Experiências na formação de um personagem em Olimpo de Vento, de Wagner Bentes

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Confira por que ler Olimpo de Vento, de Wagner Bentes

olimpo[…] Era verdade. Ele tinha inveja de Cesário, ciúmes de Olímpio, indiferença por Isabel, desencanto por Lola e medo de Dulce. Mas esses não eram nenhum, sentimentos nobres. E ele se julgava um menino com nobreza. […] (p. 80)

Ao contrário do esperado em um personagem principal, a ideia da construção de personalidade em Olimpo de Vento, de Wagner Bentes, surpreende. Aos poucos; em um início de enredo leve, que se dá em parte pela escrita descritiva do autor, o personagem principal Bernardo, é situado em meio à dor de não sentir o amor de mãe.

Dulce, a mãe de Bernardo, demonstrando pouco ou nenhum interesse em sua afetividade, trata-o como menino e não filho. Apesar disso, a criança insiste em chamar atenção da mulher dura e indiferente, tendo sempre com uma grande dificuldade em aceitar as atitudes vindas de Dulce, que fica acometida pela irritação frente às suas ações para ser notado e, acima de tudo, compreendido.

No convívio frustrado com pessoas, ao redor de críticas vindas pelos moradores do Monte Olimpo, onde situa-se a moradia dos personagens, o menino retrai-se ainda mais. Com sua de mania de imaginar, rebelar-se e de viver em seu próprio mundo, a personagem nuclear do romance se frustra em tentar compreender a si próprio e os outros.

Todos esses relacionamentos, com Lola, Cesário, Olímpio, Julia e Dulce aumentam ainda mais a confusão mental do pequeno ser, que repreendia toda a sua existência e precisava moldar sua própria identidade. Através do materno, sempre distante e fragmentado, tem-se a sensação de não firmeza, de estar flutuando, sem assoalho; como se o leitor fosse partes fragmentadas, assim com a mãe.

Enquanto todos estavam envolvidos demais em suas atribulações, Bernardo, mesmo rodeado de pessoas, estava só diante de suas inseguranças, incertezas e descobertas vivenciais. Revelando o dia a dia de pessoas, seus gestos fúteis e banais na formação de uma vida prestes a ser moldada e, posteriormente, consolidada.

Em meio às suas descobertas e observações, Bernardo sente o amor por Julia. Um amor sempre inalcançável, abalado e ferido. Ao criar uma capa protetora para todas as suas amarguras, medos e o amor, ele sempre ficava isolado, excluído pelo grupo, impedindo que qualquer um se aproximasse, mesmo com a sua vontade, adiando, assim, ainda mais sua verdadeira felicidade.

“Bernardo comprimiu os olhos. Estava só. E com aquele misto de sensações a penetrar-lhe o espírito. […] Um bólido perdido no mundo.”

Como estava a observar tudo e todos, nas mesmas previsíveis conversas, atos, erros e defeitos, forçava-se a não contaminar-se por essa monotonia de eventos e situações consideradas tão banais, levando o leitor a tentar entender seus reais motivos e sua falta de amor. Ele não era amado ou apenas guardava esta impressão dentro de si?

Já na segunda parte do livro, devido a uma descoberta importante, não vive mais entre seus familiares. Sentindo um grande desejo de mudança, ele decide aperfeiçoar o que tinha de bom. Durante este período, relaciona-se com uma mulher mais velha, Bárbara, apesar de sempre esperar por algo mais. Envolve-se com ela como forma de preencher o vazio que sentia por não ter Julia por perto, tinha Bárbara como um experiência boa, um jeito de aprender mais sobre as próprias relações humanas. Bárbara não fazia parte dos planos de Bernardo, não era isso que ele queria, não era o que ele sonhava e tinha como algo futuro e longínquo. Ele se adapta para um vida com ela, por uma necessidade de companhia, como apoio. O relacionamento entre eles não é tão incomum: diante de tantas necessidades, estamos cada vez mais insistindo em relacionamentos inconsistentes. Estavam juntos, mas não se amavam.

Aos poucos, é possível perceber que todos os personagens são frustrados, cada um de uma maneira, mas apenas Bernardo demostrava; os outros viviam debaixo da máscara criada por eles e o orgulho. Seu amor por Julia, sua paixão de infância, que aos poucos, afastada, seguiu um caminho que a fez tornar-se parecida com o jovem (solitária e contemplativa), está a todo momento aceso. O que causa a mudança em sua vida é o seu novo modo de ver o mundo, sua nova perspectiva. O narrador faz perguntas que interceptam a própria mente do agora jovem rapaz, em meio às suas frustrações, à sua necessidade de mudar como pessoa, de se abrir e deixar de lado a solidão. Recomeçando sua vida e, consequentemente, de seus próximos.

A obra de narrativa linear mostra a necessidade de compreender, perdoar, ouvir e viver; mostra que a verdadeira mudança é apenas uma nova forma de perceber e reconhecer o mundo. O ato de lê-lo é como vento. Mesmo leve, é perceptível, mexe com nosso interior. Não serve como um firmamento, mas como uma “liberdade”, servindo de exemplo para experiências vividas. Um livro simples, mas de mensagem complexa.

REFERÊNCIA

Wagner Bentes, Olimpo de Vento. 255 páginasDesfecho Romances (Editora Multifoco)