Falar sozinhos, de Andrés Neuman

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“É apenas por aberração estatística que nos poupa a vida de conhecer quão delicado é o malabarismo que mantém nosso corpo vivo. Na literatura, esse tema nos acerta na veia, onde dói”. 

Minha avó morreu de câncer antes que eu completasse 10 anos. Na época, vivíamos todos em Miguel Pereira, na região serrana do estado do Rio. Não muito tempo depois de seu falecimento teríamos de vender a casa por falta de dinheiro. Lembro de minha avó Aida sentada na varanda, cedo pela manhã, na rede ou cadeira dobrável, pegando sol, o braço inchado em uma bandagem e o curativo no peito por baixo da camisa (não lembro se o esquerdo ou direito.) Oito anos depois, motivado por dores insistentes na barriga, foi minha a vez de submeter uma esteira de médicos a um trabalho enfadonho de quase um ano. Ao fim, fui diagnosticado com Doença de Chron. Em minha primeira crise severa precisei ser internado, permanecendo poucos dias no mesmo hospital onde nasci, aqui na Tijuca. Sei que minha estadia foi melhor do que o que muitos podem ter. Ainda assim, dividi um quarto com um homem que para cada visita dos médicos perguntava quando iria morrer. No meu 4º dia lá fingi não ter sentindo durante a noite a febre que senti para forçar uma alta e ir para casa.

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Andrés Neuman

Somos perecíveis. É apenas por aberração estatística que nos poupa a vida de conhecer quão delicado é o malabarismo que mantém nosso corpo vivo. Na literatura, esse tema nos acerta na veia, onde dói. Falar sozinhos, do argentino Andrés Neuman, é assim. O romance conta a história da viagem de caminhão (um Peterbilt que chamam de Pedro) que um pai quer fazer com seu filho quando descobre ter uma doença em que lhe resta pouco tempo de vida, e de como a mãe lida com a degeneração de seu marido. Para propriamente deixar que seja contada, Andrés (que já foi chamado por ninguém menos que Roberto Bolaño de um “talento iluminado”) escolhe que Falar sozinhos dá voz a essas três personagens. Através dessas vozes, que se misturam, narração, testemunho, panegírico, solilóquio, Andrés consegue fazer das páginas de seu livro comoventes, desconcertantes pela forma sincera como olha de frente para a morte e para o amor, muitas vezes com olhar clínico e mais vezes ainda com ternura familiar.

A polifonia de Andrés (que em cada capítulo deixa que um de seus personagens assuma) nunca parece dissonante. As vozes distintas se complementam em um coquetel confessional variado que o autor nos oferece. Lito é um menino de 10 anos, de quem a família escolhe esconder a condição do pai e em cuja inocência existe mágica no mundo. Lito, como toda criança, é disperso, incapaz de evitar deixar falando sozinhos seus pais enquanto corre atrás de sua imaginação contagiante. É competitivo, também: quantifica tudo que faz usando a lógica das pontuações dos esportes e videogames, quer sempre fazer melhor, quebrar os próprios recordes, vencer, ganhar.

Atravessamos Sierra Juárez. Meu pai não encontra a rádio que ele gosta. Então me deixa escolher a música. Estou contente e a temperatura sobe. Isso prova mais uma vez os poderes do Pedro. Pensei bem e percebi que deve ser ele. Melhor dizendo, somos nós dois. É preciso que o caminhão ande e eu esteja dentro para que a coisa funcione por completo. Meu pai olha o mapa todo o tempo. Tudo bem? — pergunta. Ótimo, respondo. Já deveríamos estar em Fuentevaca, diz ele. Pedro está cansado e vai mais lento, rio. O meu pai não acha graça. As piadas dele são piores. Ligo o telefone para jogar um pouco. Escolho o golfe. Ainda não entendo bem as regras. Mas cada vez faço mais pontos. Lito, diz meu pai, esta noite é melhor dormirmos em um hotel, viu? Parece que há um aqui perto. Precisamos tomar banho. E descansar bem. Por que amanhã (a bolinha faz um efeito muito estranho, aumenta, voa até acima de tudo como se atravessasse a tela, desaparece, o contador de metros continua subindo, as árvores se inclinam um pouco à direita, o vento de lado complica a jogada, a bolinha volta, fica pequena, cai em câmera lenta, ricocheteia uma, duas, três vezes, balança cada vez mais devagar, como será jogar na serra? Existirá o golfe de montanha? A bolinha toca o green, se aproxima, já aparece a bandeirola, mas que toque, senhoras e senhores! Desloca-se mais alguns metros, não, acho que não vai chegar), ei, filho, ei, está me ouvindo ou não? Sim, sim, respondo.

