Fernando Pessoa, o poeta fingidor que acreditava no zodíaco

O amor de Fernando Pessoa foi único, de nome de Ofélia, a vida não alcançou cinco no número de décadas e o riso, quando saía, era nervoso, desconfortável. Preferia andar só consigo mesmo, acompanhado apenas das angústias e tristezas que levava na mente, no peito, na alma, fruto talvez da regência zodiacal. Era Gêmeos com ascendente em Escorpião.

Nasceu Fernando António Nogueira Pessoa, mas foi tantos… Mais de 70, caso se busque algum tipo de exatidão aproximada, mas só três devidamente reconhecidos e com seus respectivos mapas astrais desenhados pelas próprias mãos pequenas do poeta, que volta e meia parava o manusear de palavras para limpar os óculos arrendondados que lhe permitiam ver a vida. Ainda que não gostasse, ainda que não quisesse. Ele via, e mais que isso, sentia. E, melhor: escrevia.

Foi Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos, também. Disse que era nada, mas acabou sendo muito — tudo, não; isso seria pouco para ele. E a maior parte desse muito ficou dentro de um baú, mais de 25 mil páginas, caso se busque algum tipo de exatidão aproximada. Era poesia, teatro, contos, filosofia, crítica literária, traduções, teoria linguística, textos políticos, horóscopos.

Sim, horóscopos. Construiu não só a própria, mas também a vida de seus heterônimos a partir de mapas astrais cuidadosamente desenhados e calculados por ele próprio. Acreditava que o mover dos planetas neste universo tão longe de compreensão era o caminho para compreender o seu próprio ser — o de Fernando, o de Alberto, o de Álvaro, de Ricardo, também. E de muitos mais. Nisso não era fingidor.

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

O mapa astral X a vida do poeta Fernando Pessoa

Pela combinação dos astros quando de seu nascimento, Pessoa é do signo de Gêmeos, de elemento Ar. Conforme uma breve interpretação disponível no link ao final da frase anterior, isso fez dele alguém mutável, com a vida ligada ao intelecto e à comunicação, inquieto, com necessidade de informação. Além disso, ter ascendente em Escorpião lhe fez introvertido, estranho ao mundo, melancólico. Era alguém profundo, algo que, convenhamos, até mesmo um mero conhecedor de suas palavras seria capaz de afirmar.

Fumava 80 cigarros diários. Não gostava de tirar fotografias ou de falar ao telefone e também odiava trovoadas. Certa vez, reza a lenda, deixou de comparecer a uma entrevista que daria à jornalista brasileira Cecília Meireles porque, naquele dia, os astros apontaram que o encontro não seria de bom agouro. Era, portanto, supersticioso.

Seus biógrafos o apontam como de personalidade “emotiva não ativa”, pois, no fundo, era tímido e dado a fortes instabilidades de sentimentos e emoções. Especialmente ao fim da vida, quando foi tomado por uma exagerada angústia existencial. Mas, conforme relatado em À mesa com Fernando Pessoa, de Luís Machado, o poeta tinha “um carácter bastante complexo” e era “um homem simples com uma grande inteligência e de uma extrema sensibilidade”. Também é descrito como reservado, evitando sempre falar de si ou dos problemas que carregava.

Astrólogos ouvidos pelo jornal Expresso, tempos atrás, disseram que o mapa astral de Pessoa mostra alguém em conflito e permanente tensão “entre a introversão e a extroversão, com uma necessidade enorme de ser vista, mas mergulhada num mundo de crises psicológicas e de profundas transformações”. Eis aí, do ponto de vista astrológico, a justificativa para a angústia que vivia o poeta, e talvez para a essência de sua criação.

 

Um amor que não era amor mas era ridículo como todo amor é

Essa angústia profunda também interferiu na vida de Fernando Pessoa. Os últimos 15 anos de vida, passados em uma casa na Rua Coelho da Rocha, nº 16, em Lisboa, foram de sonhos sonhados em uma cama de solteiro, em um quarto de janela grande e pouca mobília. Sobre um dos móveis, ainda preservado na fundação que leva seu nome e está sediada no mesmo endereço, foi onde ele escreveu as cartas ridículas de amor que trocou com sua amada única, Ofélia.

O namoro não durou muito e dele ficou talvez a semente para um dos poemas de amor que assinou Álvaro de Campos, de onde surgiu a impecável afirmação de que “todas as cartas de amor são ridículas”.

A primeira combinação apaixonada de palavras que ele enviou a Ofélia data de 1920, do dia 1º de março. Em 29 de novembro daquele ano, em uma nova carta, ele rompeu a relação.

Fernando morreu só, em 29 de novembro de 1935, após uma série de crises de febre e fortes dores abdominais. Um dia antes, escreveu num papel aquelas que seriam suas últimas palavras: “I know not what tomorrow will bring”. Foi poesia até o fim. E continua sendo, porque poesia não tem fim.

CARTA DE AMOR DE FERNANDO PESSOA A OFÉLIA

“9.10.1929

Terrível Bébé:

Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha tambem. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o Bébé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda lhe telephono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na bocca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a bocca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu hombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e por que é que a Ophelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gaz e expressão geral de não estar alli mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bébé fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma creança, despia-a e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece impossível ser escrito por um ente humano, mas é escripto por mim.

Fernando.”

In: Cartas de amor / de Fernando Pessoa/org., posf. e notas de David Mourão-Ferreira; preâmb. e estabel. do texto de Maria da Graça Queiroz.- Lisboa: Ática, 1990.

 

Karina Sgarbi Author

Jornalista, leitora, viajante y otras cositas más.