Feliz Cumpleaños, Gabo!

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Inovou não só por criar e ser o maior nome da corrente chamada de realismo mágico, mas também por dominar como poucos a arte da narrar.

gabriel garcia marquez
Saudoso escritor colombiano foi responsável por ressignificar toda uma literatura latino-americana

Existe uma literatura latino-americana antes e há outra depois da passagem explosiva de Gabriel García Márquez pelo nosso mundo. Gabo, apelido carinhoso utilizado não só pelos familiares, mas também pelos milhares de fãs espalhados pelo mundo que o têm como uma espécie de guru, ressignificou a literatura dos trópicos.

Inovou não só por criar e ser o maior nome da corrente chamada de realismo mágico, mas também por dominar como poucos a arte da narrar. Gabo conhecia como a palma da mão o universo da narrativa que destilava em suas páginas em branco. Pode parecer bobo dizer isso, mas não é. Muitos escritores não conhecem o próprio mundo que narram e se perdem nas entranhas do pseudomundo que constroem.

García Márquez, ao contrário, dominava todo o emaranhado do seu universo narrativo, o que pode facilmente ser provado em uma de suas obras mais interessantes, Crônica de uma morte anunciada (1981). A narrativa se abre apresentando, justamente o seu fim, a morte do protagonista Santiago Nasar, e nem por isso deixa de ser interessante. A partir daí, como um bom jornalista que era, Gabo “entrevista” todas as personagens, vendo todos os pontos de vista, centrais e periféricos, como um aracnídeo montando suas teias para capturar o leitor, mesmo já apresentando o ato derradeiro.

O único escritor colombiano galardoado com o maior prêmio literário mundial construiu um mundo próprio, onde várias narrativas se cruzam: o vilarejo de Macondo, inspirada em sua cidadezinha natal, Aracataca, que, segundo consta, já até pensou em mudar de nome para homenagear seu filho mais ilustre.

Cem Anos de Solidão (1967), sua obra máxima e definitiva, é o tipo de narrativa que deixa órfão qualquer leitor (aquele que venceu a dificuldade inicial das primeiras páginas) após levá-la a cabo. Macondo, que apesar de já ter aparecido em outros textos, encontra aqui seu contorno definitivo. Ela é o micro-cosmos da América Latina, talvez do mundo, talvez da história humana. Um Éden ressimbolizado. A família Buendía, talvez o tronco de uma árvore milenar, que desenha sua copa, ora primaveril, ora outonal, sobre uma Pangeia restaurada.

Todo ídolo tem também seu próprio ídolo. Gabo afirmou várias vezes que seu mestre literário era William Faulkner, considerado um dos melhores escritores estadunidenses. Muitos pupilos nunca se acham no pé de igualdade com seus mestres, porém muita gente iguala os dois gênios. Entretanto Gabo é melhor ainda que Faulkner, pois é inovador, crítico de sua realidade, domina, como já dito, a arte de narrar, faz alta literatura e nem por isso é enfadonho. Seu estilo de narrar fez muitos pupilos, tais como Mia Couto, José J. Veiga, Murilo Rubião, entre outros.

Suas personagens sofridas, que apesar de viverem muitas vezes em situações decadentes, são figuras que denotam uma esperança mesmo que inconsciente, algo extremamente importante dentro contexto histórico-político latino-americano. É sua Comédia Humana às avessas! A maior parte de sua obra não está nos entremeios de uma sociedade catatônica, mas no idílico da reconstrução de um mundo que deve se refazer para se tornar humanamente possível – talvez aí seu maior traço ideológico-político.

Deixou de escrever há alguns anos, já acometido pela senilidade. Muitos lamentam por ele não ter nos dado um derradeiro livro, uma contribuição final que coroasse uma obra já imortalizada. Não deveriam lamentar-se, afinal, Gabo já o fizera há muito. E quanto já se alcança o objetivo, o melhor mesmo é se calar, antes que o que se constrói seja destruído por inutilidades. E se calou, ao menos por essas bandas.

De sua Macondo celestial, escondida em alguma curva galáctica, Gabo deve estar apontando as coisas com o dedo, porque ali ainda carecem de nome; e nesse momento há de se recordar daquela tarde, na qual teve a brilhante ideia de ser escritor e nos tirar do tédio.  De lá talvez nos acene assoprando as velas para seu primeiro aniversário na sua nova Macondo.