O pai de Lito chama-se Mario. O pai de Mario, caminhoneiro de entregas, viajou com seu filho quando ele ainda era pequeno, rito de passagem que Mario corre contra o tempo para replicar, dessa vez no volante. Mario faz o tipo de pessoa para quem viajar está no sangue e a vida enfurnou em um escritório. Seu depoimento carrega um pouco dessa liberdade aprisionada de seu espírito. Seus capítulos começam e terminam com reticências, meias-frases, e sua fala está sempre sujeita às curvas bruscas da consciência e às intromissões das pessoas à sua volta, como se fosse levando um raciocínio interno e interrompessem-lhe o garçom em um restaurante de estrada ou a enfermeira lhe trazendo a comida. Mario combina suas reminiscências da juventude a conselhos e ensinamentos, que parece deixar para Lito como se tivessem o poder de acompanhá-lo pelo resto da vida.

Daqui, assim que abro os olhos, vejo o céu, como se fosse num avião, um avião muito lento, e sabe o que me parece? O amanhecer, digo? Uma falta de respeito, isso me parece, quando jovem eu era notívago, adorava fazer coisas enquanto os outros dormiam, me sentiam impune, com os anos fui me tornando diurno, entra a angústia de chegar tarde às coisas, os notívagos acham que se adiantam a tudo, e quando acordam, já é tarde, desde que estou doente gosto menos das manhãs, têm, não sei, expectativas demais, e o silêncio das noites me assusta, agora prefiro as tardes, são menos exigentes, estou olhando o entardecer e, veja, me vem a dúvida, de onde? De onde diabos sai a beleza? Das coisas não sai, com certeza, olho para bandeja do lanche, por exemplo, uma bandejinha cinza, de plástico, bastante usada, com aquela borda em curva das coisas fabricadas para serem empilhadas, com marcas de facas e garfos, as raias das facas, uma ao lado da outra, parecem um eletrocardiograma, as séries de pontos dos garfos, assim, de perto, são como bolinhas de dados, e de repente essa bandeja me resulta uma coi… desculpa, estão batendo na porta.

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Por fim, temos Elena. A mãe não vai com os homens no caminhão, é algo de pai para filho, mas acompanha-os pelo telefone, nas ligações e mensagens que podem ser lidas nos relatos de Lito. Elena é a personagem mais complexa do livro de Neuman. Uma professora e leitora voraz, seus capítulos são como extratos de um diário onde despeja sua alma e anotações sobre os livros que lê. A edição da editora Alfaguara, na capa, não à toa, mostra Elena em uma praia cinza, contemplando o mar aos seus pés. E corretamente descreve, na contracapa, Elena como transformando “a leitura e o sexo” em “poderosas armas de resistência.” A leitura: um bombardeio de citações que examinam a doença e a perda na literatura; o sexo através da personagem do doutor Escalante, o médico de Mario, com quem Elena começa um caso. Desse relacionamento adúltero e dos tópicos que escolhe, vemos como Elena também se degenera, busca violar-se, machucar-se, humilhar-se até que nada reste, só esquecimento. Acompanhamos Elena, ao longo do livro, e é difícil não ver a mazela que inevitavelmente contrai: o mal dos cuidadores.

 

“A doença, como a escritura, chega imposta”, sublinho no diário, “daí que os escritores se sintam incomodados ao serem perguntados sobre sua condição”, e conosco, os professores, de certa forma acontece o contrário, parece que levamos nossa condição como bandeira, vivemos em uma sala de aula. Imagino que a mesma coisa acontece com os médicos, e deve ser muito pior: para os outros, o tempo todo, eles são sempre médicos. “No entanto, quando perguntados sobre suas técnicas favoritas ou sobre seus autores mais amados, os escritores falarão sem parar, da mesma forma que os doentes se tornam especialmente loquazes quando nos interessamos por suas doenças”, a diferença seria que os escritores não conseguem evitar falar de algo que os salva, enquanto os doentes não conseguem evitar falar daquilo que mais odeiam.

Falar sozinhos é, sim, sobre as doenças e sobre a forma como afetam quem delas padecem e as pessoas ao redor que a elas sobrevivem. É também sobre como as mortes e, de forma mais geral, as viagens, nos põem em um estado de atenção avassaladora. Acima de tudo, no entanto, um livro em que todo capítulo um personagem fala por páginas e páginas sem nenhuma resposta é também sobre comunicação. Comunicar é o que nos faz existir fora de nós mesmos. Através das coisas que dizemos e de como são recebidas, nos definimos: nisso está quem somos. Falar, falar, falar e não receber resposta pode ser evidência de loucura, pode ser método de prisão ou tortura, pode ser metáfora para o inferno. E se por de uma degeneração do corpo, dos fracassos em nossos casamentos, dos conflitos de geração, com a anterior ou com a próxima, perdemos (ou descobrimos que nunca, de fato, tivemos) a capacidade de alcançar as pessoas com quem compartilhamos nosso tempo, o que resta de nós? Mesmo o leitor cuja vida escolheu para preservar das grandes desgraças: contra as pequenas ninguém está imunizado.

Falar sozinhos
Andrés Neuman
Editora Objetiva
2013
168 páginas