Famílias terrivelmente felizes, de Marçal Aquino

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Em Famílias terrivelmente felizes, Marçal Aquino mistura seu estilo policialesco a pequenos dramas da vida real. Personagens que não se encaixam no mundo em que vivem são presentados como eternos aprendizes da sobrevivência.

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Marçal Aquino

Ler Marçal Aquino sempre foi uma grande experiência, desde os tempos de Coleção Vaga-Lume, quando peguei na biblioteca da escola O jogo do Camaleão. Depois, já em época de faculdade, tive o prazer de reencontrá-lo em O invasor e Cabeça a prêmio, novelas policiais que ganharam adaptação para o cinema. A facilidade em adaptar as obras desse jornalista nascido em Amparo (SP) talvez seja por conta da fluidez vertiginosa com que escreve. Uma vez fisgado, é difícil de largar a leitura.

Considero Rubem Fonseca meu escritor predileto (ou um dos). Acho impossível os leitores que também o levam em alta conta não inserirem os livros de Marçal em suas estantes. Assim como Fonseca, ele tem o dom de produzir frases cortantes e precisas. A essa violenta brevidade, posso acrescentar que seus escritos possuem certa poesia e as “cenas” de suas histórias ecoam em nossas mentes por um longo tempo.

São narrativas muitas vezes sangrentas, mas que, além dos assassinatos, tratam das fragilidades do ser humano. Seria possível até dizer que o mais novo tenha se inspirado no mais velho, já que Tony Belotto, em texto no Blog da Companhia das Letras, coloca Marçal entre os escritores que se inspiraram na literatura do “Mestre Fonseca”.

Já havia comprado há algum tempo, mas finalmente retirei Famílias terrivelmente felizes da estante, livro de contos editado pela Cosac Naify e ilustrado por Ulisses Bôscolo de Paula, diferente do que eu já havia lido do autor até então. Os tais contos, escritos entre as décadas de 80, 90 e 2000, apresentam a mesma fluidez e densidade dos romances, com personagens que não se encaixam no mundo em que vivem, eternos aprendizes da sobrevivência. Como se estivesse ciente da cultura brasileira de acompanhar novelas pela televisão, Marçal mistura seu estilo policialesco a pequenos dramas da vida real.

A figura do escritor é retratada como uma das mais solitárias do planeta em “Onze jantares” e “Para provar que um escritor, provocações à parte, está de fato liquidado”. O escrevinhador é um sujeito esquisito, vítima do fracasso de quem se preocupa apenas com coisas poeticamente abstratas, procurando inspiração para produzir o que se possa chamar de alta literatura.

Há as famílias terrivelmente felizes que apresentam infiltrações e rachaduras em suas estruturas, como a de “Sábado”, protagonizado por uma menina de onze anos sorrateiramente observadora, que narra os preconceitos e fraquezas de sua família, escondidos pelos sorrisos (falsos) e simpatias (falsas) dos adultos.

Sobra espaço ainda para o já conhecido Marçal à la Raymond Chandler em “Matadores”, quando ele mostra a mesma habilidade em manusear flashbacks que em Cabeça a prêmio, nessa história sobre profissionais durões por fora, mas que por dentro são frágeis seres humanos quando chega o momento de puxar o gatilho e assassinar uma amizade.

O meu favorito é o conto com o qual os trabalhos são iniciados. “Impotências” é sobre certo tio descrito como alguém que poderia ter sido tudo, mas não foi nada. Refletindo sobre as possibilidades que a vida negou ao falecido parente, o narrador dispara frases sobre gente comum, porém heroica, sobrevivente: “Penélope com cílios postiços e pivô. Ulisses com sapato furado e loção barata”. Confesso que reli o texto duas ou três vezes. É o tipo de leitura que me faz pensar: “se eu fosse escritor, gostaria de escrever dessa maneira”.

Terrivelmente cativante. Arrebatador. Há certa falta de adjetivos para definir o livro. Talvez a definição do escritor Cristovão Tezza, que escreve o prefácio do volume, seja a mais certeira: são contos sobre a “humanidade paralela que povoa seu universo. Em cada gesto, esses personagens parecem pedir licença, às vezes a tiros, para entrar no mundo da humanidade verdadeira”.