas escolas e lamenta o modo como ela é ensinada e discutida

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O teórico da literatura, filósofo e linguista Tzvetan Todorov, em seu famoso livro A literatura em perigo, publicado originalmente na França, em 2007, e no Brasil em 2009, menciona que estamos assassinando a literatura. A declaração é feita despretensiosamente, mas provoca seus leitores, desperta curiosidade em relação ao motivo desse assassinato da literatura, isto é, de que modo ele se dá.

Segundo Todorov, no âmbito escolar não se aprende sobre os livros em si, mas sobre aquilo que os estudiosos da literatura e críticos literários falam sobre eles.  Para falar disso, o teórico parte da situação da literatura na França. No entanto, é evidente, podemos dizer que no Brasil a mesma coisa tem acontecido – mais adiante falaremos disso especificamente.

De acordo com Tzvetan Todorov, ao abordarmos a literatura sem levar como foco central o livro e não as críticas sobre ele, separamos a própria literatura da vida dos homens e mulheres, uma vez que a literatura está profundamente ligada à compreensão da condição humana. Para Todorov, a literatura não é mera história fictícia, mas o modo de mantermos certo contato com seres humanos diferentes de nós; com culturas, histórias e gostos distintos dos nossos. Por meio da literatura, seus personagens reais ou literários, podemos passar a sentir e pensar adotando o ponto de vista dos outros. Ele assevera, ainda, que este é o único meio de caminharmos para universalidade.

Em seu livro, Todorov aconselha que os professores ensinem literatura partindo de textos que despertem interesse evidente para os alunos e, a partir disso, caminhem progressivamente para textos mais distantes, se assim podemos chamar, textos de mundos e de realidades que sejam menos conhecidos pelos alunos. Acima de tudo, aconselha que se dê aula sobre o que falam os livros, e não sobre o livro enquanto objeto de estudo ou enquanto produto do mercado editorial.

Desse modo, acredita o teórico que todos os alunos, ou ao menos grande parte deles, possam se reconhecer ou reconhecer outras pessoas próximas nas histórias de identidade, amor, felicidade, tristeza, depressão ou até violência existentes nas obras literárias. Isso pode gerar um grande processo de humanização, por meio da empatia. Esse processo é fundamental na vida de todos, por isso despertar o interesse dos alunos pela literatura é muito importante.

Em relação ao ensino de literatura no Brasil, no que diz respeito ao ensino público e não ao privado/particular, ao qual poucos têm acesso neste país, é visível que pouco espaço é dado para a literatura no ensino fundamental; no que diz respeito ao ensino médio, o ensino de literatura concentra-se, geralmente, em ensinar escolas literárias e suas características, sendo poucos os livros indicados para leitura. Os motivos são inúmeros.

Um deles é que o professor de língua portuguesa (ou de português, como preferirem) tem de ensinar, no ensino médio, gramática, gêneros textuais e literatura, ou seja, é muito conteúdo para pouco tempo, e uma boa aula de literatura demanda bastante trabalho e tempo. Outro motivo possível é que, muitas vezes, o professor não sabe como ensinar literatura, não sabe como ler um texto literário e trabalhá-lo em sala de aula, e esta é uma deficiência que está ligada às graduações em Letras (mas esta discussão não cabe neste momento). E também há professores que dizem não gostar de literatura, e aqui os motivos podem ser inúmeros também: não gostar de ler literatura de fato; não saber ler literatura e não se dispor a aprender ou ter vergonha de admitir isso; querer dar conta amplamente dos outros conteúdos exigidos e deixar a literatura em último lugar, trabalhando com o que der tempo.

Evidentemente, não podemos, em nenhum caso, generalizar. Existem bons professores de literatura nas escolas do ensino público do país, professores que gostam de ler e que motivam seus alunos a ler, o que culmina em um processo de humanização dos alunos por meio da leitura de textos literários. Professores guerreiros que, mesmo com tantos conteúdos a serem ensinados aos seus alunos, conseguem e fazem questão de dar vez e voz à literatura, partindo de um ensino, primeiramente, sobre o que falam os livros e não sobre crítica que fizeram a eles ou partindo das características que os colocam em uma determinada escola literária.

O que resta, agora, não só aos professores mas também aos leitores, é cada vez mais lutarmos para que a literatura não seja assassinada, para que ela continue viva, em nossas vidas e em nossas escolas.