Fatou Diome sobre a migração: “É como se deixá-los se afogar funcionasse como um bloqueio para impedir os imigrantes de partirem para a Europa.”

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A escritora senegalesa Fatou Diome expõe a visão de um africano sobre a recente e intensa onda de imigração para a Europa

EUROPE-MIGRANTS_HUNGARY-CAMERAWOMANEm abril, durante um debate sobre imigração no canal France2, a escritora senegalesa Fatou Diome impressionou o mundo com sua visão sobre o movimento migratório na Europa. Com a questão migratória ganhando as capas dos jornais nas últimas semanas, o debate voltou com toda sua força pelas mídias e fez muita gente (re)pensar no assunto.

Fatou Diome aponta sem medo que o discurso europeu sobre a migração alimenta a xenofobia e que os países europeus estão se tornando esquizofrênicos, pois simplesmente separam grupos de “estrangeiros úteis” e “estrangeiros inúteis” sem realmente se atentarem ao fato de que a maioria dos imigrantes podem se tornar cidadãos produtivos. Diome alega:

Quando você é um canadense branco ou um argentino e você vem viver na França, você é um expatriado. Mas, se você é africano, ou indiano, ou afegão, e você vem para a França ou a Alemanha, você está como imigrante, não importa as circunstâncias. É a representação que a Europa faz para o outro que alimenta a xenofobia.

Vivendo em um mundo claramente globalizado, a escritora senegalesa acredita que a solução para os problemas causados pela imigração (ou, antes, pelo racismo e a opressão que se esconde por trás das leis) deve ser encontrada coletivamente – e isso significa que todos, imigrantes ou não, devem ter voz para tratar do assunto. Ela afirma:

Senhores, vocês não permanecerão como peixinhos dourados na fortaleza europeia. A crise atual nos diz muito. A Europa não pode se fechar enquanto houver conflitos em outros lugares ao redor do mundo (…). Vivemos em uma sociedade global, onde um indiano ganha a vida em Dakar, alguém do Dakar ganha a vida em Nova York, e um gabonês ganha a vida em Paris. Quer você goste ou não, este processo é irreversível!

A escritora diz ainda que a África e a Europa são como duas crianças observando uma à outra através de um espelho distorcido. Para Diome, já é hora de respeitarmos uns aos outros. Ela acredita que, se houver respeito, a Europa parará de enviar seus resíduos industriais para a África e, em vez disso, construirá indústrias reais com boa capacidade de desenvolvimento e participação de todos. Dessa forma, segundo a escritora, a África pararia de jogar a culpa nos outros e arcaria com as consequências e responsabilidades provindas da independência. “Se nós, africanos, somos realmente independentes, somos também responsáveis por nosso destino.”. Para isso, porém, a ajuda europeia é necessária; as condições de vida na África são insuficientes para o verdadeiro progresso e o discurso europeu, assim como sua dominação no cenário, não contribui para a melhora, já que a visão é a de que a África deve permanecer de alguma forma dominada para que ela sirva de mercado para a indústria europeia. “Chega de hipocrisia. Ou seremos ricos juntos, ou afundaremos juntos.”, acentua Diome.

A União Europeia, com a sua frota da marinha e da guerra pode resgatar os migrantes no Atlântico e no Mar Mediterrâneo, se quiserem, mas eles esperaram até que os migrantes morram. É como se deixá-los se afogar funcionasse como um bloqueio para impedir os imigrantes de partirem para a Europa. Mas, deixe-me dizer uma coisa: isso não vai dissuadir ninguém porque o indivíduo que está migrando com instinto de sobrevivência, que acredita que a vida que estamos vivendo não vale muito, não tem medo da morte.

Abaixo, trechos do debate legendados pelo Canal Curta!:

A escritora Fatou Diome tem nove livros publicados e tem os movimentos migratórios como preferência de tema em seus trabalhos.